Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

Geração à rasca - autor desconhecido

Texto enviado por Engº Pedro Cardoso.

Fugindo um pouco à linha deste blog, mas porque pode servir para que tantos de Vilar Maior se possam rever nele: Dos que foram para França, dos que foram para Lisboa, dos que saíram na procura de uma vida com horizontes mais largos.

 

«A geração dos meus pais não foi uma geração à rasca.
Foi uma geração com capacidade para se desenrascar.
Numa terriola do Minho as condições de vida não eram as melhores.
Mas o meu pai António não ficou de braços cruzados à espera do Estado ou de quem quer que fosse para se desenrascar.
Veio para Lisboa, aos 14 anos, onde um seu irmão, um pouco mais velho, o Artur, já se encontrava.
Mais tarde veio o Joaquim, o irmão mais novo.
Apenas sabendo tratar da terra e do pastoreio, perdidos na grande e desconhecida Lisboa, lançaram-se à vida.
Porque recusaram ser uma geração à rasca fizeram uma coisa muito simples.
Foram trabalhar.
 Não havia condições para fazerem o que sabiam e gostavam.
Não ficaram à espera.
Foram taberneiros.
Foram carvoeiros.
Fizeram milhares de bolas de carvão e serviram milhares de copos de vinho ao balcão.
Foram simples empregados de tasca.
Mas pouparam.
E quando surgiu a oportunidade estabeleceram-se como comerciantes no ramo.
Cada um à sua maneira foram-se desenrascando.
Porque sempre assumiram as suas vidas pelas suas próprias mãos.
Porque sempre acreditaram neles próprios.
 E nós, eu e os meus primos, nunca passámos por necessidades básicas.
Nós, eu e os meus primos, sempre tivémos a possibilidade de acesso ao ensino e à formação como ferramentas para o futuro.
Uns aproveitaram melhor, outros nem tanto, mas todos tiveram as condições que necessitaram.
E é este o exemplo de vida que, ainda hoje, com 60 anos, me norteia e me conduz.
 Salvaguardadas as diferenças dos tempos mantenho este espírito.
Não preciso das ajudas do Estado.
Porque o meu pai e tios também não precisaram e desenrascaram-se.
Não preciso das ajudas da família que também têm as suas próprias vidas.
Não preciso das ajudas dos vizinhos e amigos.
Porque o meu pai e tios também não precisaram e desenrascaram-se.
 Preciso de mim.
Só de mim.
E, por isso, não sou, nunca fui, de qualquer geração à rasca.
Porque me desenrasco.
Porque sempre me desenrasquei.
 O mal desta auto-intitulada geração à rasca é a incapacidade que revelam.
Habituados, mal habituados, a terem tudo de mão beijada.
Habituados, mal habituados, a não precisarem de lutar por nada porque tudo lhes foi sendo oferecido.
Habituados, mal habituados, a pensarem que lhes bastaria um canudo de um qualquer curso dito superior para terem garantida a eterna e fácil prosperidade.
Sentem-se desiludidos.
 
E a culpa desta desilusão é dos "papás" que os convenceram que a vida é um mar de rosas.
Mas não é.
É altura de aprenderem a ser humildes.
É altura de fazerem opções.
Podem ser "encanudados" de qualquer curso mas não encontram emprego "digno".
Podem ser "encanudados" de qualquer curso mas não conseguem ganhar o dinheiro que possa sustentar, de imediato, a vida que os acostumaram a pensar ser facilmente conseguida.
Experimentem dar tempo ao tempo, e entretanto, deitem a mão a qualquer coisa.
Mexam-se.
Trabalhem.
Ganhem dinheiro.
 Na loja do Shopping.
Porque não ?
Aaaahhh porque é Doutor...
Doutor em loja de Shopping não dá status social.
Pois não.
Mas dá algum dinheiro.
E logo chegará o tempo em que irão encontrar o tal e ambicionado emprego "digno".
O tal que dá status.
 O meu pai e tios fizeram bolas de carvão e venderam copos de vinho.
Eu, que sou Informático, System Engineer, em alturas de aperto, vendi bolos, calças de ganga, trabalhei em cafés, etc.
E garanto-vos que sou hoje muito melhor e mais reconhecido socialmente do que se sempre tivesse tido a papinha toda feita.
 Geração à rasca ?
Vão trabalhar que isso passa.»

publicado por julmar às 14:47
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2 comentários:
De Olivia Dias a 8 de Abril de 2011 às 17:24
Gostei muito de ler estas palavras, que todos os da nossa geração sentem. Quantas vezes dou comigo a pensar e a falar sobre este assunto com outras pessoas, algumas da Vila. Recordar o que eram os tempos em que iam para o minério, trabalho pesado e mal pago, o que era levantar cedo e trabalhar de sol a sol, e ter fé que as sementeiras não se perdessem.
O que era mandar os filhos ainda pequenos, bem pequenos, levar o gado, ajudar no campo, aprender a fazer um pouco de tudo mas a serem responsáveis pelo que faziam.
Agora quem não vai "passar" férias é visto como "um diferente", quem não tem um carro, tem dois.

Enfim, mas a verdade é que fomos nós os da nossa geração que demos largas aos filhos e não os ensinamos o que é ter necessidades, mesmo quando a fartura não era muita.
Temos realmente que fazer um acto de contrição e tentar que os nossos filhos eduquem os nossos netos de outra maneira, mais digna e com valores sérios e não com valores materiais.


De josesvalente a 9 de Abril de 2011 às 02:47
Os louvores dao-se aos corajosos.
Aqui esta a verdade.
Haja coragem e diga-se aquilo que muitos da "geracao a rasca" nao querem ouvir nem fazer.
Facam pela vida, nao estejam a espera que alguem lhe de a papinha.
Trabalhem em tudo aquilo, aonde se pode ganhar dinheiro. (Sejam corajosos).
Alma ate Almeida.


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