Segunda-feira, 7 de Março de 2011

Verbos de que se faz o pão - Parte II -Jarmeleiro

Ora atão , no seguimento do que tinha dito anteriormente quanto às voltas do pão, lá plo mês de Agosto havia que malhá-lo. Mas malhá-lo à maneira antiga, com manguais e outros utensílios de uso nessa faina, pois as malhadeiras só viriam mais tarde. E malha feita em casa de lavrador, havia de ser com mais de dez homes e quatro ou cinco mulheres. Tratava-se aquase sempre de trabalho à troca e não a jornal, ou seija , o labrador pagaria com o seu trabalho e o da junta de vacas aos malhadores. E o dia começava de manhê cedo em casa do lavrador com o almoço, comendo-se mais das vezes um caldo batata acabado de fazer, seguido das batatas retiradas da mesma panela do caldo tempradas com colorau e com o molho dos chicharrões que juntamente com alguns enchidos serviam de acompanhamento. E claro, a pinga não podia faltar. Uma vez chegados à eira, começava-se a retirar os molhos da meda, abriam-se e estendiam-se ordenadamente no chão até se formar a eirada . Seguidamente, os homens pegavam nos manguais punham-se cara a cara, metade de cada lado e vai de malhar sobre o centeio com pancadas certas, recuando os que estavam de costas para a eirada e avançando ao mesmo passo os de frente, até chegarem ao fim daquela envelga. Aí chegados, davam uns passos para o lado e recomeçavam em sentido contrário, repetindo sempre até terminarem aquela eirada , altura em que entravam as mulheres pra levantarem e enfaixarem a palha que os homens atavam com nagalhos preparados na véspra . E estas operações eram repetidas até ser malhado o último molho da méda. E agora seria a altura da marenda que neste dia e nunca intendi porquê, tinha o nome de bica. Teminada esta breve refeição era altura de começar a limpa do grão, começando através de encinhos de madeira por retirar os cuanhos, que mais não eram que palha retraçada plos manguais e que não dava atadura para enfaixar, sendo levada para os palheiros por meio de lençóis de estopa atados pelas quatro pontas. Seguidamente pedia-se a todos os santos umas boas rabanadas de vento que favorecessem a limpa do grão, o que era feito levantando-o ao ar com uma pá rasa, de madeira, de modo a que o vento separasse o grão, mais pesado, das preganas , da moinha, da nigela e dos cornachos . Aqui o trabalho das mulheres era importante, pois ao mesmo tempo que o homem da pá levantava o grão, iam com a ajuda de vassouras feitas de cuanhas apartando as impurezas que caiam no monte do pão. Mas aí tinham que se proteger com o seus chapéus de palha e lenços da cabeça para se livrarem de toda aquela morganhada . Limpo o pão, varrida a eira e apanhados os rabos pra deitar às pitas, era hora do lavrador junguir as vacas e ir à eira buscar a carrada de sacos de centeio, que despejados na velha arca de carvalho, a deixariam de cagulo se a colheita fosse boa . A partir daqui houvesse saúde pró comer, pois mulher de lavrador, sabia de olhos fechados todos os passos a dar até chegar à mesa, inda que precisasse dos serviços do moleiro e do forneiro. E no dia seguinte à malha, ala... Fala com um dos moleiros da vila, não sei se o Nifo , ou talvez os Henriques e manda moer uma fanega, mas na pedra borneira porque funde mais do que na alveira . Tirada a maquia pelo moleiro e recebida a farinha, diz a um dos filhos; Vai ali à ti Zabel Afonsa a pedir o fermento e se ela não o tiver vai à ti Maria Augusta ou às dos Adriões. E no dia seguinte, mãos à obra; Fala com o forneiro pega na peneira e aparta o farelo; Prepara a maceira, farinha pra dentro água, fermento e toca a amassar. Dá algum tempo à espera que finte; Puxa dos tabuleiros, cobre-lhe o fundo com lençóis de linho e começa a tender. A seguir, forno da praça com ele porque no do poço do açougue já não havia vez. Mas ali como há outras pessoas para coser na mesma fornada, há que cada um marcar os seus pães para não haver trocas; uma cruz, duas poças... Passada cerca de uma hora é tirá-lo, pagar a poia ao forneiro, levá-lo pra casa e partir uma das bôlas feitas com os restos da massa de raspar a masseira. E Como era o primeiro do ano a mãe tinha-lhe metido uma chouriça lá dentro. Que maravilha.
Munto bôa noute pra todos e... haja saúde e coza o forno

publicado por julmar às 19:55
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