Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

Palavras que morrem - O Povo

Que o povo faz a língua tornou-se um axioma. E quem tem o poder para fazer tem o poder para mudar e para desfazer. E se a voz do povo é a voz de Deus bem poderá acontecer que a voz de Deus tenha mudado ou que tenha ficado mudo. Com efeito, o povo já não é aquilo que era e, porventura, já não será.

O povo. O que é o povo? Há cinquenta anos todo o habitante da Vila lhe saberia responder. Hoje filósofos, antropólogos, sociólogos, linguistas e de outras especialidades da matéria terão dificuldade em responder ou responderão de maneira tão diversa que será difícil encontrar um denominador comum. Dir-lhe- ia o analfabeto, que não inculto, canivete: povo somos todos nós; povo são todos os de cá; o povo são as pessoas todas mais as ruas, as casas com seus currais, os largos, as fontes, os quintais, as eiras, os moinhos, a acácia e o pelourinho. Povo é o sino da torre cujo toque dita o que as gentes hão-de sentir: piedade, devoção, compaixão, alegria … ou raiva. O povo é a festa, é a procissão, é a missa e o sermão e o baile na praça. O povo é oração, é trabalho. O povo é a rodada do copo de vinho emborcado de uma vez só. O povo é o vivo de que é preciso cuidar. O povo é a gente e a povoação; povo é o ti Junça  no toque das Trindades e a ti Zabel Espanhola ao Arco berrando alto pela filha: Ó Libânia, ó Libânia! e, baixinho maldizendo os desvarios da sorte que lhe coube.

Assim vão morrendo as palavras porque já não são precisas.

publicado por julmar às 12:13
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9 comentários:
De Índia a 3 de Fevereiro de 2011 às 17:19
Achei extraordinária esta definição de povo. Os mais velhos sabem bem o quanto estas expressões encerram de verdade.
É, antigamente era sinónimo de povoado (Vila) com tudo o que a compunha (gentes, animais, teres e haveres....isso era o POVO).


De V.M. a 3 de Fevereiro de 2011 às 21:41
Mais palavras para quê? Depois de uma definição destas e com um quadro destes, nada mais há a dizer. Parabéns


De Manuel Maria a 4 de Fevereiro de 2011 às 14:42
Hoje as casa vazias e ruas desertas, com os seus currais, largos, fontes, quintais, eiras, moinhos, a acácia ao Pelourinho secando. O sino da torre cansado, só já toca a finados pelos que ficaram e pelos que não voltaram. A procissão vai minguando de ano para ano; meia dúzia de fiéis ouvem o sermão. Nem trabalho, nem devoção! Os passos arrastados do Ti Junça já não sobem e descem a torre, e a Libãnia fui eu encontrá-la um dia, numa ruela mal afamada, sob o miradouro de Santa Luzia, em Alfama.
Não respondia a Libânia; Não responde ninguém!
Se alguém quiser chamar do muro, hoje responder-lhe o silêncio... ou o próprio eco...
É o pronúncio da morte!


De manuel fonseca a 5 de Fevereiro de 2011 às 00:14
lembras-te a noite que nós os dois estáva-mos lá na torre a tocar ás almas e depois o ti manel junça foi lá, e nós lá em cima escondidos que cagáço amigo e a ti maria prata a chama-lo e ele não queria ir vai lá vai...


De Manuel Maria a 5 de Fevereiro de 2011 às 11:16
Lembro! Como se fosse hoje!


De Cum ad nihil magis a 6 de Fevereiro de 2011 às 09:59
Que fazias tu, oh Torquemada, numa viela de má fama? À procura de Libânias?
E que insinuas sobre a Líbânia?


De Manuel Maria a 6 de Fevereiro de 2011 às 12:29
A Libânia vivia em Alfama; eu no Largo dos Loios, a dois passos. E nesse tempo Alfama, Castelo e Mouraria eram os meus bairros. Foi uma agradável surpresa ver a Libânia à janela, quando descia a rua que vinha das Portas do Sol.


De vcb a 6 de Fevereiro de 2011 às 22:50
Bela Escrita Homem do Povo...


De 3vairado a 7 de Fevereiro de 2011 às 23:30
gosto do seu povo em comunhão com o povoado.
fez-me pensar essa de morrer o povo pela morte do povoado.
Deixaremos, em breve, de ser povo e seremos apenas recurso, talvez cliente, talvez mercadoria?



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