Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

Poema para minha mãe

SALVE, MARIA DA GRAÇA!

No tempo que vieste à luz

Nascia o sol de Espanha, como agora

Punha-se no ocaso de sempre

Para os lados do Carvalhal.

A Ribeira enfiava pela ponte

E cantava aos saltos pelas penedias da Fraga.

E, ano após ano, com o sol a nascer

Com a ribeira a cantar

Crescia a mocinha com graça

Entre a serventia ao latoeiro, seu pai

A quem chegava a tesoura, o estanho e a liaça

E o cuidar da mula, animal de estimação

Que carregava toda a tralha

E por mor da guerra

Tinha livro de registo e identificação.

E ouvia o latoeiro cantar o hino guerrilheiro

Enquanto martelava no rebordo do caldeiro:

«Viva a Maria da Fonte

Com as pistolas na mão

Para matar os Cabrais

Que são falsos à nação

 

É avante portugueses

É avante não temer

Pela santa liberdade

Triunfar ou perecer»

De mocinha a moçoila

A dar nas vistas pela praça

Começaram os rapazes a comentar:

- Que bela que está a Graça!

E de todos o João

Foi o que teve mais sorte

Zamburreando o acordeão

Conquistou-lhe  o coração

E tomou-a como consorte.

Contra a geral opinião

Dos pais de cada um

Decidiram fazer a união

Levar uma vida comum.

E no princípio era o amor

E mais uma casa, um lar

Uma lareira e uma vida para viver

E dois corpos para sustentar.

E a terra e o trabalho

Um chão, uma horta e umas leiras

E mais uma cabra e outra

E também um gato e um cão

Depois um filho, o primeiro

E mais terra, mais cabras e umas ovelhas

E multiplicam-se as cabras e as ovelhas

E mais um filho

Mais umas vacas e um marrano

E o João virava lavrador de carro, arado e charrua

De aguilhada na mão e assobio dominador

E a Graça passa a mulher de lavrador:

A Graça do ti João Marques!

E no passar dos anos, no suceder das estações

Se enchia a arca de pão e o tonel de vinho

E com igual regularidade se enchia

A casa de filhos e de filhas

A Graça, mulher de lavrador,

Cria vidas e sustenta vidas:

Peneira, amassa e finta o pão

Maça, espadela, fia e tece o linho

Lava,  cora e passa a roupa

Acende o lume, enche a panela

Cobre a mesa com toalha de linho

Onde como em altar sagrado

Se come o pão e bebe o vinho

Passa o tempo e com o seu passar

Os garotos viram gente

E como pássaros saem do ninho

Um agora para ali,

Outro depois para acolá

E mais um, e mais outro, e outro, e outro

E ficam sós o João e a Graça

À espera que o tempo os vá trazendo.

Corria serena e mansa a vida

Quando a morte bateu à porta:

- João, são horas! É a tua vez!

- Impossível! disseste tu e pensámos nós.

Dor imensa, difícil aceitação

Mas … faça-se a tua vontade

E o João despediu-se

Fica a Graça mais orfã que os filhos.

Porque no tempo tudo acontece,

Nele  se tece a alegria e a dor

Se gera e se perece

E voltando a passar o tempo

A Graça de nova graça se veste

Ano após ano envelhece

E se as coisas correrem bem

Celebramos hoje os noventa e cinco

E havemos de celebrar os cem!

                Júlio Marques

 

publicado por julmar às 23:02
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3 comentários:
De Vila a 20 de Fevereiro de 2010 às 00:47
Comentários para quê??-aqui se descreve de una maneira poética a história de uma vida feita de alegrias e tristezas, como é a de todos os mortais.
Descrição poética de primeira água, que faz ressurgir sentimentos ternurentos e cheios do bucolismo que se insere bem na vivência e realidade da vida simples da nossa aldeia.
Parabéns ao seu autor.


De TIZ a 21 de Fevereiro de 2010 às 04:37
Parabéns para o Júlio por este poema tão lindo ...


De Manuel Maria a 21 de Fevereiro de 2010 às 11:38
Um poema bem sentido!


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