Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Histórias quase reais 2

            Junho corria quente e seco como convém ao desenvolvimento das culturas, à ceifa do centeio e dos fenos.  Aquele dia estava excepcionalmente quente. O pai, ainda o sol estava para lá de Castela- a- Velha, e já tinha saído para o lameiro dos Labaços para agadanhar. Os outros todos se tinham levantado antes do nascer do sol para tratar das regas e dos animais ou para isto ou para aquilo. O sol no pino, é hora de dormir a sesta. Mas a avó Isabel, desembaraçada e decidida como sempre, pôs todos fora de casa:

 - Fora, vão dormir para a loja!

Ela era a parteira de um novo hóspede que estava prestes a chegar. Pouco depois, a notícia chegava rápido pela avó que, sem cerimónia, fez a  1ª anunciação:

- Já nasceu e é menino! Um homenzarrão!

E, logo, de seguida, virando-se para mim:

 - Vai dar a notícia a teu pai! Anda rápido, seu samurano!

Ainda hoje continuo a desconhecer o que exactamente quer dizer samurano. Certo é que me pus a caminho ao mesmo tempo que ia ruminando sobre os mistérios da vida tão absortamente a essa hora, de sol no pino,  nem desejei a companhia do ti Manel Adrião nem tive o medo como companheiro. A história da sarangonha que traz os bébes nunca na verdade fez parte do nosso imaginário, mas também não sabia como é que aquelas coisas aconteciam e também não perguntava, pois havia perguntas que não se faziam. Ninguém nos dizia para não perguntar, mas não perguntávamos. A observação da natureza, em geral, dos animais, em particular, junto com as conversas entre iguais era suficiente para se chegar, paulatinamente, ao conhecimento dos processos procriativos. Como quer que fosse, havia alguma vergonha e falta de à vontade para falar destas coisas e eu sentia-me embaraçado. Mas a avó tinha-me tornado mensageiro da anunciação e tinha que cumprir a missão.  Felizmente, quando cheguei o pai estava a dormir a sesta à sombra cerrada do freixo mais frondoso, no limite da Canjeira . Eu, sem barulho, deitei-me a seu lado e cansado da caminhada caí em pesado sono e até sonhei. Quando acordei, o pai, lá ao fundo, cheio de força e em compasso ritmado, numa dança monótona ao som de ignota e silenciosa música, cortava o feno.

Levantei-me e, vagarosamente, enquanto preparava as palavras, ia-me aproximando. Mal reparou em mim, com uma alegria que nunca mais lhe vi, dispara:

- Então, já temos mais um menino!?

E senti-lhe uma felicidade tão grande que me teria enchido de beijos e abraços se a expressão aberta da ternura e dos afectos fizesse parte das condutas familiares de então.

-      É. A avó mandou-me para lhe dizer.

-      É. Passou aí a Maria da ti Zabel do Alípio e disse. Vamos cortar mais uma ou duas envelgas e vamos mas é para casa. O que não se faz num dia faz-se ao outro dia ou no dia de Santa Luzia

E com uma pressa que lhe não conhecia, não tardou a esconder a gadanha com o corno e mais os ferros de picar entre a erva. Mandou-me à presa a buscar a garrafa do vinho. Levou-a à boca e bebeu muito  longamente. Depois, virando-se  para mim:

- Bebe aí um gorcho, catano, que está fresquinho! Ála, vamos embora!

Coisa inédita com  o sol tão longe do ocaso  vê-lo  dirigir-se para casa,  de passo estugado que eu tinha de compensar, de vez em quando, com pequenas corridas.

Em casa, criou-se um ambiente de alegria, como se não fosse já a décima vez que tal acontecia! E o tio polícia e esposa que já tinham sido padrinhos de quase todos os outros eram-no agora com mais vontade ainda. Antes que ele tivesse de ir apresentar-se ao serviço na Guarda apressou-se o baptizado. Esconjurado o espírito do mal e liberto do pecado cometido por Adão e Eva, estipuladas as garantias  de educação e constância na fé de Cristo, terminado  o repenicar dos sinos da torre anunciando ao povoado a entrada de mais um  elemento na Cristandade,  pais e irmãos, tios e tias, mais os padrinhos reúnem-se á volta da mesa com alvíssima toalha de linho. O café leão ferve à lareira numa grande panela de ferro e uma brasa enorme é colocada dentro para que o polmo assente. A casa enche-se do cheiro forte do café. Trigo, vinho, leite, queijos frescos e curados, choiriço e presunto para saciar e satisfazer os corpos. Àparte o trigo de Almedilha, obrigatório em festas, todos os outros produtos são da casa.

E foi assim que o Zé apareceu entre nós.

 

publicado por julmar às 21:11
link do post | comentar | favorito
|
5 comentários:
De "O Vila" a 24 de Junho de 2009 às 23:17
Parabéns pela forma da descrição desta história real; chega a ser comovente para quem lê e simultaneamente consegue seguir a narração como se estivesse a viver os factos de uma maneira real. Posso acrescentar que a avó Isabel conseguiu convencer-me a ir à horta do churrião regar umas alfaces (com água do pequeno poço existente), enquanto ela executava a sua missão de partejar.
Os acontecimentos tiveram lugar no dia 21 de Junho, data que que nunca esqueci ao contrário de muitas outras.


De Curioso a 24 de Junho de 2009 às 23:24
Vinte e um de Junho de mil novecentos e...???
Curioso que sou, gostava de saber.


De "O Vila" a 25 de Junho de 2009 às 00:03
Faz-me lembrar uma história que minha mãe contava em que o protagonista relatava os diversos componentes de uma opípara refeição que tinha tido lugar em casa de pessoas amigas. Começava então a enumerar os diversos componentes da ementa ao que um dos ouvintes perguntava de quando em vez??...e pão??. O outro continuava a dizer que havia mais isto e mais aquilo....e pão?-perguntava o outro. Depois de feita várias vezes esta pergunta a resposta foi: se houvesse pão, já o teria referido!!!.
Isto tudo para dizer que se soubesse o ano, tê-lo-ia referido (confesso que me envergonho de não saber mas com exactidão não sei). Teria os meus dez anos ??...por isso seria à volta de 1960/61!!!.


De Manuel Maria a 29 de Junho de 2009 às 15:53
Cheira-me a erva acabadinha de ceifar. E não é por nada mas tambném ja se bebia um gorcho...


De jarmeleiro a 1 de Julho de 2009 às 00:22
O ti João Marques ao saber da boa nova do nacimento do seu décimo filho sorriu e até fêz um brinde, erguendo a garrafa levando-a aos queixos e boendo umas valentes goladas de vinho.
E o ti João Marques tinha muntas razôes pra sorrir sempre que nacia mais um filho, assim como tinha razões pra chorar quando algum não vingava. Tudo porque ele era um labrador médio naqueles tempos e naqueles lugares. Dono de umas terras e outras arrendadas aos ricaços, ou mesmo tratadas de meias; Uma junta de vacas, uma piara de ovelhas e um ou dois marranos pra cevar por ano já não era cousa pouca. Mas o mais importante eram os filhos, um racho deles, que eram a sua própria riqueza até por môr da quantidade de braços pra lidar as terras sem ter que pagar muitos jornais a outrem, porque o dinheiro não abundava. Mas as coisas nem sempre saem como se pensam. É que a ti Graça sua mulher, não era filha de labradores e não estava afeiçoada às lidas do campo. Por isso e plos trabalhos que no campo passou passou, ouvi-lhe eu dezer um dia ( já l´vão muntos anos) que não era aquela vida que mais queria prós filhos eles paresque lhe fizeram a vontade. Uns hojr para aqui outros amanhã pra ali, lá seguiram outros rumos até ganharem carta de alforria. Mais tarde os tempos mudaram e nem os filhos dos outros labradores nem mesmo os dos cavadores lá ficaram e os resultados estão à vista. Os campos deitados ao relaixo e a Vila aquase a desaparecer do mapa. E a sentença de morte nem é da minha conta, mas da dos entendidos nestes assuntos.
Tanham uma bôa noute.


Comentar post

.Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente

.pesquisar

 

.Julho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
29

30
31


.posts recentes

. Contradições - O Riba-Côa...

. Ano 2051 - Senhora do Cas...

. Porque andas tu mal comig...

. Sinalização

. Um sítio para pousar a ca...

. Orca, a terra do senhor F...

. Ó sino da minha aldeia

. Que se passa?

. Demografia - Nonagenários...

. Vida de cão!

.arquivos

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

.links

.participar

. participe, leia, divulgue, opine

.

blogs SAPO

.subscrever feeds