Terça-feira, 21 de Junho de 2011

Apontamentos

 “Quem não sabe o que lhe acontece puxa pela memória para salvar a interpretação do seu conto, pois não é totalmente infeliz quem puder contar a si mesmo a sua própria história” ZAMBRANO (1995:22)

 

O que aconteceu nesta aldeia é o espelho do acontecido em muitas outras da Raia Sêca, em que se integra, da Beira e mesmo deste país. Haverá necessariamente diferenças, mas haverá concerteza invariantes que uma multiplicação de estudos de caso poderia evidenciar. É assim que PORTO (1984:514) contrapõe à vantagem das análises baseadas em dados estatísticos que nos fornecem uma perspectiva geral do fenómeno migratório “... o maior mérito a estudos de âmbito restrito, ao nível de pequenas comunidades, onde é possível chegar a conclusões precisas a problemas tão diversificados em todas as suas componentes”. Além disso, estes trabalhos menores têm interesse para as próprias comunidades locais enquanto memória  e construção da sua identidade; enquanto discurso em que sentem ser os protagonistas de um momento da história local de que é tecida a história geral. Porque a história como a vida é feita de pequenos nadas.

Quadro comparativo

População da Vila do Sabugal, do Concelho, do distrito e de Vilar Maior, 1864-1981

 

POPULAÇÃO RESIDENTE

 

% MUDANÇA

 

1864

1920

1960

1970

1981

2001

1960-70

1980-81

1960-81

Sabugal

1550

2312

2908

2251

2223

 

-22.6

-1.2

-23.6

Concelho

25143

34750

38062

23732

19174

 

-37.6

-19.2

-49.6

V. Maior

696

708

612

281

249

168

-54.1

-11.4

-59.3

Guarda-Distrito

214507

259386

282606

213538

205103

 

-24.4

-4.0

-27.4

 

O quadro é elucidativo sobre a diminuição de população olhando apenas à quantidade. Porém é fácil de pressupor que a população que permanece é aquela que pela condição social ( p. Ex.proprietários não trabalhadores) ou pela idade, ou por indingência vária, não é produtiva.

“Se por desenvolvimento se entender, não um mero crescimento económico ou mesmo a  simples melhoria das condições materiais e de realização das capacidades materiais de vida , mas antes o processo dinâmico de satisfação das necessidades fundamentais e de realização das capacidades intrínsecas económicas, sociais culturais e políticas dos povos, implicando ainda a sua valorização contínua, aparece de uma forma bem clara a relação entre aqueles movimentos populacionais e este conceito" p. 165

Ausência de política de emigração e de retorno

1º Emigra porque na sua região( ou noutras partes do seu país) não encontra o que pensa encontrar no estrangeiro

2º Enquanto emigrante o envio das suas poupanças e a ‘propagação’ dos seus padrões de consumo e das suas novas formas de pensar repercutem-se não apenas na sua região de origem, mas nas regiões vizinhas, e no todo nacional

3º No seu regresso com a paragem do envio de remessa das suas poupanças e a sua vinda como  factor produtivo e agente inovador.

Repulsão/atracção/informação

A emigração insere-se no contexto de um desenvolvimento desigual. Por isso as pessoas migravam par Lisboa, por isso depois vão migrar as de cá  e muitas de Lisboa para França. Na procura de uma vida melhor. No fundo está sempre o fenómeno do desenvolvimento desigual que é o gerador dos movimentos de atracção/repulsão.

Despovoamento, envelhecimento da população, alteração/destruição do sistema produtivo e com ele da própria estrutura sócio-cultural . Basta atentar na evolução regressiva da população escolar, agravamento do desequilíbrio demográfico.

O círculo vicioso porque emigra-se por não haver condições e não há condições porque a força produtiva se vai. Não se trata de escoar apenas a mão de obra excedentária, porque vai muito além disso.

Passamos do tradicional carro de vacas para a carroça de burros, de ovelhas para cabras e deixa-se de semear o pão pela dificuldade em o obter; deixa-se definitivamente a cultura do linho; as mulheres assumem novos papéis e tornam-se gestoras e são juntamente com os filhos quem vai mantendo a tradicional forma de produção da família. Passam a vir os lavradores de terras vizinhas a ganharem as jeiras para lavrar a veiga ou  a vinha. Sobem os salários. Os homens que deixam cá as mulheres. Diminuem os gados  e com eles o estrume; as terras de cultivo vão diminuindo rapidamente: 1º as centeeiras e são maior parte, depois são as terras de produção vitícolas, cujas vinhas cada vez mais mal tratadas, é incentivado pela CE o arranque que subsidia; mais tarde serão as veigas ribeirinhas, e por último o impensável: as hortas da Ribeira, minusculas parcelas familiares donde provinham as hortaliças. Com tudo isto é o próprio ecossistema que se altera: as terras a monte propiciam a propagação de incêndios que para além das condições propícias beneficiam da atitude demissionária das populações: deixa ARDER , telefonem para os bombeiros; já não se tocam os sinos a rebate. As cadeias são interrompidas A fauna (lagartos,...) agravado pelo uso e abuso de químicos nas terras.  De uma auto-subsistência (importava-se o sal, o acúcar, o arroz ....) a uma dependência total em que tudo se compra. A actividade que gera algum dinheiro é o leite, razão porque as vacas de trabalho são, em grande parte substituídas agora pretas e brancas ditas turinas são estimadas e porque os lameiros são de todas as terras as mais valorizadas. Os burros continuam a ser os mais úteis dos animais. O porco dá muito trabalho e tudo o que dá muito trabalho é abandonado por isso deixou de ser criado ; tudo o que exige muita mão de obra é abandonado – o pão exige um rancho para ceifar, um grupo de malhadores. Mais tarde haverá uma recuperação com a aquisição de maquinaria (tractores, ceifeiras/debulhadoras, enfardadoras...) embora os elevados encargos (salariais tb) não sejam compensatórios

O impacto começa no momento de partida do emigrante logo pela sua ausência da comunidade de origem como elemento produtivo, social e cultural; a sua ausência é logo notada quando se trata do artesão -  do alfaiate, do sapateiro, do pedreiro etc. que se traduz numa dimensão demográfica. Pelo dinheiro que começa a chegar e que vai alterar padrões de consumo. Enfim, produz-se cada vez menos e consome-se cada vez mais. A vila urbaniza-se e a lenha é substituída pelo gás e o fogão é o primeiro electrodoméstico que vai chegar aos lares. É bom de ver o conjunto de alterações que este facto provoca. A par deste impacto junta-se a partir de 75 a chegada da luz eléctrica  que permite a utilização da televisão , o uso do frigorífico e arcas congeladoras. Se a isto juntarmos a distribuição do correio ao domicílio; da água ao domicílio e das estradas alcatroadas temos o conjunto de factores para uma vila urbanizada e de pessoas que deixaram de depender umas das outras podendo cada um isolar-se em casa e viver a sua vida. A igreja passou a ser o único local onde as pessoas se reúnem. Água, luz e estrada eis a trilogia que modernizou a vila e que a par do impacto da emigração deram um novo rosto e criaram um novo estilo de vida.

publicado por julmar às 10:13
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