Domingo, 7 de Junho de 2009

Histórias quase reais

 

 

 

 

 

 

 

 

(Fotografia retirada do blog da bela Aldeia da Malcata, a visitar Malcata net)

Festa mesmo festa era a do Senhor dos Aflitos. Até poderia Deus não existir, mas o Senhor dos Aflitos existia da mesma forma que existia tudo o resto, pois, até sabíamos onde morava. Para as crianças eram os foguetes - e as canas, e o linhol e as bombas que não rebentavam; era a curta boleia na camioneta da música; era o desfile com a música pelas ruas; eram as amendoeiras, ladeando as ruas, que vendiam santinhas de comer e  amêndoas doces; eram as cornetas e os balões; era o estrear de roupae as guloseimas feitas de  arroz doce e pudim; era a incerteza daquele instante mágico da subida do balão; era o tocador de concertina que tinha como palco um carro de bois; era a luz eléctrica que o barulhento motor produzia. Por três dias a aldeia transformava-se em cidade, três dias no ano eram sonho real. Acabada a festa caía uma tristeza infinda que vagarosamente se ia diluindo até renascer de novo a esperança e a ansiedade crescente da nova festa. Tudo o que de bom havia tinha de se guardar para a festa: a melhor roupa, o melhor galo, o melhor borrego ... e os melhores melões para sobremesa, sempre de forma inconfundível, casca de carvalho. Só a lembrança faz crescer água na boca: Rugosa a casca, grande no tamanho, de cor verde por fora e laranja fogo por dentro, de cheiro intenso ... e de sabor divinal.

Dias antes da festa, o pai que nunca dava ordens directas, sentenciou à hora da ceia: - Os melões da horta, nesta altura, é preciso guardá-los, senão ainda os leva o diabo, no tempo em que o diabo as mais das vezes tinha figura de gente.

Quando o pai dizia “é preciso” não carecia de dizer quem tinha de o fazer e o Carlos soube que era quem ficaria de guardião pela noite, que de dia ninguém se atreveria. Claro que sem carava nem pensar e disse ao pai:

-      O João vai comigo.

-      Pois que vá. Levai uma facha de palha e umas mantas.

Sexta feira depois de uma ceia, comida à pressa ( e lá diz o ditado que quem se deita  com fraca ceia toda a noite rabeia) um pega na palha, outro nas mantas e lá foram. Conversa para aqui, conversa para ali, deitados costas firmes no chão, olhos cravados em miríades de estrelas até deu para interrogações cosmológicas sobre se o número de estrelas era finito ou infinito cada um teimando para um dos termos, por necessidade dialéctica de prolongamento da conversa. Deitados ao lado do meloal, uma leve brisa trouxe-lhes o cheiro dos melões maduros que os trouxe à doce imaginação de se sentirem a saboreá-los. Às tantas, solta o João, de alcunha o mandongas por nunca se cansar de parecendo que  havia de comer este mundo e o outro:

-      Ah... bem  que podíamos provar um melãozito ...

- Pois! Provas o melãozito e depois quem prova porrada sou eu! Sabes que o pai os tem contados.

Mas a tentação dançava lá dentro e quanto mais esforço para a afastar mais firmemente se impunha e ganhava terreno. E tal como Eva e Adão, resistir à tentação ficou completamente fora das suas forças.

- Mas… sabes… podíamos provar ali um dos do sr Raul. E levantam-se, passam à horta do lado e começam a apalpar um, e outro, e outro e todos pareciam verdes. Um deles puxa da navalha e abre um. Não presta. Abrem outro, não presta. E mais um e outro, outro ainda na ânsia de encontrarem um que lhes soubesse ... como quando são bons sabem.

Terminada a empreitada louca, sentiram-se como Adão e Eva depois de comerem o fruto proibido. Não iriam ser expulsos dum paraíso em que não viviam mas não se iam livrar do purgatório e de expiar duramente a falta cometida. Muito cedo, antes que o sol rompesse, puseram mantas às costas, cozidos de medo, a caminho de casa, e, ao avistarem o sr Raul que mal dormira a pensar nos melões, escondem-se atrás de um muro junto à ponte até o deixarem passar. Caminham apressadamente para casa e, à socapa, meteram-se na cama aguardando o já previsível desenrolar dos acontecimentos. E foi como se lhes caísse um raio quando ouviram a voz do sr Raul, do fundo das escadas:

-      Ó sr João!  ó sr João!

Ouviram a voz do pai a acudir. Tolhidos de medo nem foram capazes de seguir a conversa e apenas perceberam, a rematar a conversa, o pai dizer:

-      Esteja o senhor descansado que não vai passar a festa sem melões!

Da porrada, (o pai batia poucas vezes ... mas quando batia...) nem queiram saber. Porém o difícil, foi no sábado da festa. E agora não dizia “é preciso”, mas, em voz firme e austera:

-      Pegam no cesto maior, vão à horta, colhem os nossos melões e vão levá-los a casa do sr Raul.

No almoço do domingo de festa, à sobremesa, comeu-se o habitual arroz-doce. O pai disse às visitas que, infelizmente, este ano, os melões foram uma desgraça: uns não nasceram e os que nasceram deu-lhes o mal e não vingou nem um para a amostra.

Júlio Marques

 

publicado por julmar às 21:10
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12 comentários:
De Tília a 8 de Junho de 2009 às 22:48
Antes de mais, uma história descrita de uma maneira que dá gosto em ler; o modo de descrição leva a compreender com toda a clareza a maneiras de falar e ver os hábitos da nossa terra.
Não tendo 100% de certezas, olhando para os nomes, tudo leva a crer tratar-se da família Marques.
Também o que nela se narra assentava bem na honradez e outras qualidades daquela família. De facto são assim as famílias da nossa aldeia!!. Gentes que sabem (sabiam) educar os filhos desde a tenra idade e que tinham, como soe dizer-se, numa mão o pau (em sentido apenas figurado, claro) e na outra o pão.
Por esse motivo essas sementes deram fruto daquilo que hoje são adultos responsáveis e respeitados pelos que com eles conviveram e pelos que se seguiram.
Em suma uma linda história, que a ser toda verdadeira na sua totalidade, honra as gentes de Vilar Maior.


De Anónimo a 8 de Junho de 2009 às 22:56
É toda ela verdadeira, bem contada com todos os ingredientes até aos ínfimos pormenores, mesmo nos termos utilizados nas diversas situações da narrativa que chega a comover alguém.
Eu sei do que estou a falar.
Boa noite.


De Manuel Maria a 9 de Junho de 2009 às 10:03
Afinal, décadas depois, uma suspeita de como identificou sr Raul os autores da façanha... O anónimo, contudo, mantem-se anónimo.


De "O Canivete" a 10 de Junho de 2009 às 23:40
Bom, não teria sido assim tão difícil adivinhar: o narrador diz-nos que pela manhã os catraios "agarraram nas mantas....", não diz que tenham transportado consigo a palha sobre a qual dormiram!!. Imediatamente o sr . Raul viu o "ninho" que não estaria lá no dia anterior!!!:::.


De Tiz a 23 de Setembro de 2009 às 14:15
Pois o anónimo deve ser uma cara sem vergonha ,por isso mesmo fica de anónimo lol
um abraço a todos , uma historia mesmo muito típica da nossa terra .
Desculpem o atraso do meu comentário .


De Carlos Marques a 8 de Junho de 2009 às 23:49
Os factos narrados , os nomes das pessoas e os lugares referidos neste texto, não são mera coincidência. Ocorreram na vila em meados dos anos cinquenta do século passado e dos quais, não me orgulho de ter sido um dos protagonistas.
Passados estes anos e face ao desenlace da história, tiro as seguintes conclusões:
- Nem sempre a galinha da minha vizinha é melhor que a minha; Fossem os melões do Sr. Raul de boa qualidade e estivessem maduros, que uma vez comido um ou dois, talvez a coisa ficasse por ali. Mas não:
- Eles estavam todos tão verdes (estariam ao meio do criar) que nem os cães os podiam tragar. Por isso, foram quase todos "capados" sem dó nem piedade sem que aparecesse um comestível:
- Há males que vêm por bem, terá pensado o Sr. Raul, ao receber umas arrobas de melões de primeira qualidade;
- Nem sempre (se calhar nunca), os castigos corporais constituem o melhor método de ducação ou de dissuasão. Eu que o diga. O ensaio de "porrada" moeu-me o corpo. Contudo, nada comparado com a dor da alma representada pelo vexame e a raiva de carregar um cesto de melões (os melões que a família havia de comer nos dias da festa), bater à porta do Sr. Raul e dizer: Vimos aqui a mando do nosso pai trazer-lhe este cesto de melões por causa daqueles que lhe estragámos. Este episódio, sim, marcou-me profundamente:
E não é dispiciendo sublinhar a forma encontrada pelo progenitor tendo em vista lavar a honra da familia. Pelo erro de uns pagam todos.

C. M.


De Manuel Maria a 9 de Junho de 2009 às 09:59
Deliciosa história!
Autobiográfica; mas saltou a parte da vara de marmeleiro... Por pudor?
Abraço.


De Carlos Marques a 9 de Junho de 2009 às 11:48
A vara de marmeleiro? Antes fosse. Duas bordoadas bem assentes, partia-se em migalhas e o castigo corporal terminava ali. Não meu caro Manuel Maria! Ali trabalhou e de que maneira, a correia de jungir as vacas, a qual, como é sabido, não há raios que a partam. E já estou mesmo a ouvi-los; Só se perderam as que cairam no chão.
Um abraço.
C. M.


De Sentinena a 11 de Junho de 2009 às 00:00
Ora, quem é que pertencendo a essa geração (anos 40, 50 e até 60) não cometeu uma façanha destas e dela não tem uma história para contar? Eu tenho várias e uma delas aconteceu no Areal. Um companheiro que guardava cabras por aquelas bandas, apercebeu-se da existência de um belo meloal numa daquelas veigas e desafiou-me a mim e a outro compincha para num certo dia ao anoitecer visitarmos o local e apanharmos uma barrigada de melões . Por azar, a nosso conversa tinha sido ouvida por terceiros que avisaram o dono. Ora, chegados ao meloal e depois de colhidos um ou dois melões e metidos no saco, salta-nos o dono de trás de umas videiras e cada um fugiu para onde estava virado. Eu que até corria bem tive o azar de ser o perseguido e quando já levava algum avanço, deparei-me com um cordão de videiras e nem me lembrei dos arames que as suportavam. Embati num deles partindo-o e espalhei-me. Foi o suficiente para o dono me deitar as unhas. E só teve tempo de me dar um par lostras porque consegui escapar de novo. Porém, o pior ainda estava para vir. É que naqueles tempos, muito embora a garotada fosse em grande número, todos sabiam quem pertencia a quem. Assim, o dono dos melões, passado meia hora lá estava em casa dos meus pais a dar fé do ocorrido. O epílogo da história é recorrente; Uma sova mestra do meu pai (nestes casos era sempre os pai a exercer o castigo), não com uma vara qualquer, mas sim com a cilha de prender a albarda do burro.
Boa noite a todos.


De "O Vila" a 11 de Junho de 2009 às 22:25
Esta, eu não conhecia. Mas que há mais, isso há.
Alguns sabem do que falo!!!!....


De O Delator a 12 de Junho de 2009 às 00:30
Não se passou comigo, mas conheço uma que acho hilariante e caso existisse um concurso, era merecedora de um óscar . Não entrando em pormenores, direi apenas que foram autores da proeza três ou quatro galfarritos da vila, dos seus sete/ oito anos. Sendo dia de festa em Aldeia da Ribeira, resolveram mete-se a caminho e ir até lá. Ali chegados, foram direitos aos tabuleiros das amendoeiras e as glândulas salivares começaram de imediato a trabalhar. Quando a água já não lhes cabia na boca , começaram a olhar uns para os outros e não foi preciso dizerem palavra para concluírem que nenhum deles tinha um centavo sequer. Mas não foi por isso que não deixaram de comprar tão apetitosa mercadoria. Um mais espevitado e com fama de liderança, de imediato magicou um plano e também de imediato pediu aos demais que o ajudassem a executá-lo. Dirigiram-se então à capelinha das alminhas situada à entrada da povoação e varreram (é o termo) com uma raminha de giesta todas as moedinhas das esmolas para o exterior pela pequena fresta existente entre a soleira e a porta. Assim, as apetitosas amêndoas e santinhas de açucar não faltaram. Desconheço, é se mais tarde houve lugar ao habitual arraial , não de foguetes, mas de porrada.


De "O Vila" a 12 de Junho de 2009 às 14:32
..........na mouche !!!!!!.......era essencialmente essa história da raminha da giesta!!!!.


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