Sábado, 4 de Julho de 2009

Última viagem - João Martins

      Estava uma bonita tarde de Outono. As terras, as folhas, cheiravam a Inverno; os dias escureciam cada vez mais cedo. Um bando de estorninhos em formação triangular sobrevoava ruidosamente a Cabeça-Lagar. Na colina em frente, do lado de lá do rio, subia o Nuno o caminho dos Picotes. As vacas iam à frente devagar. À minha direita, a crista da barreira de Aldeia da Ribeira, coberta de pinheiros e as vinhas pintalgadas de amarelo e vermelho, que desciam até ao vale.

     O meu caminho seguia para baixo, rodeado de carvalhos, pastagens, vinhas durante algum tempo e depois de uma pequena curva, a escola, o cruzeiro e as primeiras casas. Enquanto caminhava, sorvia daquele ar translúcido da noite a cair, enchia os olhos da beleza dos primeiros campos lavrados, da agulha do campanário a ferir o azul do céu, dos telhados nostálgicos a descerem a encosta.

     Enquanto descia, ocorreu-me, que ultimamente percorri assim sozinho todos os meus caminhos, todos os últimos passos da minha vida. Amigos, conhecidos, parentes mais queridos, já quase todos partiram. Agora vou sozinho. Detive-me ao Buraco, contei por alto as casas já vazias. Tantas… tantas! Vieram-me então à lembrança as palavras do livro de Ben-Sirá: “o homem é uma sombra que depressa passa”.

     À casa do Zé Augusto, um galo esvoaçou com um grande bater de asas das grades do muro e aterrou aos meus pés. Assustou-se com o ginete, que o criado do Toninho Pedro trazia pela rédea.

     Pensei: talvez cada um de nós seja mesmo um galo que esvoaça assustado em todas as direcções. De que adiantará fugir? No fim, sempre o “ginete branco” e a sua lâmina fiada, o fatídico destino da panela. Acendi o cachimbo. Cada passada no caminho ocupava-me o pensamento e com espanto, me vi à porta do António Adrião.

     Mas desta vez não assomou ao muro uma cara sorridente, gesto largo e franco, com a jarra de vinho e um copo nas mãos. Mais uma porta de adega que se fechou…

     Então uma quantidade imensa de recordações encheu-me a cabeça, fazendo-me percorrer numa fracção de segundo toda a minha juventude, estas coisas irrecuperavelmente perdidas que olhavam para mim de forma familiar e tão dolorosa.

     Depois soltando uma fumarola azul de cachimbo, recompus-me e entrei devagar pela Rua de Cima, passei as casas vazias da prima Mariana, do ti Silva, da ti Ester, do primo Aurélio, do ti Cunha, a descida do ti Aguardente, e deslizando junto à parede do ti Chico, cheguei ao espaço aberto do Senhor dos Aflitos, à casa dos meus avós.

     Fiquei parado, hesitante, a olhar para aquela casa de pedra com as persianas fechadas, cansado e desconfortável. O Zé Hermenegildo passou com a junta das vacas, “abecas” do arado prezas no jugo, vara pelo chão. Quando me viu ali parado, parou também:

 -  É uma dor de alma, não é João? Todas as casas se vão fechando assim… uma a uma…

       Apoderou-se então de mim uma enorme sensação de vazio e de perda. Reflecti: de facto, quando as pessoas morrem, com elas as casas também morrem. Pois a adega do António Adrião, não morreu com ele também?

      Está bem de ver, que foi uma perfeita loucura aquela minha viagem a Vilar Maior.

 

publicado por julmar às 08:11
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14 comentários:
De Amigo do João a 5 de Julho de 2009 às 11:37
Pois é amigo João ...
Loucura!!! é tu ires tão poucas vezes a Vilar Maior. Faz um pequeno, grande, esforço e vai mais vezes a Vilar Maior e verás que este teu sentido nostálgico se vai diluindo. Cuida de ti e das tuas coisas que assim ajudas a cuidar de Vilar Maior e das suas gentes e começas a ver as coisas com mais optimismo.
Um abraço do teu amigo


De Manuel Maria a 6 de Julho de 2009 às 07:14
E vou fazer o quê?


De ... a 8 de Julho de 2009 às 01:49
Bom temos de compreender que a mente de grandes prodígios literários funciona diferente da das outras pessoas, os olhos vêm o que mais ninguém consegue ver.
Todos temos vidas ocupadas, mas o nosso intelecto consegue abstrair-se por um fim-de-semana para ir à Vila e não deixe de ir por falta do copito, por muitas portas que se tenham fechado, outras tantas continuam abertas! A nossa "zurrapa" ainda persiste com quantos bichos precisa de ter para continuar única!!!
Claro que toda a gente tem de morrer, levando sempre com ela coisas únicas e insubstituíveis, mas a Vila ainda tem gente e se Deus quiser e você, tal como outros tantos parecidos, se dignarem a ir lá mais vezes e a gozar lá a reforma vai continuar a nossa Vila.


De Vilar Maior arriba! a 9 de Julho de 2009 às 21:51
Amigo João:

É triste e preocupante dizeres isso... Manter e cultivar as nossas raízes ajuda-nos a ser nós próprios, a manter vivos os princípios e valores em que acreditamos e que o quotidiano, por vezes, nos faz vacilar. Para mim, cada regresso, é um "regresso a casa".
Vê o exemplo do teu irmão. Se todos o seguirmos, a Vila ficará mais viva. A propósito, veja-se a recuperação de casas em Badamalos!
E quanto ao Centro de Dia, se calhar todos nós nos sentiríamos muito mais reconfortados se pudéssemos pensar que um dia seremos utentes dele em vez de um qualquer lugar inóspito na nossa diáspora.
Por todas estas razões, a que juntaria mais mil, fico muito feliz pelo investimento que o Governo fez dos meus impostos em Vilar Maior. Já não era de sem tempo: desde o D. Manuel I que não havia uma acção de fundo nesta terra. Espero que a próxima não demore mais 500 anos.!!!!!!!!!


De amigo do poeta a 8 de Julho de 2009 às 01:51
Então vem a Vilar Maior alimentar essa sua inspiração, a nostalgia com que vê a Vila deve ser-lhe propicia à escrita...


De O agoirento a 8 de Julho de 2009 às 08:22
Pois, então, o que vai lá fazer? Cada um o saberá.´Começa a ser tempo de olhar a realidade de frente. Vilar Maior como outras aldeias está moribundo, está em agonia. Claro que não é uma morte súbita mas é cada vez mais inevitável. Também por responsabilidade dos seus naturais que não tiveram, não têm imaginação para arranjar forma de lá viverem e viverem bem. É tavez hoje a terra mais abandonada, com menos gente, com menos actividade do concelho. Olhem para os telhados e vejam a degradação! Olhem para as hortas da ribeira!Olhem para o Centro de Dia que começa a ter mais empregados que clientes! Escutem o som de um sino rachado há dezenas de anos! Olhem par um museu que está sempre fechado!
Olhem para a festa que todos os anos a fita é igual!
Vá lá! olhem a realidade!


De VM4evr a 8 de Julho de 2009 às 14:43
Desculpe???? Olhe caro amigo se não quer vir para Vilar Maior não venha, ninguém o chama, vá para o Centro Comercial a abarrotar de gente, pelo caminho entre no Mac Donalds e empanturre-se, passe no supermercado e compre comida de plástico e cheia de pesticidas, pregue com as suas crianças em frente à televisão e à consola, tossa um bocadinho com o dióxido de carbono que apanha todos os dias nas horas que passa nas filas para ir para o trabalho e no fim vá ao Hospital, espere mais umas horas e inscreva-se na Banda Gástrica!!! Enquanto isso eu vou estar em Vilar Maior a gozar a minha reforma e a minha qualidade de vida que me deu mais tempo de vida e com qualidade!!!
Ainda ontem reparei, que já havia chegado mais uma remessa de pequenada à Vila, já se ouvem os gritos de satisfação e de liberdade de quem esteve um ano inteiro fechado, de casa para a escola e vice-versa (à centro comercial que pague isto???) e que tem agora a sua hora de liberdade e de reencontro com os amigos que vão ser a sua referência e que vai encontrar todos os anos nas férias e possivelmente na gozada reforma.
Quanto à festa, ao que parece "a terra mais abandonada, com menos gente, com menos actividade do concelho" tem das maiores e mais prestigiadas festas do concelho, que reúne maior número de peregrinos.
Se não ouve o sino, pois bem, dirija-se ao otorrinolaringologista ou à lavagem de ouvidos.
Por isso até que Vilar Maior morra ainda vai correr muita água na ponte e, tal como já foi dito antes, muita boa gente vai à frente!!!


De Anónimo a 8 de Julho de 2009 às 18:50
Olá Sr. (a) agoirento
A forma como escreve leva-me a concluir que não terá raízes em Vilar Maior:
Quando escreve que o Centro de Dia tem mais empregadas do que clientes... Está a dizer uma coisa muita grave porque em 1º. lugar está a escrever uma tremenda mentira. O centro de Dia não trabalha só para Vilar Maior. Senão vejamos... tem clientes em Vilar Maior que não vão ao Centro de Dia mas que o Centro de Dia vai a casa deles. Para além disso tem clientes em: Arrifana, Badamalos , Carvalhal, aldeia da Ribeira e Batocas.
Já teve também clientes em Escabralhado , Bismula , Aldeia da Dona e Aldeia da Ponte. Fica mal falar de sem saber. Seria bom não falar do que não sabe.
Ou está a querer convencer as pessoas para não frequentarem o Centro de Dia?.


De Pela Direcção da SCMVM a 8 de Julho de 2009 às 23:02
Em nome da Direcção da SCMVM - Santa Casa da Misericórdia de Vilar Maior, sirvo -me deste meio apenas para esclarecer a confusão que a pessoa que se denominou como "agoirento" que apesar da denominação com que se apresentou, entendo que é importante esclarecer a confusão que esta pessoa quis trazer para este precioso espaço de informação aos vilarmaiorenses . Considero de muito mau gosto brincar com coisas tão sérias . Devo dizer que o Centro de Dia de Vilar Maior não funciona apenas com a valência de Centro de Dia, como essa pessoa quer fazer passar para a opinião geral. A SCMVM , através do edifício onde funciona o Centro de Dia, opera com a valência de Apoio ao Domicílio e esta muito importante que apoia as pessoas na sua própria residência , porque é aí que os nossos idosos se sentem bem, também com o apoio e carinho dos familiares pelo menos daqueles que ainda têm familiares.
Quero ainda informar que os clientes da SCMVM se distribuem pelas várias terras circunvizinhas a Vilar Maior, desde Aldeia da Ponte, Aldeia da Ribeira, Batocas, Escabralhado , Aldeia da Dona, Bismula , Carvalhal, Badamalos e claro como é obvio Arrifana porque estes são de Vilar Maior.
Agora... Sr. Sra. "agoirento" não espere receber, por esta via, qualquer outro esclarecimento. A Direcção da SCMVM incluindo a Directora técnica que para quem não saiba ou não conheça e a técnica. Ana Carolina dos Santos Bárbara, licenciada e mestre em serviço social, teremos todo o gosto em conhecer a sua pessoa e dar-lhe todos os esclarecimentos no escritório do edifício do Centro de Dia, a si ou a qualquer outra pessoa que se sinta menos bem esclarecida.
Pela Direcção
António Bárbara Cunha
Saudações amigas


De "O Vila" a 9 de Julho de 2009 às 18:22
Apoiado....para o último comentário assim como aos anteriores que defendem aquilo que de mau agoiro, antevê quem, muito provavelmente lá não nasceu (só assim se compreende!!).


De O Agoirento a 9 de Julho de 2009 às 22:44
Estranho como com tão pouco ficam tão enfunados! Reacção agressiva e desproporcionda. Esclarecimentos objectivos fazem-se com relatórios, actas e números que deveriam ser públicos e não com ar de ameaça,
Vá lá, perguntas simples; Quantas pessoas vão comer ao Centro? Quantas refeições são servidas diariamente? Quantos empregados tem o Centro?
Não entendi a que propósito se fala da técnica superior que pelo nome poderá ser da famíilia do sr António Bárbara Cunha.
Esta agressividade toda tem alguma justificação?
É que com esta «disponibilidade» para prestar esclarecimentos quem ousaria entrar no dito escritório?


De O Bairrista a 10 de Julho de 2009 às 17:33
Bem se vê que o sr Agoirento não é de Vilar Maior porque se fosse sentiria as coisas com sentimento e não de uma forma tão fria. Provavelmente, não saberá o que representa o sítio onde se nasce e cresce.
E mais grave parece fazer insinuações sobre a seriedade dos outros. Lá por haver algo de comum nos nomes isso não siggifica aquilo que esta a supor.
E era bom que este espaço estivesse abrigado dessas coisas. E o seu administrador não deixará de ter isso em conta.
Todos por Vilar Maior!


De PE DESCALÇO a 10 de Julho de 2009 às 23:33
Parabens Barrista
Vilar Maior en frente
boa noite a todos


De Fiel ao Sr. "Leal" a 20 de Julho de 2009 às 11:44
Parece que o dito cujo está de regresso, agora com alguns laivos de ave rara. Não sei se esta ave não será de Vilar Maior. Tenho quase a certeza que o é. Com ligação quase que umbilical à minha "lealdade". Já tinham saudades minhas? Estou de regresso.


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