Segunda-feira, 28 de Agosto de 2006

DE NOITE


Ele vinha da neve, dos trabalhos
violentos, custosos, da enxada,
cantando a meia voz, pelos atalhos.

A mulher, loura, infeliz, resignada,
cosia junto à luz. O rijo vento
batia contra a porta mal fechada.

Ao pé havia um Cristo, um ramo bento
e uma estampa da Virgem, colorida,
cheia de mágoa, olhando o firmamento...

Uma banca de pinho, mal sustida.
vacilante nos pés; um candeeiro,
companheiros daquela negra vida.

O homem, alto, pálido, trigueiro,
entrou. Tinha as feições queimadas, duras.
dos que andam, com a enxada, o dia inteiro.

A mulher abraçou-o. As linhas puras
do seu rosto contavam já tristezas
de grandes e secretas amarguras.

Tinha chorado muito as estreitezas
daquela vida assim!... Talvez sonhado
um dia com palácios e riquezas!

Ele deitou-se a um canto, fatigado
de erguer-se, alta manhã, todos os dias.
mal voavam as pombas do telhado.

Lá foca, nuvens grossas e sombrias
no pesado horizonte. Ele assim esteve
? as noites eram ásperas e frias -.

Ela cobriu-o duma manta leve,
esburacada, velha. No telhado
ouvia-se cair, sonora, a neve.

Ela então meditou no seu passado;
no seu primeiro beijo, nas lembranças.
talvez, do seu vestido de noivado,

e nas tardes das eiras, e das danças
às estrelas, e aquela vez primeira
que a rosa lhe furtou das longas tranças;

e aquela tarde, junto da amoreira,
que trocaram as mãos; e na janela;
e quando olhavam, juntas, a ribeira;

e quando ela tímida e singela...

.....................

Lá fora, dava o vento nos caixilhos;
não brilhava no céu nem uma estrela.

E, àquela hora da noite, por que trilhos
andariam no mundo ? ela cismava -
nas misérias, talvez, sem rumo, os filhos!...

Ele, na manta velha, ressonava

Claridades do Sul, Gomes Leal

publicado por julmar às 10:31
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AS ALDEIAS


Eu gosto das aldeias sossegadas,
com seu aspecto calmo e pastoril,
erguidas nas colinas azuladas,
mais frescas que as manhãs finas de Abril.

Pelas tardes das eiras, como eu gosto
de sentir a sua vida activa e sã!
Vê-las na luz dolente do sol-posto,
e nas suaves tintas da manhã!...

As crianças do campo, ao amoroso
calor do dia, folgam seminuas,
e exala-se um sabor misterioso
da agreste solidão das suas ruas.

Alegram as paisagens as crianças
mais cheias de murmúrios de que um ninho;
e elevam-nos às coisas simples, mansas,
ao fundo, as brancas velas dum moinho.

Pelas noites de Estio, ouvem-se os ralos
zunirem suas notas sibilantes...
E mistura-se o uivar dos cães distantes
com o cântico metálico dos galos.


Claridades do Sul , de Gomes Leal
publicado por julmar às 10:25
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Reviver o passado - o pão nosso

A ideia foi Lançada pelo José Carlos Cerdeira: Fazer o ciclo do pão. Desde já em Setembro vai semear o centeio. Depois em Agosto será a ceifa, a malha e o cozer do pão. Espera-se com esta iniciativa mobilizar as várias gerações, fazendo viver em todos, ao vivo, o quanto era difícil ganhar o pão com o suor do rosto.

Esperamos que ocorram ideias a que este blog dará publicidade.

 

publicado por julmar às 10:12
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Futebol

Jogos com as terras vizinhas, jogos entre solteiros e casados ... faltam mesmo é jogadores, equipas. De resto há emoções, palmas e lesões. Ontem foi o Paulo do Bernardino que sofreu uma contusão no joelho e cuja gravidade está por avaliar.
publicado por julmar às 10:08
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Sexta-feira, 25 de Agosto de 2006

Pinharanda Gomes

        Pinharanda Gomes, pensador e investigador português, nasceu em Quadrazais, concelho do Sabugal, em 1939. Cresceu na Guarda até ao final da sua adolescência, tendo estudado na Escola dos Gaiatos e, depois, no Colégio de S. José.
 Com Manuel de Guimarães, e outros, criou a página Voz dos Novos, do semanário Correio da Beira (1956), de que se tornou principal redactor.
 Produziu a programa Momento para a Rádio Altitude, em colaboração com Silva Portuense, que então vivia na Guarda.
 Autor polimorfo, a sua obra, toda ela de investigação, abrange a literatura, a história religiosa, a antropologia cultural e a filosofia. Parte importante da sua bibliografia é preenchida por estudos sobre a Guarda e a sua região, a cujas raízes se tem mantido fiel.
 Foi co-fundador do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e sócio correspondente, eleito, da Academia Internacional da Cultura Portuguesa e da Academia Portuguesa de História
publicado por julmar às 11:29
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Vilar Maior, a austera

Dar voz a quem nos canta, é nossa inteira obrigação.
Olhando Vilar Maior,
Das bandas do Vale d'Areia,
Seu castelo que se alteia
Domina como um senhor,
À maneira medieva
De rei em corte sueva,
Os montes em derredor;
Montes de rochas hirsutas,
Bom cenário para lutas
De egeus e centimanos;
Terra severa e emadrasta,
Onde o tempo se não gasta,
Onde passaram os anos.
In, Cantigas da Pátria Chica, Manuel Leal Freira
publicado por julmar às 11:14
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Poetas de cá

Manuel Leal Freire, ilustre advogado da cidade do Porto, interpreta, em prosa e verso, como ninguém a cultura do homem de ribacoa:
«São de granito os ossos de um beirão, canta o poeta; e a afirmação, mais do que simples expressão lírica, tem de entender-se exactamente como símbolo dessa interpenetração homo-terra patrum que nunca será demais realçar»
LIBER SCRIPTUS PROFERETUR...
O termo do Sabugal
Tem quarenta freguesias
Pedra negra não quer cal
Caiá-las são heresias.
Vaidosa das cinco quinas
Mira-se a vila no Côa,
Mesmo esmaltada a boninas,
Cada trova é uma loa...
Passando por Vila Boa,
Eu fui à Nave e ao Soito,
Não corre riscos à toa
O homem que se diz foito ...
Arroio brando e mansinho
Chega ao mar com os demais,
Voltando de Vale de Espinho,
Pus o pé em Quadrazais ...
As vilas acasteladas
Que foram mortas citânias,
Espargem de remoçadas,
Novo coral de litânias.
Vilar Maior, Alfaiates,
Vila do Touro, Sortelha,
Hoje são outros combates
Fez-se a catapulta relha...

Foios, Aldaeia da Ponte
Dos Forcalhos a Malcata
É a raia plaino e monte
Nó que nunca se desata.

Quem me dera no carril,
Quem me dera um São Cornélio
Seria um perene Abril
Seria trégua sem prélio

Adeus, ó Serra das Mesas
Adeus, senhora da Póvoa
Vou-me embora com tristezas.
Mas a esperança renovo-a.

Os pontos não referidos
Podem ser os mais amados
Pensamentos repetidos
São so sque dão mais cuidados.

Por isso vou p'rá Bismula
Por ali me quedarei
Onde o tempo se regula
Tal como ouro de lei

In, Cantigas da Pátria Chica
Manuel Leal Freire
publicado por julmar às 10:39
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Quinta-feira, 24 de Agosto de 2006

Festa do Senhor dos Aflitos

A única coisa para que não pode servir a festa é para desunir os vilarmaiorenses. Dizem os de um lado que a festa terá de ser no primeiro Domingo de Setembro porque sempre assim foi.Enquanto não houve emigração não houve problema. Também não houve problema enquanto os patrões lhes permitiram que alongassem as suas férias pelo mês de Setembro. Tornou-se problema quando tiveram que rumar ao trabalho até final de Agosto. Com compreensível dor de todos e revolta de alguns a festa continuou na data que sempre foi. Encontrou-se uma forma de mitigar o problema criando em meados de Agosto a «Festa do Emigrante». Neste momento já não são apenas os emigrantes que não podem assistir à festa mas muitos que trabalham em diversas zonas de Portugal.

Talvez seja tempo de repensar a data.

Este é um espaço que aceita essa discussão, dando a todos a oportunidade de expor a sua opinião que todas as opiniões são respeitáveis.

publicado por julmar às 11:03
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Terça-feira, 22 de Agosto de 2006

Coisas simples

Como um ritual, uma vez por ano, pelo nascer do sol, desta vez acompanhado pela Teresa na demanda de poejos que noutros sítios chamam de erva peixeira e de que são conhecidos os efeitos medicinais. Mais do que estes encantam-me na planta a beleza da flor, a intensidade do cheiro e o agradável paladar. Passadando pelo lugar das poldras (quem se lembrou de as tirar?), passei ao lado da Casa Branca, a umas alminhas toscamente esculpidas  esculpidas na encruzilhada dos Labaços, Casas dos Mouros, e Picotes rumei caminho da Balsa. (Bom dia, ti Fernando. Então anda a cortar as silvas. Tem que se ir deitando a mão enquanto podemos, senão qualquer dia elas engolem-nos). Mais à frente umas leiritas cultivadas (Bom dia ti Zé, então, anda a malhar o feijão, devia esperar pelo calor que degranava melhor. Pois é mas há muito calor e assim vou-me entretendo). E um pouco mais uma veiga cheia de abóboras e encarapitado na parde o homem esgalhava um freixo (Olá ti Joaquim! Então o que faz, eu entretenho-me por aqui que é melhor que andar por aí como outros a tocar o bombo olhe se quer poejos vá até às poldras da balsa que os há por lá). E havia mesmo muitos mas pequenos que deu um trabalhão arranjar coisa que se visse.

O Czar, o cão, salta contente como se fosse a encarnação da felicidade  aproveita todos os lagos para se refescar. Chegámos à Cimeira que é o limite de Vilar Maior com Aldeia da Ribeira e regressámos com o sol a pino. No próximo ano voltaremos.

publicado por julmar às 10:34
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Passeio Pedestre, mais uma vez

Contaram-me que foi um enorme sucesso pela quantidade de participantes (quase 40?), pela boa disposição, pela beleza paisagística do percurso, pela feijoada com que se restauraram as energias. Até se cantou o fado com revelação de talentosa voz que a maior parte desconhecia.

Esperamos poder publicar neste espaço algumas fotos do referido passeio.

publicado por julmar às 10:20
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