Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Porque vens tu aqui? João Valente

Depois da morte de minha mãe entrei numa grande melancolia. Faço longas caminhadas e passam dias que não falo a ninguém. Nos meus passeios há um recanto de rio que me apazigua bastante. Ali acabo as minhas tardes invariavelmente.

        Numa dessas tardes, jazia eu cansado, junto ao rio, com o queixo sobre as mãos, tendo no coração e nos olhos a paz desta amena Primavera. Queria ficar assim, dissolvendo-me na melancolia do córrego, do choupo e dos freixos. Um livro aberto mas abandonado, estava a meu lado como de costume; naquela modorra de fim de tarde, não me apeteceu lê-lo.

        Estava tão absorto nos meus pensamentos, que não ouvi o meu amigo aproximar-se silenciosamente. De repetente estava junto de mim, segurando a boina na mão.

          Fiquei calado e permaneci deitado. O meu amigo sentou-se ao meu lado. Ficámos muito tempo a olhar para o regato, escutando os ruídos da água e a gozar a leve brisa da tarde que se levantava sobre as copas das árvores. Um bando de patos deslizou na água, atravessando das hortas para o lameiro, uns metros mais abaixo. Depois de um longo silêncio o meu amigo conclui:

  - Isto aqui é triste…

       Depois de novo silêncio perguntou:

  -Porque vens tu aqui?

        O meu amigo estendeu-se também no chão. Estava de costas virado para o céu, a ver as copas dos freixos e recomeçou:

  -Se fossemos nuvens… podíamos ir para longe…

-E para onde querias tu ir?

-Ora… à cidade… íamos até à Guarda…

        A Guarda era o limite do mundo do meu amigo. A terra maior que vira na vida de campónio. Nesse momento invejei-o. Era bem simples o mundo dele: Levantar… deitar… comer… dormir… gozar o sol… ver as nuvens… ir à Guarda. Olhei-o em frente, por cima dos braços apoiados, e contrapus:

 - Seria bom era se fôssemos peixes, ou seixos, ali debaixo de água… isso sim!

       E fechei os olhos, imaginando-me um peixe a nadar entre os seixos brancos, rente ao fundo, bem longe das minhas preocupações. E rematei:

     -Isso sim… seria mesmo bom!

 

publicado por julmar às 16:42
link do post | comentar | favorito
|
3 comentários:
De Jarmeleiro a 29 de Julho de 2009 às 23:57
Ora aqui temos um caso que pode dar que falar. Não será um Torga no verso, um Aquilino ou um Júlio Diniz na prosa, um Pascoais capaz de escrevinhar Maranus ou Senhora da Noute e descrever como ninguem as terras do Marão. Mas há aqui alguma cousa que me diz que um dia pode lá chegar e vir a cantar terras de Riba-Côa .
O meu bem haja ao poeta Dr João Valente por por este belo momento de poesia e uma bôa noute a todos.


De Manuel Maria a 31 de Julho de 2009 às 09:08
Não dará nada que falar...
E Jarameleiro insiste!


De Lian a 31 de Julho de 2009 às 13:18
Não seja tão modesto. Parece-me que a premonição de Jarmeleiro não é assim tão descabida. A sensibilidade está lá e isso é fundamental.

A todos uma boa tarde.


Comentar post

.Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Requiescat in pace, Maria...

. Armário Judaico no Baraça...

. Citânia de Oppidanea

. Gente da minha terra

. Viagens ao pé da porta - ...

. Eleições à porta

. Requiescat in pace, Álvar...

. Contradições - O Riba-Côa...

. Ano 2051 - Senhora do Cas...

. Porque andas tu mal comig...

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

.links

.participar

. participe, leia, divulgue, opine

.

blogs SAPO

.subscrever feeds