Ora, já está acertada a data da feira: 12 de Agosto que será o dia da Festa do Emigrante.
Agora tratem de reservar esse dia para mostrarem os vossos talentos. Já sabemos que 10% das vendas revertem a favor do senhor dos aflitos. Que cada um procure vender o mais possível. Ofereçam ideias, ofereçam-se para participar. Foi feita uma lista que é preciso corrigir e aumentar.
O ti Manel pertencia a uma extensa família, a família Rasteiro, que se confinava, praticamente, à freguesia de Vilar Maior e sua anexa Arrifana, com extensão a Aldeia da Ribeira e Batocas. Nas ocupações de suas vidas eram pastores, lavradores, contrabandistas. As gerações mais novas, emigrantes. Comerciante de gado e carne, o Xico Rasteiro. Ousados e corajosos habitavam no reino do bem e do mal, puxando mais para um ou outro, uns puxando mais a um, outros mais a outro. A vida é assim.
Da velha geração recordo o ti António (Arrifana), o Ti Júlio, o ti Manel e a (mãe do António Rasteiro).
Ao ti Manel Rasteiro tinha uma peculiar maneira de falar a que juntava um autoconceito muito elevado, o que em português da vila se diria que se gabava muito: tina as melhores vacas, as melhores terras ... e nada lhe era impossível. E tinha alguma razão: Era capaz, mais a sua Maria se pôr, sózinho a ceifar as tapadas do pão ou a malhar a meda do pão, ao Seixal. E dava conta dela! E lá vinha o bordão do seu discurso
- Caractel, Maria! Ceifamos nós mais do que um rancho de ceifadores!
Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado!
Eu ainda não fiz viagens
E a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar.
Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exatamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa.
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
Almada Negreiros
Onze anos na companhia de um cão, é tempo. Filho de um macho Huski e de uma fêmea Labrador, acossado pelos irmãos refugiava-se debaixo dos carros, hábito que não perdeu. Patinho feio da ninhada foi o último a ter dono por rogo da amiga Paula vizinha da proprietária que me atirou uma pergunta: - sabe os trabalhos em que se vai meter? Não me lembro, devo-lhe ter alinhavado uma resposta aceitável. Salvaguardando as distâncias entre caninos e humanos é a mesma pergunta de quem resolve ter um filho. Sabe os trabalhos em que se vai meter? Verdadeiramente só sabemos as coisas quando passamos por elas. Tudo o resto são suposições.
Verdade é que o Czar foi e continua a ser o mais fiel amigo da família e meu, em particular. Até posso dizer que a minha vida não seria a mesma. Por ele ( ou por pretexto) tive um Jipe para quando chegadas as férias o pudesse levar a Vilar Maior. E foi muito muito feliz por lá nas águas do Coa e Cesarão e companheiro inseparável nos passeios pelo Porto Sabugal, retortas, Casas dos Moiros...
Agora quase todos os dias, oito da manhã, corre comigo cinco quilómetros ( havemos de subir a parada). Todos os dias, de manhã, ao chegar à cozinha, lá está o Czar patas no parapeito da janela à espera do naco de pão. O czar despede-se de mim quando saio, e cumprimenta-me sempre quando chego. Guarda-me a casa e que ninguém se atreva a passar o limite se eu não estiver. Os garotos vêm ao portão e fazem-lhe festas. E há um velhote que há falta de carinho humano vem e , pensando que ninguém vê, dá-lhe a cara, junto da grade, para ser lambida.
Os blogues - a mais moderna e eficiente forma de comunicar e os antigos jornais do nosso concelho
O homem, porque animal gregário, sente necessidade de comunicar.
Daí o aparecimento dos órgãos de informação.
No território do concelho do Sabugal, que, como se sabe, integra todas as freguesias que pertenceram aos antigos municípios do Sabugal, Alfaiates, Sortelha e Vila do Touro, a maior parte do também extinto de Vilar Maior e ainda uma que foi do Castelo Mendo, houve já inúmeros jornais, mantendo-se ainda hoje alguns.
O primeiro foi a Estrella do Côa, mais cometa do que estrela, porque de efémera existência, ou então a ser estrela seria cadente.
Foi seu proprietário, director e editor Luis José Capello Barreiros, datando do ano de mil e novecentos.
A família Capello terá sido motivada com aquela fugaz iniciativa, pois em 1925, aparece o Sabugal, semanário regionalista, de propriedade, direcção e edição de um outro capelo, José Capelo Martins.
Regionalista, assumia-se como republicano, ao estilo, naturalmente da primeira república que, todavia, já agonizava.
Teve colaboradores de vulto, como foi o caso do padre Alvares de Almeida, que se celebrizou como escritor de nível mundial, sob o cognome de Nuno de Montemor.
De Carlos Marques, que foi geógrafo de mérito e conceituado professor daquela especialidade no liceu da Guarda.
De Joaquim Manuel Correia, imortalizado pelas Memórias do Concelho do Sabugal.
Neste nosso mundo de efemérides, surgiu logo um outro semanário—bairrista e nacionalista—ao estilo tradicionalista.
Foi a Gazeta do Sabugal, que se intitulava orgão dos lavradores do concelho .
Fundou-a e dirigiu-a um grande proprietário rural, possuidor duma extraordinária cultura literária e que foi mesmo um dos grandes doutrinadores do integralismo lusitano.
A nata do escol concelhio, triplamente filtrada—porque regionalista, descentralizadora e nacionalista, segundo o credo do integralismo—acorreu a colaborar.
Casos, entre outros, dos futuros presidentes de camara, o advogado Carlos Frazão e o médico Francisco Manso, do etnógrafo Lopes Dias, do pedagogo Reis Chorão, do político Martins Engracia.
Muito mais tarde aparecem as folhas paroquiais.
O porta voz, mensário criado na Bismula pelo padre Delmar Barreiros.
A Voz do Senhor, da paróquia do Soito.
A Mensagem da Saudade, de Alfaiates.
O Ecos da Aldeia, de Aldeia da Ponte.
O Arraiano, de Vilar Maior, que em 1971 se transformou em Nordeste, integrado numa rede de mensários paroquiais, que cobria meio país.
Apareceram ainda outros, sediados em lisboa.
Como o Terra Fria, o Concelho do Sabugal, o Sabugal que se apresentava como boletim informativo da Casa do Concelho do Sabugal em Lisboa.
Havia ainda jornais que publicavam ou suplementos para o concelho – v g O Amigo da Verdade ou uma página ao concelho dedicada como a que o doutor Jose Diamantino dos Santos manteve no Correio da Beira.
Hoje com os jornais concorrem os blogues
Viúvo, desde a morte da ti Ana Prata há muitos anos, sem filhos, o ti António Rasteiro, para além de todos os Rasteiros e Pratas tem uma enorme família que são todas as pessoas da Vila. O que o tornava, assim uma pessoa tão especial?
Era o vagar, que é uma palavra bem da nossa terra, o dar tempo ao tempo que é no tempo e com tempo que os laços se criam.
Por isso, parava no meio da rua e falava, falava ... E ouvia.
Se o presente não oferecia tema, ia à memória dos tempos outros e desfiava histórias da vida real, suas e do seu interlocutor.
Era a coragem para enfrentar a adversidade, traduzida num "raio" tirado das entranhas capaz de botar por terra toda a a tibieza. Por isso, de menino criado a mando de outros se tornou dono de si, indo à luta.
Era o optimismo contagioso que se sustentava no sucesso das lutas travadas.
Por isso, cumpriu a palavra do Evangelho, multiplicando os talentos que recebera.
Era a crença no poder transformador do trabalho criador de riqueza.
Por isso, foi pastor, lavrador, emigrante.
Era, ao contrário da inveja que corrói e amargura, a admiração pelo sucesso dos outros.
Por isso, tinha tantos amigos.
Era a aceitação da vida como ela é.
Por isso, uma sabedoria assente na experiência e na reflexão.
Era, talvez esse, carácter chão, essa profundeza telúrica, que transparecia no teu olhar e irmanava todas as coisas, todos os homens.
Por isso, talvez por isso, vestias a opa, pegavas na cruz e ias à frente na procissão ou na lanterna a abrir o caminho ... para a eternidade.
Para já vou sentir a tua ausência. Sentirei a falta não do copo do vinho, mas do convite, mão na chave da porta, infinitamente repetido:
- Ó Júlio, vai um copinho?
- Obrigado, ti António. Fica para logo.
A Rua de Cima
Terminava a rua de cima, no seu correr de casas do lado esquerdo com a casa do ti
António Rasteiro, casado com a tia Ana Prata. Só os dois, que filhos não tiveram cuidavam de uma junta de vacas e de uma grande piara de gado até seguir, como quase todos o caminho de França. Depois enviuvou. Para além das terras que tinha comprou a horta da ti Esperança (bela propriedade!) que continua a cultivar com os noventa anos a baterem à porta, a solidão a pesar ... e recordações contadas vezes sem conta como se fosse sempre a primeira vez: 'ah, Júlio se me agarro no tempo de sê pai! Aquilo é que era um homem!' Depois, irrompia pelo Manel que guardava o gado, pela lavra das terras, pelo agadanhar do feno, pelas malhas como se tudo isso fosse uma epopeia que urgisse salvar. Depois havia de recuar até ao tempo da tropa em Lisboa e das boas graças em que caíra nos seus superiores que lhe permitia interceder a favor dos seus conterrâneos, tropas também do ramo da cavalaria.
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