Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017

A Roda dos Expostos de Vilar Maior

roda exp1.jpg

                               Fotografia exterior (abertura recentemente tapada)

roda exp2.jpg

 

                                                        Imagem do lado interior

Na casa que pertenceu a José Vicente, de alcunha o ti Salazar, e que hoje é propriedade de José João Valente, encontra-se a janela onde funcionava a roda dos expostos ou enjeitados, como hoje tive oportunidade de observar pelo lado interior da casa na janela que dá para a rua, tapada recentemente nas obras em curso. A minha ideia de que pudesse ser ali que colocavam as crianças indesejadas, pude confirmá-la hoje com os meus olhos: por dentro, como pode ver na fotografia, a abertura é em círculo para que a roda pudesse girar e lá está o buraco na parte inferior e na parte superior onde rodava o eixo do cilindro. A casa situa-se a nascente da Igreja da Misericórdia, próxima desta, numa ruela secundária, um pouco escondida como convinha à prática do ato, a Travessa do Churrião. A casa, com uma área de cerca de 40 m2, de rés-do-chão, de piso térreo e lageado, com porta de acesso do lado nascente e a dita janela, sendo a cobertura em telha vã. A casa tem um curral lageado onde se encontra uma cortelha de porco e o poleiro das galinhas. As obras em curso fecharam a janela onde funcionava a roda dos expostos e ligaram a casa à casa contígua que, eventualmente, poderia, à altura do funcionamento da roda constituir uma unidade que funcionaria como proteção das crianças. 

A roda dos expostos, também designada como roda dos enjeitados, era um mecanismo em forma de portinhola giratória rodando na referida janela e com um tapume de alta abaixo de tal forma que era impossível ver de dentro para fora e vice-versa. Deste modo, se protegia a identidade do depositante, a maior parte das vezes a própria mãe da criança, que colocando a criança na roda a girava uma volta completa para que a criança chegasse ao lado de dentro. Puxava, a seguir, uma corda, badalando uma sineta que alertava quem estava do lado de dentro para a chegada de um novo hóspede.

 Este modelo de acolhimento teve inúmeros adeptos pel Europa, sobretudo católica, a aprtir do século XVI. Em Portugal, espalharam um pouco por todo o território a partir de 1498 com o aparecimento das misericórdias.

Em 24  de Maio de 1783, o intendente geral da Polícia do Reino, Pina Manique, reconheceu oficialmente a instituição da roda , pretendendo pôr termo aos infanticídios e acabar com o chocante comércio ilegal de crianças portuguesas na raia, onde os espanhóis as vinham comprar. Com a chegada das ideias liberais, na primeira metade do século XIX, a Roda dos Enjeitados começou a perder a sua importância.

A roda surgia como uma tentativa de pôr termo ao infanticídio e ao abandono dos recém nascidos. Estes 'filhos de ninguém' eram, muitas vezes, filhos de mães solteiras, raparigas pobres e de relações proibidas. Por vezes as mães dos enjeitadas deixavam marcas identificativas, a fim de mais tarde as poderem recuperar. A Câmara tinha a incumbência de arranjar amas para amamentar estas crianças, suportando os respetivos encargos. As crianças eram por volta dos sete anos entregues a famílias onde começavam a aprender tarefas de agricultura, pastroreio ou algum ofício. 

Não conheço, até hje, qualquer notícia escrita acerca da Roda dos expostos da Vila ainda que nas atas camarárias conste o registo de encargos e outras informações relativas aos expostos.

Neste blog em 9-11-2015 publiquei um post sobre o batizado de um exposto:

http://vilarmaior1.blogs.sapo.pt/coisas-do-seculo-xix-na-villa-de-vilar-425712

 

publicado por julmar às 11:39
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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2017

Requiescat in pace, Teresa Narciso

Sem gente a nascer, em Vilar Maior, sentimos que um mundo está a acabar: Inevitável, inexorável, a morte vai batendo, numa e noutra porta, não só dos que ali vivem como dos que partiram para outros lugares. Toda a gente da vila, de uma ou outra forma, nos marca muito, cada um é sempre um pouco de nós. Por isso, quando partem, partimos um pouco também. D. Terezinha, como atenciosamente era tratada faleceu, em Lisboa, no dia 14 de janeiro. Todos os anos, pelo Verão, passava algum tempo na Vila com a família. Ao marido, filhos e restante família, apresentamos as nossas sentidas condolências.

publicado por julmar às 10:58
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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2017

Até que enfim, uma boa notícia

Em 2017 é assim

O que vê na fotografia é a construção da plataforma onde será instalada uma antena da operadora NOS que permitirá aos respetivos clientes usufruir de rede de telemóvel. 

Displaying IMG_5045.JPG

 

Em 1953 era assim

Cabina telefónica

Em 24 de Novembro de 1953 a Administração Geral dos Correios, Telégrafos e  Telefones

Ofício a informava que

«a abertura do posto está pendente da vistoria do compartimento onde deve ficar instalado o telefone, a qual se efectuará na semana corrente»

Cerca de 100 anos após a invenção do telefone (1860), chega à Vila a possibilidade de falar para qualquer parte do mundo. Foi instalado  o locutório (cabine que custou 300$00) no Comércio do Senhor Aníbal. A ligação ao recepor final não era direta e, por vezes, era precisa muita paciência. Primeiro ligava-se para Aldeia da Ponte e dali era estabelecida a ligação.

publicado por julmar às 18:41
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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2016

Votos para 2017

Resultado da imagem para 2017

Um excelente ano 2017 para todos os que por aqui passam. Melhor que ficar à espera que a felicidade caia do céu é lutar por ela hoje. Agora. Porque amanhã pode ser tarde demais. Por isso, desejo aos meus amigos o que para mim desejo - sonhos realizáveis e coragem para lutar por eles

https://www.youtube.com/watch?v=XhHP0QDyvk8

publicado por julmar às 19:03
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Sábado, 24 de Dezembro de 2016

Requiescat in Pace, António Cerdeira Seixas

1a A.JPG

 Hoje, véspera de natal, faleceu, no hospital da Guarda, António Cerdeira Seixas. Nasceu em Vilar Maior, a 20 de Dezembro de 1924, filho de José Seixas (1884-1948) e de Ana Cerdeira (1891-1928). Órfão de mãe aos quatro anos, aprendeu a vida por si e o ofício (construtor/pintor) com o pai. Uma parte do rosto da vila saiu das suas mãos: Em 1948 construiu  a primeira casa, a sua própria casa, no Buraco (hoje chamada Avenida das Escolas/Banda Filarmónica de Loriga), que, hoje, é o maior bairro da vila; boa parte das cheminés da vila foram por ele construídas no tempo da exploração do minério. Finalmente, a obra que mais dá nas vistas, executou o alteamento da torre da Igreja Matriz, em 1959, onde, agora, decorrem obras de revestimento a granito. Emigrante, comerciante, agricultor. Uma vida longa e uma vida cheia que deixa marcas físicas na paisagem e  marcas indeléveis no coração de todos os que, como eu, tiveram o privilégio de com ele conviver. Continuará sempre com um lugar especial nos nosso corações.  

 

publicado por julmar às 21:08
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Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016

A sinagoga da Vila e a sinagoga da Malhada

Demos conta neste blog no dia 5 de fevereiro de 2014 que a Sra Embaixadora de Israel, Tzipora Rimon, visitou Vilar Maior no dia 3 do mesmo mês e da visita a vários locais, mereceu-lhe destaque as ruinas de uma possível sinagoga nas proximidades da Igreja paroquial.

 
Em neste blog de 28 de julho de 2013 com o título:

Recuperação da herança judaica passa por Vilar Maior

dávamos conta de um programa de reabilitação de sinagogas na qual se incluía a de Vilar Maior:

(...)A Noruega contribui com quatro milhões de euros, enquanto o Estado português participa com cerca de 700 mil euros – um total de perto de cinco milhões que permitirá restaurar ou valorizar símbolos da presença judaica em Portugal. Estão previstos, entre outros, a revitalização da sinagoga de Tomar, a criação de um Memorial da Vida de Aristides Sousa Mendes, em Vilar Formoso, a recuperação das sinagogas de Almeida e de Vilar Maior (uma antiga sinagoga medieval recentemente descoberta), criar o Centro de Interpretação da Cultura Sefardita do Nordeste Transmontano, em Bragança (com projecto do arquitecto Eduardo Souto de Moura), ou a recriação da Casa da Inquisição em Reguengos de Monsaraz. A criação da rota envolve nove municípios e seis entidades regionais de turismo, para além da Comunidade Judaica de Belmonte. (...)

Ora, a pergunta é:

Porque é que a sinagoga de Vilar Maior não foi reabilitada?

Ora vejam como ficou, depois de reabilitada, a sinagoga de Malhada Sorda:

Displaying IMG_4649.JPG

publicado por julmar às 18:20
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Domingo, 11 de Dezembro de 2016

Requiescat in Pace, Júlia Cerdeira

Displaying IMG_5551.JPG

                   (Foto da publicação no FB de Tiz Silva)

Júlia Cerdeira, filha de filha de Francisco Cerdeira e Matilde Monteiro, faleceu com 91 anos de idade. A ti Júlia, como carinhosamente era tratada, viúva do ti Xico Henriques, viveu durante muitos anos no topo da Praça (onde hoje é a casa do Quim Miguel) pelo que desde menino, dada a vizinhança, me habituei à sua presença. Quando morre gente da geração dos nossos pais, gente de quem gostamos, morre um pouco de nós.

A toda a família, em especial aos filhos Mário, Maria, Isabel e Henrique, apresentamos sentidas condolências 

 

publicado por julmar às 22:48
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Terça-feira, 6 de Dezembro de 2016

Por Terras do Sabugal, passo a passo - Vila Boa

Visita 14-09-2016. Percurso: Nave - Vila Boa - Nave

Área -10,73 km² . Densidade populacional é de 22,6 hab/km². 

Evolução da população

1864

1878

1890

1900

1910

1920

1930

1940

1950

1960

1970

1981

1991

2001

2011

630

798

754

879

820

780

822

928

948

844

511

410

379

330

243

 

 

 

Poisei o carro ao cemitério da Nave e deitei pés ao alcatrão, estrada fora, tudo a descer, até à entrada de Vila Boa onde se encontra o cemitério. Logo a seguir, a água num extenso e trabalhado pio ou bebedouro para o vivo, sobretudo burros e vacas. A água, elemento fundamental, que um filósofo grego há mais de dois milénios escolheu para explicar a origem de tudo:tudo é água, tudo é feito de água.  A terra é uma espécie de embarcação que flutua sobre a água. Mais prática, a gente de Vila Boa sabia que sem água não se podia viver:nem plantas, nem animais, nem homens. E fazia parte dos elementos da natureza, caía abundante do céu, entranhava-se na terra, alimentava nascentes, formava ribeiros que se juntavam a outros e iam dar a uma ribeira maior que se lançaria num rio maior até chegar ao mar que a maior parte desta gente nunca viu. Se a seca se prolongava, colocando em perigo as culturas, o povo punha-se em procissão, encabeçada pelo sr padre, devotamente se rogava aos santos para que Deus derramasse chuva.sobre os campos. As orações estavam feitas ficaria nas mãos de Deus o seu atendimento. A água obedece à sua natureza e não aos desejos do homem e para que lhes seja útil têm que a domesticar represando-a, canalizando-a, guardando-a, orientando o seu curso, aproveitando a sua força. Boa parte do tempo é gasta com cuidar da água: transportá-la para casa, regar as culturas dos campos, dar de beber ao vivo, lavar a roupa, fazer a barrela, amolecer o linho, amassar o pão, fazer o caldo dos homens e a vianda dos animais. E apetece dizer como o outro: a água serve para muitas coisas e até, dizem, que há quem a beba. Em terra de muito vinho, e em Vila Boa era bom e abundante, preferia-se este e até se dizia do home pantanoso, sem sem préstimos maiores que é um bebe águas.

Manuel Joaquim Correia refere Via Boa como "um lugar muito úmido e pantanoso donde tem resultado o aparecimento de várias epidemias, tais como o tifo em 1882 e 1883, que dizimou consideravelmente a população". A àgua que se consumia era quase sempre tirada de fontes de chafurdo ou de locais parados. Não havia canalizações, não havia sistemas de esgotos. A única análise tida como segura era o dito popular: àgua corrente não mata a gente. Mas como isso podia falhar acrescentava: E se a matar é para sempre. Decerto essas epidemias ficaram na memória e o povo foi procurando melhorar as condições de sanidade e terá construído pios e chafarizes e até chamado a atenção sobre cuidados a ter como nos mostram os versos inscritos por cima da bica corrente

Pede-se pela saúde dos animais

Para quem está água sujar

Vingança severa e justiça

Sobre quem assim pretende matar

 

O bebedouro dos animais

Não serve para alguém se lavar

Nem vasilhas sujas ou fuscas

Para água na bica ou pios apanhar

Vila Bôa, 19  de Agosto de 1962

IMG_3080.JPG

 

E nada como pôr o Santo Antão, protetor dos animais, a guardar a água. 

Passeei-me pelas ruas de Vila Boa rememorando o passado inscrito nas ruas com casas de lavradores, de tantas vidas que por ali passaram. 

IMG_3087.JPG

 Parei e ali fiquei a olhar para esta casa, igual a tantas outras,  a lembrar um mundo em que eu vivi. E perdido neste olhar, sou acordado, não pelo rodado de um carro de vacas mas pela carroça que lhe sucedeu.

IMG_3081.JPG

 E para sacudir recordações, atirei:

- Que lindo par de namorados. Deixam- me tirar um retrato?

- Pois faça! ,respondeu o homem.

- E para onde nos leva?, perguntou a mulher

- Comigo!, respondi

- Veja lá se nos leva pra a internet

- Ficam bem em qualquer lado.

Um pouco à frente meti conversa com a ti Maria da Conceição que falou da Festa do Santíssimo Sacramento, da festa do Santo Antão, dos emigrantes que abalavam e deixavam, de novo, a terra sem ninguém, dos dois filhos, até me perguntar: 

-Atão de onde é vossemecê?

- Sou de Vilar Maior

- Então, conheceu lá a senhora Assunção, casada com um polícia.

- Sim, conheci. 

E desfiou o rol de graças e favores que a senhora lhe fizera por ter tido em sua casa o seu filho que andava a estudar na Guarda. Disse-lhe eu que a conhecia muito bem, pois, era minha tia e madrinha. 

Pequeno é o mundo.

 

publicado por julmar às 11:28
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Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2016

Historiando

resultado de imagem de S. Sebastião de Botticelli

(S. Sebastião, pintura de Boticelli) 

A festa de S. Sebastião foi, durante muitos anos, a maior festa da paróquia a seguir à do Senhor dos Aflitos tendo direito a foguetório e banda de música. Sendo a festa do Senhor dos Aflitos no 1º de Setembro ficavam muito próximas no tempo e oneravam fortemente os fiéis. Pelo que, não sabemos em que data a festa de S. Sebastião passou a celebrar-se, de acordo com o calendário litúrgico, no dia 20 de Janeiro.

Muito provavelmente, seria pároco, à data dos acontecimentos, o padre Júlio Matias conhecido militante anti-republicano que, por decreto no Diário do Governo,  no dia 4 de Março de 1913, é expulso do Distrito da Guarda por um ano.

A tenacidade do povo de Vilar Maior (publicado no Capeia Arraiana em 15 de Agosto de 2015)
Há 100 anos, no dia 15 de Agosto de 1915, dia da festa de S. Sebastião, em Vilar Maior, o povo, vendo negada a licença para a realização da procissão resolveu desafiar as autoridades civis realizando o cortejo.

A República, implantada em 5 de Outubro de 1910, enfrentou o poder da Igreja, publicando a Lei da Separação e impondo regras restritivas ao exercício do culto.
As procissões religiosas eram consideradas ajuntamentos ou manifestações na via pública, pelo que careciam de autorização prévia a conceder pelo administrador do concelho onde se realizassem.
Ocorrendo no dia 15, terceiro domingo de Agosto, a festa móvel de S. Sebastião em Vilar Maior, que tinha procissão, o pároco recusou-se terminantemente a requerer licença prévia ao administrador do concelho do Sabugal. Alegava o sacerdote que a festa não era dele, mas dos festeiros, pelo que, a haver requerimento, não cabia ao padre assiná-lo nem muito menos fazê-lo chegar ao Sabugal. Limitar-se-ia a presidir à procissão, se autorizada.
Os mordomos foram ao Sabugal requerer a competente permissão, mas o Administrador, vendo que o padre a não assinara, recusou liminarmente concede-la, por não ter sido peticionada por quem de direito.
Chegado o dia da festa, o padre disse missa em louvor de S. Sebastião e no final pediu ao povo para se resignar e abdicar da procissão, pois a falta da licença daria motivos às autoridades para aplicar sanções. Porém, mal o padre abandonou a igreja, as mulheres de Vilar Maior resolveram agir e pegaram nos andores e guiões e saíram à rua com eles, fazendo a procissão, rezando e entoando cânticos. Os homens acabaram por aderir à acção das mulheres integrando-se no cortejo que se fez com normalidade, ainda que em desafio à proibição das autoridades.
O acto do povo de Vilar Maior foi tomado como uma vitória face aos impedimentos republicanos para o normal exercício do culto e o jornal A Guarda, afecto às posições da Igreja, deu larga repercussão pública à digna posição do pároco e à tenaz acção dos seus paroquianos.

publicado por julmar às 11:11
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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016

Por Terras do Sabugal, passo a passo - Rebolosa

IMG_2400.JPG

Visita em 17-8-2016

Área -11,12 Km2; Densidade Populacional – 20 hab./km2

Evolução da população

1864

1878

1890

1900

1910

1920

1930

1940

1950

1960

1970

1981

1991

2001

2011

364

371

405

444

474

414

453

605

660

613

451

323

245

205

222

Quando as últimas estrelas se apagaram no céu, tinha passado o cemitério de Aldeia da Ribeira, virara à direita, passara o Restaurante da Bernardina e caminhava célere sobre o alcatrão que queria encontrar a Rebolosa a dormir. Mas olhando para leste fui forçado a parar e a registar um nascer do sol fantasmagórico como se a Espanha estivesse em chamas.

Entrei na Rebolosa que os da Vila, com seu hábitos de precederem muitas palavras com um a, a que juntando uma preguiça vocal acrescentam um r, pronunciando Arbolosa. Todos os nomes têm uma história a que muitas vezes se perde o rasto. No caso da Rebolosa, há uma história fascinante que poderão conhecer no livro História da Rebolosa, de Bernardino Pinheiro que consegue explicar através do brasão de armas

rebolosa.jpg

 Uns atribuem-lhe o nome devido aos reboleiros (carvalhos jovens) abundantes na localidade, outros à existência de moinho(s), ambos representados no brasão. A história relatada por Bernardino Pinheiro consegue combinar as duas teses : os reboeiros e o rebolo. 

IMG_2416.JPG

Cirandei pelas ruas olhando as casas desabitadas, as velhas casas de telha velha, de escadas toscas de granito, de portas e janelas fechadas donde ressoa uma misteriosa voz do passado. Compostas algumas, ainda solidamente vestidas, resguardando a memória dos que lá viveram; outras, porém, em que o fora eo dentro se confundem, desnudas e sem pudor de portas escancaradas, janelas como olhos vazios, sem chapéu que as abrigue. Um lajedo extenso, ladeado a nascente de uma fila de casas baixas, onde se malhava o centeio. Hortas esparsas pelo ribeiro bem cuidadas com picotas apontar o céu. A igreja, com o largo fronteiro, a torre sineira, onde se presta culto à sapientíssima Catarina, padroeira dos filósofos e professores e protetora das mulheres amamentadoras. E talvez aqui lhe seja prestado culto por haver amas que alimentavam os filhos de ninguém, os abandonados na roda dos expostos; talvez, a tradição oral da existênia de um convento de freiras que por aqui teria existido não seja uma invenção sem sentido.

O povo da Rebolosa presta culto a Santa Catarina que tem a sua festa no dia 25 de Novembro. E tem direito a feira, dizendo-se que quem queira matar porco deve vir nesta altura tirar a licença para tal. Só a partir daí se dava início ao ritual da matança do porco. Histórias de sangue ou sanguinárias como as do tempo de Catarina.

Mas há uma Rebolosa nova, com uma face diferente: das casas restauradas, de ruas calçadas de novo, de um vasto largo de festas, de espaços ajardinados. E de um equipamento comum a todas as aldeias que visitei, mas este com muito mais apuro:

IMG_2428.JPG

 

Não, não se trata de um coreto mas do lavadouro público. Não sabemos quão uasdo é, mas fica como registo de um equipamento que as nossas mães e avós gostariam de ter fruído. Os locais de lavagem de roupas - rios, presas, lavadouros - eram a rede social mais importante daqueles tempos: Enquanto se lavava a roupa, ali se postava  sobre quanto se passava na aldeia e arredores: na taberna, na igreja, no comércio, no mercado, na casa de sicrano e de beltrano, dos namoros, dos piscares de olho, das vidas certas e dúbias, do padre e da professora, tudo esmiuçado. A roupa suja ficava limpa. Quantas histórias!

Uma terra com tradição, com orgulho, gente laborosa, empreendedora, um exemplo a seguir.

publicado por julmar às 16:46
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