Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Carta aberta a Francisco Assis

 ( A pedido de Pedro Cardoso se publica)

Exmo Senhor:

Tenho perfeita consciência que este cantinho-à-beira-mar-plantado não tem fronteiras que impeçam que um dos seus naturais, do norte, centro, sul, Açores ou Madeira, possa exercer livremente o seu direito à cidadania, sendo de todo importante que receba esta missiva como contributo para o conhecimento da realidade beirã.

O Senhor vai ser um dos 4 deputados nacionais que na próxima legislatura irá representar o Distrito da Guarda, pese embora muito pouco ou quase nada tenha a ver connosco e, neste preciso momento não é de suma importância saber se a sua vinda foi apenas por vontade própria ou obedeceu a critérios de imposição partidária, o que faz de si, na leitura do cidadão comum, um autêntico “pára-quedista” político. O seu partido nas legislativas de 2005 fez um escarcéu danado quando soube que Miguel Frasquilho era candidato pelo nosso círculo apresentado pelas cores alaranjadas. E para não me alongar em grandes considerações, sempre lhe direi que ambos os partidos, do chamado centrão, têm nesta matéria e nesta terra comportamentos idênticos, passando atestados de menoridade às nobres gentes beirãs. Se a memória não me falha por aqui aterraram e se serviram da Guarda um tal Miller Guerra, um Eduardo Pereira, um Luís Barbosa, um António Vitorino, um António José Seguro, um Fernando Cardote, um Vasco Valdez, um Miguel Frasquilho. O nosso Distrito sempre foi exportador de saber e inteligência. No grande livro de registos estão inscritos verdadeiros vultos da República, da política, das artes, das letras: Afonso Costa, Botto Machado, Carolina Beatriz Ângelo, Carvalho Rodrigues, Almeida Santos, Virgílio Ferreira, Veiga Simão, Eduardo Lourenço, Dias Loureiro, José Alberto Reis, Dinis da Fonseca, João Gomes, Vilhena de Carvalho, Mário Canotilho, Dias Coelho, Carvalho dos Santos, José Pinto Peixoto, Avelãs Nunes, José Rabaça, Esperança Pina, Abel Manta, Patrício Gouveia, Pinto Balsemão, Avelino Cunhal, Paulo Menano, Menano do Amaral, Odete Santos, Pinharanda Gomes, Sousa Martins, Lopo de Carvalho, Monteiro da Fonseca, César Carvalho, João de Almeida, Vasco Borges, Santos Lucas, Marília Raimundo, Adriano Vasco Rodrigues, António José Teixeira, Augusto Gil, Sacadura Cabral, provando assim, com este último nome que não precisamos de quaisquer ases de aviação, pára-quedas ou pára-quedistas, nesta terra que se orgulha de ter tido como Governadores Civis o Tenente João Soares, pai de Mário Soares e o Dr. Avelino Cunhal, pai de Álvaro Cunhal.

O Distrito da Guarda é um dos maiores do País e quiçá, o mais importante. Mais de 2/3 da Serra da Estrela pertencem ao nosso Distrito. Aqui nascem os principais rios nacionais, constituindo-se assim a maior bacia hidrográfica do País: rio Mondego, rio Zêzere a desaguar no Tejo, o Côa a desaguar no Douro, fazendo lembrar que mais de metade de Portugal bebe a nossa água. A serra da Malcata, a serra da Marofa e o ecossistema do rio Águeda, de características únicas, contribuem para o ambiente no seu melhor. As figuras rupestres de Foz Côa, classificadas pela UNESCO como património mundial. As nossas praças-fortes, as nossas aldeias históricas, os nossos castelos, pelourinhos, calçadas romanas e monumentos megalíticos chegam aos nossos dias ostentando um passado repleto de história: Almeida, Castelo Rodrigo, Trancoso, Sortelha, Alfaiates, Vila do Touro, Marialva, Vilar Maior, Linhares, Jarmelo. A grande maioria da produção do vinho do Porto, a que alguns dão o nome de vinho fino, é originária da Meda e Foz Côa, enquanto Figueira e Pinhel têm dos melhores tintos do País e Gouveia contribui com a sua produção para a grande região vitivinícola do Dão. A principal fronteira terrestre é Vilar Formoso. O queijo de ovelha, o verdadeiro queijo da serra, o melhor do mundo, é feito aqui de forma artesanal, por mãos frias e calejadas e cuja capital é Celorico da Beira, enquanto Malcata tem o exclusivo do de cabra. E temos o boi jarmelita, o cão da serra, a ovelha bordaleira, o mel, o azeite, a amêndoa, a fauna e a flora serrana. Grande cartaz a neve e as amendoeiras em flor. O sector têxtil, que os governos do PSD e PS quase destruíram, ainda labora na Guarda, Gouveia, Seia e Manteigas, tendo fama internacional. A capital do Distrito, a mais alta do País, sempre foi altamente considerada e prestigiada, como o prova a petição assinada por mais de 50 mil pessoas de 18 concelhos, 14 da Guarda e mais os de Belmonte, Covilhã, Penamacor e Fundão, integrados indevidamente desde 1834 no distrito de Castelo Branco, onde era solicitado ao governo de Oliveira Salazar a criação da região da Beira Serra e cuja capital só poderia ser na Guarda. E o nosso termalismo em Manteigas, Celorico, Mêda, Sabugal, Aguiar da Beira e Almeida, o que faz que toque no tema saúde, onde no período da epidemia da tuberculose, foi aqui instalado o 1º sanatório do IANT (Instituto de Apoio Nacional à Tuberculose) inaugurado, com pompa e circunstância, pela rainha Dª Amélia, já lá vão mais de 100 anos, tendo sido atribuído à Guarda o cognome de cidade da saúde. Nesta matéria não sei se os seus camaradas o informaram do ping-pong político e das trafulhices de linguagem por parte dos políticos locais e até de alguns candidatos a 1º ministro, no complexo processo hospital, com culpas mais que evidentes para aquele que é o pai do deficit e hoje ocupa a Presidência da República.

A Beira, termo esse que aqui foi criado, teve evolução constante, chegando a estender-se até ao litoral. Para perceber a história da Beira e dos Beirões, aconselho-o a ler as crónicas de Pina Manique e Albuquerque no jornal “O Districto da Guarda”.

E agora, meu caro Senhor, permita-me que lhe transmita a realidade de um Distrito que merece todo respeito e que Vª Exª vai representar.

Perdemos nos últimos 50 anos mais de metade da nossa população. A desertificação deste interior profundo é uma infeliz realidade. Os incentivos ao investimento são praticamente inexistentes, pese embora a boa vontade dos autarcas. Inúmeros serviços têm saído desta terra. O sector agrícola, salvo raras e honrosas excepções, está de rastos. A anunciada crise fez fechar inúmeras empresas, com leitura de números e percentagens a registar a taxa de desemprego mais elevada do País e consequente fuga de jovens para o litoral, grandes centros e estrangeiro. As antigas minas de urânio permanecem na mesma. Os PIDDAC’s, os laranja e rosa, não enganam ninguém de onde se conclui que os vários governos colocaram o interior de tanga e os seus naturais à beira de um ataque de nervos. É certo e sabido que este rincão nacional também é Portugal e também há aqui inteligência suficiente para perceber que o chavão da descriminação positiva do interior não é mais que simples balela política para tentar entreter beirão e, é por isso mesmo que temos de olhar de soslaio para quem vem aqui arrebanhar votos com vista a prosseguir uma brilhante carreira noutras paragens.

Caríssimo Senhor Francisco:

Fique ciente que enquanto estiver entre nós, nesta nobre, vetusta e honrada terra, terá sempre a compreensão e simpatia que prestamos a quem nos visita, pois comportamentos tipo Felgueiras não faz seguramente o nosso tipo, deixando-lhe, para terminar, um desafio:

Não estou nada preocupado que o Senhor não saiba onde fica o Barco, Mãe de Mingança, Escabralhado ou o Sobral Pichorro. Quero, isso sim, que conheça os inúmeros problemas deste interior profundo, que os ajude a resolver e com a sua experiência de autarca e de parlamentar prometa-nos que não se irá esquecer do Distrito que o elegeu (é que todos os outros o fizeram), mostrando e demonstrando, com propostas, trabalho, visitas e outros actos públicos que é merecedor dos votos dos beirões e, como “gato escaldado, de água fria tem medo”, o tempo é um óptimo conselheiro, o tempo nos dirá.

Assim sendo, e porque a carta já vai longa, resta-me apenas apresentar-lhe os meus respeitosos cumprimentos.

Por: Albino Bárbara

publicado por julmar às 16:01
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2 comentários:
De Manuel Maria a 30 de Setembro de 2009 às 10:38
Ele vai passar os olhos pela carta, como cão passa por vinha vindimada...


De Ribacôa a 30 de Setembro de 2009 às 10:52
Ou não estivéssemos nós em tempo de vindimas.
E será que alguém leva a carta a Garcia?


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