Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

Requiescat in pace, Maria Seixas

Faleceu no dia 23 deste mês de Setembro, Maria Seixas, filha do segundo casamento de José Seixas com Mercês Dias. Há já algum tempo que, de saúde muito debilitada, se encontrava no lar da Nave. Aos familiares e, de modo especial ao filho António e família, apresentamos sentidas condolências.

publicado por julmar às 18:57
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Armário Judaico no Baraçal

Num post aqui publicado, há algum tempo, dei conta de um possível armário judaico no Baraçal. Numa tarde de verão, do passado mês de Agosto, reencontrei o amigo padre Fernando, da dita freguesia do Baraçal, aproveitando para conversar sobre o assunto.É nesta sequência que aqui dou conta do estudo feito pelo padre Fernando. 

ARMÁRIOS-CANTAREIRAS

A cultura portuguesa foi caldeada pela passagem de muitos povos pelo território que, desde meados do século XII (1143), constitui a nação portuguesa. De todas elas saliento duas: romanos e árabes (mouros), particularmente a nível da língua. A influência judaica também foi importante, não tanto pela língua, mas pela economia e pela ciência. Ainda há dias lia num jornal diário a opinião de alguém que afirmava que, tanto a expulsão dos jesuítas pelo marquês de Pombal (1759), como a dos judeus pelo rei D. Manuel (1496), foram as duas maiores perdas para Portugal, especialmente a nível da modernidade e do avanço científico e, em parte, estou de acordo.

Muito se tem escrito sobre a presença dos judeus em Portugal e procuram-se por todo o lado vestígios dessa realidade. Apesar da questão religiosa (na Idade Média os judeus foram considerados inimigos dos cristãos porque foram “os que mataram a Cristo”) e da usura que praticavam nos empréstimos de dinheiro, os judeus não somente eram estimados e requisitados pelos reis e príncipes pela sua capacidade para os negócios e para a ciência (físicos e matemáticos) e aceites pela maioria da população (o episódio dramático da igreja de S. Domingos, Lisboa – 1506, é uma excepção).

Nas nossas “Crónicas” já temos falado dos judeus em Portugal e em particular nas terras de Ribacôa, mas hoje resolvi voltar ao tema motivado pela descoberta de um “armário/cantareira” (com dois compartimentos trabalhados em granito de grão fino) na minha aldeia natal, Baraçal. Este tipo de armários é associado por alguns autores (Jorge Martins, etc.) aos cultos judaicos, mas que terão sido empregues apenas para esconder o ritual das candeias do Shabbat (depois de 1496).

É de louvar o interesse de muitas autarquias em preservar e valorizar muitos espaços habitados por judeus e mouros, porque existe uma maior sensibilidade para o património cultural e religioso e também por interesses turísticos, embora nem sempre com devido rigor histórico.

Se a presença de judeus no território português é muito antiga (desde o século XII), em termos históricos termina em 1496 com o decreto de expulsão emitido pelo rei D. Manuel. A partir de 1506, os judeus que aceitaram o baptismo (cristãos-novos) deixaram de estar confinados nas judiarias e misturaram-se com a população cristã. Outro fenómeno que aconteceu, sobretudo com o início da Inquisição, foi a disseminação dos “cristãos-novos” pelas vilas e aldeias (quando antes se fixavam mais nos grandes centros urbanos por causa do comércio e pela proximidade do poder político) onde poderiam passar despercebidos.

Quando é que se deu a diáspora, ou seja, a dispersão dos judeus pela bacia mediterrânica, incluindo a Península Ibérica? Foi depois do ano 70 da era cristã, após a conquista e consequente destruição da cidade de Jerusalém pelos exércitos do imperador romano Tito. Segundo Maria José Ferro (As Judiarias de Portugal, página 19), entre os séculos V e VI, já aqui existiriam algumas comunidades que, com o decorrer dos séculos foram aumentando. Quando o número de judeus era superior à dezena, era criada uma “comuna” ou “aljama”, que tinha como centro religioso e social a “sinagoga”. Com o crescimento das famílias judaicas nas comunas, podia existir mais do que uma judiaria. Havia o Rabi-mor assistido pelos “ouvidores”, delegados nos principais centros judaicos do país: Porto, Torre de Moncorvo, Viseu, Covilhã, Santarém, Évora e Faro. Se em princípios do século XV existiam em Portugal cerca de 30 comunidades e alguns milhares de famílias, no final do século (aquando do decreto de expulsão de D. Manuel), haveria mais de 100 judiarias e talvez trinta mil judeus.

Atendendo à necessidade do bom relacionamento entre a comunidade cristã (maioritária) e a comunidade judaica (minoritária) foram criadas leis próprias. Assim o quarto concílio de Latrão (1215) recomendava uma distinção física no vestuário (sinal exterior identificador: estrela de seis pontas, chapéu frígio ou coifa pontiaguda…). Em Portugal, as Ordenações Afonsinas (século XIII) também legislaram sobre o assunto: os judeus não podiam ter serviçais cristãos, sob pena de perda de património; qualquer judeu convertido ao cristianismo, que retornasse à religião original, podia ser condenado à morte; os judeus não podiam ocupar cargos oficiais se com isto prejudicassem os cristãos. Como já referi a prática do culto judaico nas sinagogas das judiarias deixou de ser autorizado em Portugal a partir do decreto de 1496, de D. Manuel, que impunha uma de duas condições: conversão ao cristianismo (baptismo) ou saída do território. Assim muitos judeus convictos preferiram emigrar para outros países europeus, de preferência para a Flandres e Países Baixos (onde puderam continuar a prática do judaísmo, livremente); os que não saíram receberam o baptismo e passaram a chamar-se “cristãos novos”. Mas o baptismo destes judeus, na sua maior parte, não foi convicto, foi de conveniência e por isso continuaram a praticar a religião judaica, mas às ocultas (dentro de casa). Publicamente, frequentavam a igreja católica, como faziam os cristãos tradicionais (velhos cristãos).

É neste ambiente que surgem os “armários-cantareiras” e as cruzes gravadas nas ombreiras das portas de muitas casas de habitação. Voltando ao exemplo existente numa casa de Baraçal, concelho do Sabugal, que motivou esta minha “Crónica” e que me foi revelado, não por um baraçalense, mas pelo Dr. Júlio Marques, de Vilar Maior, ilustre amigo formado em Filosofia, mas amante e curioso das “coisas” do Património, sou de opinião que “não é um simples armário”, como tantos outros existentes em muitas povoações da Beira interior. Embora este tema não seja inteiramente pacífico, as provas existentes levam-nos a esta conclusão.

Começando pela estrutura da casa: existem todos os indícios de ter sido uma casa de gente rica (a tradição popular fala da casa do “fidalgo” e a última proprietária mantinha um certo mistério em relação à casa, como refere uma das netas) com toda a frontaria em granito aparelhado, varanda (escadaria-balcão) também de pedra aparelhada e torneada com um artístico alpendre a proteger a porta de entrada no 1.º piso; o “armário-cantareira” sendo também duma nobreza e beleza extraordinárias, superior ao de Vilar Maior, não serviria só para guardar objectos de uso doméstico, porque a segunda prateleira, para lá do rebordo artístico, tem ao meio uma cabeça humana com boca e dois olhos e um orifício que coincide com o olho direito. Esta 2.ª prateleira não serviria para a ablução ritual antes da refeição sagrada da Páscoa, “Pessah”? As várias cruzes gravadas na ombreira da porta e numa pedra do “armário” constituem uma outra prova.

Desde o século XIII existem provas da residência de judeus, não só no distrito da Guarda como no Sabugal. O Dr. Jorge Martins fez uma investigação exaustiva sobre várias dezenas de cristãos novos com processos na Inquisição, por denúncia de práticas de “judaísmo”, nos séculos XVII- XVIII, sendo um casal (marido e mulher) de cristãos novos do Baraçal. Percorrendo a zona mais antiga do Baraçal encontramos cerca de uma dezena de cruzes gravadas nas ombreiras (duas muito artísticas estão datadas de 1780 e 1784).

Portanto, posso concluir que o Baraçal, sendo um simples povoado da freguesia e concelho de Vila do Touro, até 1904, ainda hoje conserva vestígios da existência de cristãos novos em séculos passados e não só Belmonte, que desde a minha meninice ouvia falar como terra de judeus (que tinham sangue ruim).

 

publicado por julmar às 18:30
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Terça-feira, 12 de Setembro de 2017

Citânia de Oppidanea

verdugal CG.jpg

Não, não é um arqueólogo que se encontra na fotografia. Trata-se de um amigo e conterrâneo que gosta de Vilar Maior com diversificados interesses, entre os quais, a arqueologia. E, por duas vezes, nos deslocámos ao lugar do Verdugal, a meio do caminho entre Vilar Maior e Malhada Sorda, onde terá existido um povoamento castrejo e, posteriormnte, um povoamento romano. Ficámos impressionados com a quantidade de vestígios a pedir futuras visitas de estudo.

verdugal terrolha.jpg

 Não, não é uma habitação castreja que se encontra na fotografia. Trata-se de uma construção circular, toda em pedra que servia de abrigo aos pastores. Teria os princípios construtivos das habitações castrejas? Esta é, das muitas que existem na região, uma das mais perfeitas.

Portal do Arqueólogo

 http://arqueologia.patrimoniocultural.pt/index.php?sid=sitios.resultados&subsid=2625600

CNS: 26598
Tipo: Povoado Fortificado
Distrito/Concelho/Freguesia: Guarda/Almeida/Malhada Sorda
Período: Romano
Descrição: Almeida e Fernandes situam esta estação nos sítios do Verdugal e Moradios, cerca de 4km a Sul de Malhada Sorda. Os vestígios por eles detectados estendem-se por uma vasta planície entre os rios Côa e Águeda. Unânimes ao realçar a vasta área de dispersão dos materiais detectados à superfície, classificam este sítio como um importante (Almeida chega mesmo a chamar-lhe citânia) povoado pré-romano posteriormente romanizado. Para além dos imensos vestígios estruturados, materiais de época romana e sepulturas escavadas na rocha, mencionam a existência de elementos proto-históricos como os moinhos manuais de vaivém e estruturas habitacionais circulares.
Meio: Terrestre
Acesso: Almeida e Fernandes situam esta estação nos sítios do Verdugal e Moradios, cerca de 4km a Sul de Malhada Sorda.
Espólio: Materiais de época romana e elementos proto-históricos como os moinhos manuais de vaivém.

 

publicado por julmar às 15:44
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Sábado, 9 de Setembro de 2017

Gente da minha terra

Joao barbara.jpg

(Foto da págiana de FB de Maria Bárbara)

Tenho um fascinio especial por fotografias antigas da "Minha terra, minha gente" e este é o melhor sítio para  resistirem à efemeridade das redes sociais. Sem data precisa, trata-se de uma fotografia dos anos 40. Conheci o senhor Raul (nascido em 1913, filho de Alexandre Gonçalves Araújo e Mariana Fonseca), meu vizinho; conheci o senhor José Ozório (nascido em 1916, filho de Evangelina Ozório Fonseca), meu vizinho que, no início de Setembro aparecia no seu Carocha, pela festa do Senhor dos Aflitos, até ao fatídico acidente da explosão de foguetes que matou o seu filho; conheci o senhor João Bárbara que pelo Verão aparecia em Vilar Maior e que visitei em sua casa em Vila Nova de Gaia, e, encontrava ocasionalmente, em Miragaia na casa de César Seixas. Trata-se de uma fotografia de amigos que se encontram em Vilar Maior, muito provavelmente no mês de Agosto. A quarta pessoa suspeito quem seja mas não tenho a certeza. Alguém sabe?

Avistava-se a Igreja da Praça e a torre ainda tinha a traça original. Um homem desce a rua no traje habitual dos homens. Uma galinha debica pela rua (sim, porque a rua também era das galinhas). À frente do mirante encontra-se uma frondosa e velha acácia de que nunca ouvi falar. O cais da Praça parece encontrar-se em ruína. 

 

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Quarta-feira, 30 de Agosto de 2017

Viagens ao pé da porta - Cabeça da Porca

 

cabeça.jpg

 Nascer do sol visto da Cabeça da Porca

Assistir ao nascer do sol neste mês de Agosto é um privilégio para quem acorda cedo. Mas fazê-lo no Cabeço da Porca, mesmo à beira do Carvalhal, a 830 metros de altitude é uma experiência única. Há tempos que os barrocos daquele cabeço, vistos do castelo da Vila, me desafiavam. Subi, pois, ao mais alto e dali avistei até horizontes longínquos enquanto, sentado, ouvia o silêncio cortado por o zurrar de um burro, pelo ornear das vacas, o latido de um cão e o tinir de campaínhas de cabras que pastavam numa cerca de arame farpado. Perto e longe ouviam-se tiros de caçadores. Observar o cabeço no lugar de tão gigantescos barrocos leva-nos a imaginar figurações de animais esculpidas num tempo sem fim pelos agentes erosivos. Sem esforço maior, lá está uma imponente porca.

Desci para a estrada vencendo a barreira de arame farpado. Uma idosa puxava pela rédea um burro branco. Abrandei o passo para meter conversa. Ora, quem havia de ser? A minha parente Henriqueta, de olhos azuis como o céu do Carvalhal dos dias claros que são quase todos. Fomos aos nossos ascendentes e, subidos dois ou três degraus, lá estava o tronco Monteiro que nos unia. A Henriqueta conta e eu escuto: do tempo que fora professora, da preferência pelo Carvalhal que o barulho da cidade a incomodava, do cancro que vencera, das casas e terras abandonadas ... e do Amilcar, bom um rapaz. Perdera uma mão que segundo a versão, por conveniência à sua reputação, teria sido um acidente com foguetes. Isso não o impedia de fazer a maioria dos trabalhos com perfeição. Aos poucos, o álcool foi-se tornando seu dono e o comportamento foi-se alterando. Mais do que ninguém a Henriqueta foi-lhe valendo como podia até o comportamento se tornar perigosamente agressivo. Era habitual desaparcer por temporadas. Por alturas da festa do S. Marcos, um pastor encontrou-o, no campo, cadáver. Tocaram a sinal e fizeram o funeral.  Passado o largo, frente à capela de S. Marcos, onde a frondosa amoreira sombreia o tronco das vacas, instalação onde o ferreiro compunha os cascos das vacas (dos burros e dos cavalos) e lhes pregava um par de ferraduras, paramos e apontado:

- Esta é a minha casa. Venha tomar o pequeno almoço.

- Obrigado, já tomei.

- Sabe? Era o António Seixas que nos pintava a casa. No tempo dos meus pais era o pai dele, o ti Zé Seixas.

Saí do Carvalhal, pelo caminho que desce até ao Porto Sabugal. Parei ao pontão, olhei a veiga tornada lameiro e fui assaltado por imagens de há cinquenta anos. Tudo tão mudado!

publicado por julmar às 11:29
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Quarta-feira, 23 de Agosto de 2017

Eleições à porta

Eleições à porta.jpeg

 

                                                                        Cara ou coroa?
A um amigo de maior confiança que, chegado à vila, me perguntou sobre o andamento da política por aqui, respondi- lhe, quase verdade, que nada sabia. A verdade é que, breve, me pôs ao corrente da situação local. Agradeci e, em troca da informação, disse-lhe estar convicto que por aqui é difícil falar em política sem azedar as relações.

 

publicado por julmar às 12:08
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Terça-feira, 22 de Agosto de 2017

Requiescat in pace, Álvaro Neto

alvaro.jpg

Faleceu Álvaro Neto, o Álvaro, natural de Vilar Maior, que se encontrava hospitalizado na região de Bordéus. O funeral realizou-se no dia 19 do corrente mês, na Malhada Sorda. Nasceu em 1958, num tempo em que a pobreza era companheira fiel de algumas famílias da vila, filho de Antonio Martins Dias Neto (mais conhecido por Craveiro) e de Maria Cândida Proença. Na festa do Senhor dos Aflitos, a mãe Cândida é uma presença assídua. O Álvaro também não faltava e destacava-se nos bailes na demonstração dos seus dotes de bailarino. Para a mãe e familiares, as nossas condolências.

 

publicado por julmar às 17:10
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Sexta-feira, 28 de Julho de 2017

Contradições - O Riba-Côa e a construção da Europa

Este texto foi escrito há 25 anos. Tempo suficiente para avaliar da mudança da paisagem e da sociedade.

             Que pena me faz a mim, filho desta terra, conhecedor do que foi num passado ainda recente, vê-la extinguindo-se tão irremediavelmente num país que dizem estar a desenvolver-se, a modernizar-se, a europeizar-se. O que sinto não é saudade ou saudade apenas, mas dor e uma raiva impotente. Nos dias que vivemos, chegam -nos por todos os meios, notícias em defesa de tal animal ou de tal planta,( seja do lince da Malcata ou do azevinho), de um monumento, de um costume ou usança; há manifestações de solidariedade  para com o povo de Timor que, justamente, quer viver segundo a sua cultura e recusa a subjugação a uma alheia; somos, até, capazes de convictamente nos pronunciarmos em defesa dos índios da Amazónia. Assistimos, entretanto, indiferentes à morte de comunidades e culturas seculares que foram parte activa e enriquecedora do que foi e é  a nação e a cultura portuguesa. Entre elas está a região de Ribacôa que foi a última parcela  a integrar o território nacional do continente, após longas e devastadoras guerras que terminaram com o tratado de Alcanizes, no reinado de D. Dinis. Grande foi a atenção que a partir de então, tiveram os monarcas, manifesta na defesa ( lá está toda a linha dos castelos do Sabugal, Alfaiates, Vilar Maior, Castelo Bom e Castelo Rodrigo) e no povoamento como o atestam os forais e a criação dos municípios; muitos são os vestígios dos povos antigos que aqui se fixaram. Ao longo de séculos, pela acção do poder político, do poder da Igreja e do labor das gentes aqui se foram forjando formas próprias de vida, isto é, uma maneira própria de ser português e de o ser tão plena e dignamente como em qualquer outra parte do território. Esta maneira de ser português, esta forma de participar na cultura nacional está em extinção. Pelo simples facto de que não há pessoas. Cada uma das suas múltiplas aldeias está morta ou em vias de extinção. Basta olhar para as estatísticas. Na década de cinquenta era ainda um fervilhar de gente. A vida pulsava por todos os caminhos, veredas, hortas, casas e ruas. Era muita vida para tão pouco espaço. Hoje há tanto espaço para nenhuma vida. Não foi uma barragem que submergiu Ribacôa mas um poder político que o abandonou e, diga-se, uma Igreja que deixou de estar presente. Desapareceram o professor primário e o padre, os dois pilares fundamentais  da cultura nestas comunidades. As escolas fecharam e já se não houve o cantarolar da tabuada. Já se não fazem contas à vida. Algumas igrejas ainda abrem, algumas vezes, ao Domingo, por enquanto; e sempre que a morte bate à porta. Acabem os jornais como o "Nordeste" e terão cortado os ténues laços que unem aqueles que ausentes guardam a memória do passado. Que país é este que tão distraído anda com o que tão longe acontece e se esquece de si? Andam os políticos tão ocupados com a construção da Europa! Quem mais que os ribacudanos a ajudaram a construir? Com pá, suor, cimento e lágrimas. Muitas lágrimas. E sangue. Abandonaram tudo: os campos, os gados, as mulheres e os filhos. Viveram em barracas, levantaram-se manhã cedo, muito cedo e chegavam à noite, tarde, muito tarde. Não havia sábados de descanso e, quantas vezes, Deus lhes perdoe, sacrificaram o dia do Senhor para que a Europa se construísse. E o seu país também. Na Europa ficava a obra feita, para o país vinha o dinheiro que ajudou a transição para a democracia , em 74/75; que ajudou a reintegração dos retornados de África; que permitiu aos nossos políticos passearem-se pelos corredores da CEE; pelos corredores do Centro Cultural de Belém e ...por outros corredores.

            Que recebemos em troca? A sua ruína e a da sua região porque, se num lado ficou a obra e para o outro foi o dinheiro aqui cavou-se o vazio, o deserto. A terra se não é cuidada morre.

                        JÚLIO SILVA MARQUES, in "O Nordeste", 1992

publicado por julmar às 11:19
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Terça-feira, 18 de Julho de 2017

Ano 2051 - Senhora do Castelo

VM 049a.jpg

Ano 2051. Estou velho, muito velho. O amigo Amora da Silva, bem mais novo que eu, morrerá antes de mim. Há para trás uma vida, um passado longo que carregámos até chegar aqui. Sentados, no átrio do cemitério que é também o átrio da Igreja da Senhora do Castelo, num pôr do sol de Junho, perdemos o olhar entre a raia de Espanha e o sol que mergulha no horizonte da Serra da Estrela.  De repente, como se fora a primeira vez, apercebemo-nos do lugar maravilhoso onde nos encontrávamos quer pelo disfrute da paisagem distante, quer pelo quadro que nos envolvia: A Igreja da Senhora do Castelo restaurada no seu arco, com telhado em telha antiga, a que os antigos chamavam telha de Nave de Haver, e um amplo portão gradeada em ferro que permite ver o seu interior onde, num pedestal, está exposta a pérola de Vilar Maior: A Pia Batismal. Em torno da dita pia, algumas campas fúnebres, o ajimez e outras pedras com história. O largo em que nos encontramos tem o chão empedrado, bancos em volta e arbustos autóctenes bem cuidados. Belo largo este que separa o mundo dos mortos do mundo dos vivos! Belo momento este em que o dia transita para a noite! Uma iluminação mortiça surge dos candeeiros e o firmamento, paulatinamente, vai-se enchendo de estrelas, cada vez mais e mais, tantas que, apertadinhas umas frente a outras e outras, parece não haver lugar para mais. 

- Vou andando, diz o meu companheiro, costas voltadas puxando o  ferrolho dos portões que, abrindo-se, gemem lamurientos em seus gonzos.

Deitei as costas no banco e cravados os olhos no céu continuei perdendo-me na decifração de desenhos estelares. Uma coruja sobrevoou a igreja e o pio dum mocho  ouviu-se pela última vez. 

 

publicado por julmar às 17:39
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Quinta-feira, 13 de Julho de 2017

Porque andas tu mal comigo

Os simples - Gomes Leal

Poesia que nunca mais se fará por que já não há trigueiras, nem ceifeiras, nem lavadeiras, nem poetas que dêem atenção aos simples. Porque já não há simples.

Porque andas tu mal comigo 
Ó minha doce trigueira 
quem me dera ser o trigo 
Que andando pisas na eira 
Quando entre as mais raparigas 
Vais cantando entre as searas 
Eu choro ao ouvir-te as cantigas 
que cantas nas noites claras 
Por isso nada me medra 
Ando curvado e sombrio 
Quem me dera ser a pedra 
em que tu lavas no rio 
E falam com tristes vozes 
Do teu amor singular 
Aquela casa onde coses 
com varanda para o mar 
(e) por isso nada me medra 
ando curvado e sombrio 
quem me dera ser a pedra 
em que tu lavas no rio

publicado por julmar às 12:02
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