Terça-feira, 29 de Março de 2011

O PÃO E OS REGIMENTOS MUNICIPAIS - Leal Freire

Todos nós já ouvimos repetidamente falar de posturas camarárias - o povo chama-lhes imposturas, o que, no seu linguajar criticamente impressivo, significará, por um lado, imposição e, por outro, esquisitice, na pior acepção deste termo.

Mas no sentido rigoroso, tratava-se de regras emanadas do senado municipal - nós hoje diríamos vereação -destinadas a disciplinar importantes conspectos da vida dos munícipes e a prevenir os abusos a que cada um de nós, na sua profissão, naturalmente  somos propensos.

Hoje, trataremos de provisões relativas á cozedura do pão e moenga dos cereais panificáveis, transcrevendo algumas.

ASSIM, determinava uma:

As forneiras não levarão mais de cozer cada alqueire de pão do que  oito réis, sendo-lhes proibido exigir  pão ou merendeiro  a qualquer das partes

Mas se for a forneira a levar o pão a casa das partes, se essas lhe mandarem para isso recado, então já poderá cobrar dez réis por alqueire.

A Camâra tinha funcionários chamados almotacés, para fazerem diligências com as padeiras, vendo se o pão é do peso do estilo e não sendo do peso, as condenem segundo as posturas.

E as penas podiam ir para além das multas e perda da mercadoria contrafeita, chegando mesmo ao açoite e á exposição ao escárneo  público, com baraço e pregão.

A fiscalização estendia-se aos atafoneiros, obrigados a demonstrar perícia de ofícios, correcção de modos e preceitos de higiene, dada a sua função de moer os cereais

E sobretudo de evitar os excessos de maquiagem

A sua má fama chegou aos dias de hoje expressa em adágios

Três moleiros, três lagareiros e três escrivões fazem a conta de nove ladrões.

Ou em prelengas

VEM A MARIA - TIRA A MAQUIA

VEM A ISABEL - TIRA O FARNEL

VEM O JOÃO - TIRA O QUINHÃO

DEUS TE SALVE, SACO - TRÊS TE TIRO, QUATRO TE RAPO

SE O FREGUÊS FOR REFILÃO

– DIZ-LHE QUE OS RATOS ROERAM O GRÃO

 E SÓ POR MILAGRE DE SANTA RITA,

 ESCAPARAM O SACO E A GUITA

publicado por julmar às 16:37
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Domingo, 27 de Março de 2011

Ruínas - Fevereiro de 2011

É uma dor de alma. Nem sequer foi preciso ir para o lado das Lages onde a uma casa em ruínas se segue outra casa arruinada. Ficam as ruas calcetadas de novo, com iluminação a preceito, contadores, bocas de incêndio, saneamento. 

 

Qual foi a última vez que estas portadas se abriram? 

 

 

 Casa do ti Zé Alves. As silvas assenhorearam-se do curral. Os contadores novos aguardam até ...

 

 

 A casa do Caífes está assim ... parece que nem a videira se salvou

 

 

                         Começou por ser uma telha partida, depois foi o caibro que apodrecido cedeu, depois foi a água que se infiltrou na parede

 

  Do lado da rua era a casa do ti Tavares; do outro era a casa do ti Manel Adrião. Caiu a taipa, caiu o telhado, caíram as portas. Dentro cresceu o funcho e o sabugueiro. 

publicado por julmar às 21:41
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Quinta-feira, 24 de Março de 2011

A REZA DO FORNO - Leal Freire

Entrara nos boqueirões

Já mais negros que os carvões

Todo o pão de uma fornada.

A mulher do lavrador

Ergueu então ao Senhor

Velha reza salmeada.

 

Á sua voz de comando,

Ergueu-se o corvo do bando.

Filhos, criados, mendigos.

Era noite de nevão,

Uns esperavam o pão,

Outros do friofugidos.

 

Em louvor de São Vicente

A fornada se acrescente

Disse a velha em tom de brasa.

Por Deus e Santa Maria,

Pão nosso de cada dia

Haja sempre em nossa casa,

 

 

Em louvor de Santa Teresa

Não se acabe o pão na mesa

Mesmo de quem nos consome

Ladrões, citotes da vila.

Que nem sequer tal quadrilha

Aprenda o sabor da fome

 

 

O gado na mangedoura

O  bicho-fero  na loura

A cada a sua ração.

Em louvor de Santa Marta

O pão se parta e reparta.

É esta a minha oração.

 

 

Ouvi-me, Senhor Jesus,

Pra vos rogar, eu me pus

De joelhos sobre as pás.

Ouvi-me plo que sofreste.

Plo muito que padeceste

De Pilatos pra Caifás.

 

A Maria, vossa mãe,

Mae de nós todos também

Desde as horas do Calvário

Eu quero pedir ainda

Duas coisas, qual mais linda

Plas contas do meu rosario..

 

Que o nosso irmão que, primeiro,

Face a Deus, juiz inteiro,

Para pagar compareça,

Nao sofra mais do que um susto,

Leve insígnias de justo

Por sobre a cruz da cabeça.

 

E que a alma que o tormento

Há mais tempo o fogo bento

Requiem e no Purgatório

Voe já lesta prós Céus,

Fique á direita de Deus,

Entre no seu oratório.

 

 

Terminada a santa prece

A gente que reza esquece

Suas mágoas, tantas são.

Do forno, sai uma bola,

A velha reparte-a toda

Todos são filhos de Adão

 

 

Da bola sai uma luz

Ei-la pelos céus em cruz

Cada cruz uma barquinha

E todas de justos cheias

Rebentaram-se as cadeias

Coa força da ladainha....

publicado por julmar às 22:02
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Terça-feira, 22 de Março de 2011

AINDA E SEMPRE O PAO - Evolução romanesca do pão - Leal Freire

 

Guiamo-nos neste capítulo, seguindo um notável trabalho de pesquisa levado a efeito por um estudioso de quem tive a honra de ser amigo e que se chamava Gentil Marques.

Tudo começou pelo Sol. Foi ele mesmo o primeiro combustível que se usou para cozer

Foi no EGITO DOS FARAÓS E NA CALDEIA, TERRA DE ABRAÃO, ISAQUE E ISMAEL.

As pastas de massa eram colocadas sobre pedras e expostas ao Sol, em posições estudadas e experimentadas.

Depois, quando o homem se encontrou senhor e dono dos segredos do fogo, passou a aproveitá-lo para cozer melhor e mais depressa o seu próprio pão.

De inicio, limitou-se o processo a uma plataforma de argila, aquecida com a devida antecedência e sobre a qual se colocavam os pães a cozer.

A argúcia levou-nos depois a criar fornos fechados, permitindo a regulação da temperatura interna.

A descoberta seguinte foi a do estabelecimento de correntes de ar no interior dos fornos, para distribuir melhor o calor e leva-lo a toda a superfície.

Grande inovação foi a descoberta do vapor de água e a sua

aplicação ao forno...

Depois, não mais se parou - usando o gás, a electricidade, a energia atómica

Mas nada  dá o sabor das vides e giestas..

A não ser como dizia o meu amigo Canário, carabineiro em Alamedilha e diz o nosso rifoneiro

NÃO HÁ NADA COMO A FOME

PARA DAR SABOR AO PÃO.

 

 

publicado por julmar às 21:52
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Terça-feira, 15 de Março de 2011

A poesia de Leal Freire - João Martins

 

João Valente - Arroz com Todos - Capeia Arraiana

1. Observação preliminar

Mestre na arte de versejar, senhor de virtualidades técnicas notáveis, Leal Freire é o maior poeta de Riba-Côa e aquele que melhor interpreta a alma do seu povo.

A simplicidade dos temas, imagens, ideias, aliada, de facto, a uma perfeição formal ímpar, concorre na sua poesia para a construção de um universo lírico de rara beleza e que fez dele um dos poetas que melhor interpreta a alma do povo Ribacudano.

A sua poesia, é, do ponto de vista técnico, um exemplo de rigor métrico, de simetria, de perfeição. O lugar de cada palavra, obedece a um desígnio sabiamente amadurecido; o mesmo se diga da escolha da forma estrófica, em quadras tão ao gosto popular; a estrutura interna dos poemas, nem curtos nem longos, revela um elevado sentido de equilíbrio, numa construção  arquitectónica cuidada e minuciosa que a sabedoria de uma longa vida de escrita trazem. Há uma subtil malha de correspondências no seu interior, a deixar perceber uma verdadeira teia, onde todos os pontos se interligam por um fio condutor habilmente desenhado que desenvolve uma ideia simples subjacente a cada um dos seus poemas.

Mas Leal Freire é mais do que tecnicismo. Quer busque no quotidiano as suas imagens (os campos, a lavoura, os animais, os rituais da aldeia), quer as recolha no tempo cósmico, quer, enfim, as molde no universo rural, os seus textos são fiéis retratos da vida simples, com palavras simples, como convém à boa poesia.

As quadras são, como se disse, um exemplo de organização, ao mesmo tempo que uma manifestação de um espírito lírico sem par.

Esta conjugação da beleza poética e da riqueza lírica com o preciosismo técnico e inegáveis virtualidades linguísticas fazem dos seus poemas excelentes instrumentos de trabalho, tanto para a aprendizagem da língua, como para o do estudo da etnografia, e dos costumes de Riba-Côa.

Aqui se inicia, por isso, um exercício despretensioso que visa partilhar com os leitores algumas reflexões sobre a poesia de Leal Freire.

Este texto é um pequeno ensaio sobre o ethos, isto é, a alma Ribacudana, a partir da análise do poema A Ceia Do Lavrador,  de Leal Freire.

 

2. Texto

A CEIA DO LAVRADOR

Deram os sinos trindades(1)
Por sobre as casas da aldeia
Toques de suavidades
Que prenunciam a ceia

 

Mas mesmo que ande de zorros(2)
O lavrador, que é bom pai,
A ver se a ceia é pra todos
Não manda, que ele proprio vai.

 

Começa a sua inspecçáo(3)
Plas vacas, gado mais nobre
Também cabonde ração
Prás cabras, vacas dos pobres.

 

Á égua, luxo da casa,(4)
Á burra, sua cestinha,
Mangedora a feno rasa
Mais até do que convinha.

 

Pois na pia do cevado,(5)
Que só pra comer nasceu,
É o farelo um pecado,
De fartura brada ao céu.

 

O gado de bico dorme(6)
Ao fusco se regalara
Os cães aguardam que enforme
O caldo que nutre e sara

 

Aos animais sem razão(7)
Aconchego já não falta
A seguir vem o pregão
Chamando pra mesa a malta.

 

Filhos, netos, jornaleiros(8)
O conhecem e de cor
Mendigos e passageiros
Também cabem em redor.

 

Na mesa, que é um altarzinho(9)
Que branca toalha cobre
Não falta caldo nem vinho
Nem pão. regalo do pobre.

 

vem á ceia as courelas(10)
cada uma traz seus mimos
dá o quintal bagatelas
a veiga fartos arrimos

 

Das bouças vêm canhotos(11)
Que um bento calor evolam
E até os manigotos
Mandam cheiros que consolam

 

Vinhedos, chões e vergéis(12)
Primasias se disputam…
Nem as rochas são revéis
Em dura freima labutam.

 

As do monte mandam coelhos(13)
As da ribeira bordalos
Pirilampos são espelhos
A cegarrega é dos ralos.

 

As Almas Santas dos Céus(14)
Também descem para a mesa
A noite, negra de breu,
Resplandesce com a reza.

 

E quando acaba a litânia (15)
A prece que ceia encerra
Manda pra longe a cizânia
A paz reina sobre a Terra,

 

Dia um da criação (16)
A quantos na tasca estão.

(Leal Freire)

 

3. Estrutura

Como é usual nos poemas de Leal Freire, a estrutura é simples e dominada por uma rede de correspondências externas: A - B -A- B. C-D-C-D E-F-E-F, etc.

A – Introdução (estrofe 1 e 2).

A estrofe 1 introduz o tema ( a ceia) e o tempo (à hora das trindades).

A estrofe 2 introduz a personagem (o lavrador, que é bom pai, homem bom) e justifica, ao mesmo tempo, a narração que decorre nas estrofes seguintes.

Dir-se-ia, assim, que o tempo real do poema é o que vai das trindades à oração final da ceia do lavrador, mas com um registo temporal diferente, anterior ao da sua própria cronologia, já que â manjedoura e à mesa, vem tudo o que anteriormente o campo generoso deu. Ceiam os animais e lavrador tudo o que da natureza veio.

B – Narração (da estrofe 3 à 13). Descrição do que a natureza fornece, através do alimento dos vários animais e do lavrador.

C – Conclusão (14 e 15). São duas estrofes que emergem do que se diz de3 a14, estabelecendo um paralelo entre a ceia dos animais e do lavrador. A sua unidade, de resto, é reforçada pela projecção, ou enjambement, da estrofe 9 (a mesa, que é um altarzinho) para a estrofe 14 (aonde descem as almas santas do céu), 15 (e acaba a ceia com uma prece) e o remeate do poema na 16 (com uma espécie de libação).

 

 

 

4. Tema                     

Este é mais um belo poema de Leal Freire, no qual, uma notável rede de correspondências entre a ceia dos animais e do lavrador confere unidade ao poema, faz da ligação entre o primeiro e ante-penúltimo versos, o resumo da ideia e do tema:

«Deram os sinos trindades [...] A paz reina sobre a Terra.»

São estes os versos que resumem o poema: A vida simples e tranquila do campo, ao ritmo das trindades. Uma vida espiritual no seio da natureza que a vida moderna suprimiu com a necessidade do indivíduo em prover às sua cada vez mais exigente existência corpórea.

Uma beatus ille”, muito semelhante à áurea mediania (aurea mediocritas) já glosada na antiguidade clássica por Homero, Heráclito, Esopo na fábula do rato do Campo e do rato da cidade, e, na sequência dos estóicos, Virgílio, Horácio, também defensor de um ideal de vida calmo e sem grandes exigências, capaz de dar ao Homem a felicidade que não encontra no meio do ambiente perturbado da cidade, na glória das batalhas ou mesmo "no exercício decoroso das magistraturas" e lá fora, por Frei Luís de León, Carlyle, Tolstoy e outros, e entre nós, por Francisco Manuel de Melo, António Ferreira nalgumas das suas odes, Sá de Miranda na Carta a Mem de Sá, através do recurso também à fabula do rato do campo e do rato da cidade, e posteriormente pelos arcádicos.

 

Neste poema,em que Leal Freiretrata o seu tema recorrente das virtudes da vida no campo, da sua “pátria chica”, como costuma dizer, é o ritual da ceia, dos animais e dos homens, cuja hora é anunciada pelo toque das trindades, e culmina na prece final da ceia do lavrador, que traz a paz à terra.

E esta paz a que conduz esta bela vida, é magistralmente resumida na última estrofe, pela fraternidade e igualdade entre todos os homens reunidos na tasca, a qual dá à vida simples do campo um carácter espiritualidade e sagrado mais puros, mais próximos de Deus, porque mais próxima do criador e da sua criação:

«Dia um da criação (16)/A quantos na tasca estão

Sorrimos ao remate síngular do poema. Quem conhece o poeta, como nós,vê-o no seu geito bem Ribacudano, chapéu de abas, a entrar numa desas tascas das nossas aldeias e a oferecer uma rodada de bom graminês...

«A todos os que na tasca estão.»  

Porque esta, é a natureza  de Leal Freire, como homem de Riba-Côa.

 

 

5-  Da Natureza à Alma

 

«O povo Inglês é um povo mudo; podem praticar grandes façanhas, mas não de escrevê-las», disse Carlyle, dos ingleses.

E acrescentava, com vaidade, no seu poema épico, que os feitos dos ingless está descrito na superfície da terra.

Contrapunha, humilde, Unamuno, que mais modestamente, e mais silencioso ainda, o povo Basco escreveu na superfície da terra e nos caminhos do mar seu poema; um poema de trabalho paciente, na América latina, mais que em qualquer outra. Mas durante séculos viveu no silêncio histórico, nas profundidades da vida, falando a sua língua milenária; viveu nas suas montanhas de carvalhos, faias, olmos, freixos e nogueiras, matizadas de ervas, bouças e prados, ouvindo chamar o oceano que contra elas rompe, e vendo sorrir o sol atrás da chuva suave e lenta, entre castelos de nuvens.

E concluía: «As montanhas verdes e o encrespado Cantábrico são o que nos fez».

De facto, como tão bem observou Unamuno, é a Natureza e o meio que fazem os povos.

            O homem encontra-se determinado pela natureza, a qual engloba tanto o seu próprio corpo, como o mundo exterior. E justamente a efectividade do próprio corpo, os poderosos impulsos animais que o governam, a fome, o impulso sexual, a velhice, a morte, determinam o seu sentimento vital e sua relação com o meio.

            Esta constituição vital, que Platão já descrevia na vida presenteira dos terratenentes e sua doutrina hedonista, combatida por Heráclito, encontra expressão na filosofia epicurista, que S. Paulo desdenhou, está presente numa grande parte de literatura de todos os povos, e ressuou nas canções provençais, na poesia cortesã alemã, na epopeia francesa e alemã de Tristão, nas éclogas e pastorais do nosso Bernardim, depara-se-nos igualmente, na filosofia do século XVIII.

            Nesta concepção do mundo, a vontade subordina-se à vida impulsiva que rege o corpo e às suas relações com o mundo externo: o pensar e a actividade finalista por ele dirigida encontram-se aqui ao serviço desta animalidade, reduzem-se a proporcionar-lhe satisfação.

            Quando tal constituição vital se transforma em filosofia, surge o naturalismo, que, de forma uniforme, desde Demócrito, Protágoras, Epicuro e Lucrécio, a Hobbes, afirma ser o processo da natureza a única e integral realidade; fora dela, nada havendo; a vida espiritual distingue-se da natureza física só formalmente como consciência, de acordo com as propriedades nesta contidas, e a determinidade conteudalmente vazia da consciência brota da realidade física, segundo a causalidade natural.

As experiências do impulso vital, independentemente das construções filosóficas, ebabulações poéticas, levavaram sempre, e isso é que nos interessa, ao mesmo: ao sossego de ânimo, à paz de espírito, que surge em quem acolhe em si a conexão permanente e duradoira do universo.

No poema de Leal Freire, encontramos também a expressão desta constituição anímica. Ele vive em si a força libertadora da grande mundividência cósmica, astronómica e geográfica, que a paisagem particular e a Terra de Riba-Côa criaram.

O universo geográfico, as suas leis gerais, o nascimento de um sistema cósmico próprio, a história da Terra que sustenta animais e homens, por último, produz um   homem particular, emergente de um universo cósmico:

 

«vem á ceia as courelas(10)/cada uma traz seus mimos/dá o quintal bagatelas
a veiga fartos arrimos// Das bouças vêm canhotos
(11)/Que um bento calor evolam
E até os manigotos/Mandam cheiros que consolam// Vinhedos, chões e vergéis
(12)/Primasias se disputam/Nem as rochas são revéis/Em dura freima labutam.// As do monte mandam coelhos(13)/As da ribeira bordalos/Pirilampos são espelhos/A cegarrega é dos ralos.»

E o homem que resulta, em Leal Freire, desta cosmogonia é piedoso; um bom pai, há semelhança de Lucrécio, que dizia «ser piedoso quem com ânimo sereno contempla o universo»:

 

«O lavrador, que é bom pai,/A ver se a ceia é pra todos/Não manda, que ele proprio vai.»

Um homem livre que, superando o fundamento mecaniscista do naturalismo, reconhece, como o ideal natrualista de Fuerbach, Deus, na imortalidade e na ordem invisível das coisas:

 

 

«Na mesa, que é um altarzinho(9)/Que branca toalha cobre/

[...]

As Almas Santas dos Céus(14)/Também descem para a mesa/A noite, negra de breu,/ Resplandesce com a reza.»

 

Uma natureza provida de alma, impregnada da interioridade, que nela interpolaram a religião e a poesia.

 Uma natureza que covida a uma atitude contemplativa, intuitiva, estética ou artística, quando o sujeito repousa, por assim dizer, nela do trabalho do conhecimento científico-natural e da acção que decorre no contexto das nossas necessidades, dos fins assim originados e da sua realização exterior.

Nesta atitude contemplativa alarga-se o seu sentimento vital, em que se experimentam pessoalmente a riqueza da vida, o valor e a felicidade da existência, numa espécie de simpatía universal.

Graças a tal estado anímico que a realidade suscita, voltamos nela a encontrá-los. E na medida em que alargamos o nosso próprio sentimento vital à simpatía com o todo cósmico e experimentamos este parentesco com todos os fenómenos do real, intensifica-se a alegria da vida e cresce a consciência da própria força vital, tal é a complexão anímica em que o indivíduo se sente um só com o nexo divino das coisas e aparentado assim a todos os outros membros deste vínculo.

Ninguém expressou com maior beleza do que Goethe esta constituição anímica:

Celebra a ventura de «sentir e saborear» a natureza». «Não só permites a fria visita de surpresa, mas deixas-me perscrutar o seu seio profundo, como no peito de um amigo». «Fazes passar diante de mim a série do vivente e ensinas-me a conhecer os meus irmãos no silencioso bosque, no ar e na água».

Esta constituição anímica encontra a resolução de todas as dissonâncias da vida numa harmonia universal de todas as coisas, que tão bem, como Goethe, soube resumir Leal Freire:

 

«A prece que ceia encerra/Manda pra longe a cizânia/A paz reina sobre a Terra.»

 

 

6 - Alma Enérgica e Sensível.

 

 

Conclui Leal Freire o seu poema com aquela magnífica saudação, que resume todo o carácter da minha raça:

 

« Dia um da criação (16)/A quantos na tasca estão.»

 

Uma saudação, curta em palavras, rude, como o que vem da força expontânea da natureza envolvente.   

Não é por acaso, que o nosso folguêdo mais apreciado seja a capeia; um passatempo, em que se adestram colectivamente as forças dos homens, em confronto com a força bruta de um boi.  

Um divertimento rude, para um carácter simples.

Como dizia Unamuno, a respeito povo Basco, a inteligência  da minha raça também é activa, prática, enérgica. Sobreviver numa terra inóspita, de fronteira, exige  mais um estética de acção, que de contemplação.

«E para quê poetas em tempos de penúria?», preguntava na 248 elegía, Pão e vinho, o poeta alemão Hölderlin.

Por isso, em séculos, não produziu nenhum poeta, nenhum filósofo, nenhum santo; mas venceu muitos exércitos invasores, munido apenas de chuços e foices.

Não que o meu povo não seja capaz de pensar, sentir.

A aridez dos cabeços, a dureza da rocha granítica, o contínuo rebentar dos bracejos entre os barrocos, a florição das giestas em Maio, o verdejar dos prados,  a sombra fresca dos freixos, o murmúrio dos ribeiros a galgar as fragas,  a courela, os quintais, os chãos, os vergéis com os seus mimos, um lenhador carregando ao anoitecer o seu feixe de lenha,  o carro de bois carregado balançando-se nos sulcos do caminho, a geada branca sobre o campo, tudo isto se apinha, se agrupa e vibra através da nossa existência diária.

Esta fica tão perto do passo no caminho do poeta e do filósofo que se recreia, como do pastôr, que pela orvalhada sai com o seu rebanho.

Um carvalho no caminho, um freixo num lameiro, induzem todos à lembrança dos primeiros jogos e e das primeiras escolhas da infância. Quando às vezes caía as golpes do machado uma árvore no meio de um bosque, o pai de família procurava na floresta, a madeira seleccionada para as tábuas do soalho, para a cumeeira da casa, o jugo das vacas, a rabiça do arado; o homem mais experiente escolhia a galha mais afeiçoada para o forcão, os moços colhem o madeiro do Natal.

A rudez, o perfume da madeira do carvalho, do castanheiro e do freixo, falam sempre da lentidão e da constância com que uma árvore cresce, floresce e frotifica, abrindo a sua copa ao céu, enquanto a sua raíz mergulha na terra sustentadora.

O caminho do campo recolhe tudo o que tem substância em seu redor, o enigma do perene e do grande, do céu e da terra, penetrando o homem e convidando-o a uma longa e serena reflexão sobre a criação.

Mas esse caminho do campo, como diz Heidegger, «fala sómente enquanto haja homens que, nascidos no seu âmbito, possam ouvi-lo.»

Enquanto o ritmo da vida, o trabalho, as pausas do trabalho, se façam ainda ao ritmo do relógio da torre e dos sinos, que, ainda segundo Heidegger, «sustentam a sua própria relação com o tempo e a temporalidade».

Enquanto  «Derem os sinos trindades/ Por sobre as casas da aldeia/ Toques de suavidades/ Que prenunciem a ceia», nas palavras de Leal Freire.

Pena é que só agora, quando o sino das trindades já não marca o tempo dos trabalhos do campo, o meu povo tenha aprendido a falar num idioma de cultura, que revela ao mundo o seu ethos de um profundo sentido do transendente, um saber amável, uma serenidade espiritual, generosidade e fraternidade universais, sob uma aparente rusticidade.

Um ethos de boi valente a investir no forcão, dócil a puxar o arado; generoso sempre, ao pico do garrochão ou da aguilhada. Um povo ao mesmo tempo nervo e sentimento.  

Leal Freire, Manuel Pina, Pinharanda Gomes, Eduardo Lourenço, interpretes deste ethos, são poetas e pensadores, que ainda ouvem o caminho do campo, numa Riba-Côa  onde rareiam cada vez mais os  homens que, nascidos no seu âmbito, ainda conseguem ouvi-lo.

A saudação do final do poema, é o murmúrio que Leal Freire escutou, do vento acariciando as copas dos carvalhos, dos castanheiros e freixos, por esses caminhos de Riba-Côa:

«Dia um da criação, para todos os que na tasca estão!»

Para todos os que ainda consigam ouvir os sinos das trindades e o vento, da terra dos nossos pais!

 

publicado por julmar às 19:19
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Domingo, 13 de Março de 2011

O pão nosso de cada dia

Em boa parte a riqueza do lavrador media-se pelo tamanho da meda e pela quantidade de fanegas (uma fanega equivalia a quatro alqueires, sendo que o alqueire teria 14 litros?)

Se atendermos que para uma fornada de 15 pães eram necessários 4 alqueires e que para abastecimento de casa eram necessárias duas fornadas, o lavrador teria de colher 24 fanegas de pão para garantir o alimento para o ano todo. Claro que a mesma quantidade de grão podia dar para fazer mais ou menos pães consoante fosse moído na pedra alveira ou borneira e do próprio apuramento ao peneirar a farinha. Se queria pão alvo (como o das padeiras) fazia menos pães e restava-lhe mais farelo para viandas dos animais domésticos, nomeadamente marranos.

Depois do dinheiro, sempre escasso, o centeio servia como principal género de troca:

Pagar ao barbeiro, pagar os Bens de Alma, pagar a Côngrua ao pároco, pagar rendas de lameiros, ou mesmo uma proporção (meias, terças) das terras centeeiras, pagar as ferragens de animais, pagar a cobrição das vacas, para citar apenas as mais usuais. E tinha ainda de garantir que ficava com a quantidade de semente necessária para a sementeira seguinte. Por isso, a arca tinha de ficar bem cheia para durar até à próxima colheita. E os anos, por vezes, eram ingratos e Maio e Junho eram meses complicados numa altura em que os dias são grandes e o trabalho árduo. Por isso, se ia pedir de empréstimo uns alqueires aos mais ricos; por isso, havia quem malhasse a cevada e dela fizesse pão; por isso, se ceifava antecipadamente um chão onde amadurecera primeiro para se socorrer.

Agradece-se a correcção das medidas a quem tenha melhores conhecimentos

publicado por julmar às 19:48
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Segunda-feira, 7 de Março de 2011

Roteiros Gastronómicos do Sabugal

 

Este ano o arranque dos roteiros gastronómicos do Sabugal teve lugar na Casa Villar Mayor

http://www.facebook.com/pages/Casa-Villar-Mayor/119811898077049

publicado por julmar às 22:22
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Vilar Maior florido

 

O que torna a Vila linda são os quintais que se distribuem por entre as casas. E as amendoeiras são as primeiras a florir.

publicado por julmar às 20:06
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Verbos de que se faz o pão - Parte II -Jarmeleiro

Ora atão , no seguimento do que tinha dito anteriormente quanto às voltas do pão, lá plo mês de Agosto havia que malhá-lo. Mas malhá-lo à maneira antiga, com manguais e outros utensílios de uso nessa faina, pois as malhadeiras só viriam mais tarde. E malha feita em casa de lavrador, havia de ser com mais de dez homes e quatro ou cinco mulheres. Tratava-se aquase sempre de trabalho à troca e não a jornal, ou seija , o labrador pagaria com o seu trabalho e o da junta de vacas aos malhadores. E o dia começava de manhê cedo em casa do lavrador com o almoço, comendo-se mais das vezes um caldo batata acabado de fazer, seguido das batatas retiradas da mesma panela do caldo tempradas com colorau e com o molho dos chicharrões que juntamente com alguns enchidos serviam de acompanhamento. E claro, a pinga não podia faltar. Uma vez chegados à eira, começava-se a retirar os molhos da meda, abriam-se e estendiam-se ordenadamente no chão até se formar a eirada . Seguidamente, os homens pegavam nos manguais punham-se cara a cara, metade de cada lado e vai de malhar sobre o centeio com pancadas certas, recuando os que estavam de costas para a eirada e avançando ao mesmo passo os de frente, até chegarem ao fim daquela envelga. Aí chegados, davam uns passos para o lado e recomeçavam em sentido contrário, repetindo sempre até terminarem aquela eirada , altura em que entravam as mulheres pra levantarem e enfaixarem a palha que os homens atavam com nagalhos preparados na véspra . E estas operações eram repetidas até ser malhado o último molho da méda. E agora seria a altura da marenda que neste dia e nunca intendi porquê, tinha o nome de bica. Teminada esta breve refeição era altura de começar a limpa do grão, começando através de encinhos de madeira por retirar os cuanhos, que mais não eram que palha retraçada plos manguais e que não dava atadura para enfaixar, sendo levada para os palheiros por meio de lençóis de estopa atados pelas quatro pontas. Seguidamente pedia-se a todos os santos umas boas rabanadas de vento que favorecessem a limpa do grão, o que era feito levantando-o ao ar com uma pá rasa, de madeira, de modo a que o vento separasse o grão, mais pesado, das preganas , da moinha, da nigela e dos cornachos . Aqui o trabalho das mulheres era importante, pois ao mesmo tempo que o homem da pá levantava o grão, iam com a ajuda de vassouras feitas de cuanhas apartando as impurezas que caiam no monte do pão. Mas aí tinham que se proteger com o seus chapéus de palha e lenços da cabeça para se livrarem de toda aquela morganhada . Limpo o pão, varrida a eira e apanhados os rabos pra deitar às pitas, era hora do lavrador junguir as vacas e ir à eira buscar a carrada de sacos de centeio, que despejados na velha arca de carvalho, a deixariam de cagulo se a colheita fosse boa . A partir daqui houvesse saúde pró comer, pois mulher de lavrador, sabia de olhos fechados todos os passos a dar até chegar à mesa, inda que precisasse dos serviços do moleiro e do forneiro. E no dia seguinte à malha, ala... Fala com um dos moleiros da vila, não sei se o Nifo , ou talvez os Henriques e manda moer uma fanega, mas na pedra borneira porque funde mais do que na alveira . Tirada a maquia pelo moleiro e recebida a farinha, diz a um dos filhos; Vai ali à ti Zabel Afonsa a pedir o fermento e se ela não o tiver vai à ti Maria Augusta ou às dos Adriões. E no dia seguinte, mãos à obra; Fala com o forneiro pega na peneira e aparta o farelo; Prepara a maceira, farinha pra dentro água, fermento e toca a amassar. Dá algum tempo à espera que finte; Puxa dos tabuleiros, cobre-lhe o fundo com lençóis de linho e começa a tender. A seguir, forno da praça com ele porque no do poço do açougue já não havia vez. Mas ali como há outras pessoas para coser na mesma fornada, há que cada um marcar os seus pães para não haver trocas; uma cruz, duas poças... Passada cerca de uma hora é tirá-lo, pagar a poia ao forneiro, levá-lo pra casa e partir uma das bôlas feitas com os restos da massa de raspar a masseira. E Como era o primeiro do ano a mãe tinha-lhe metido uma chouriça lá dentro. Que maravilha.
Munto bôa noute pra todos e... haja saúde e coza o forno

publicado por julmar às 19:55
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Quinta-feira, 3 de Março de 2011

Verbos de que se faz o pão - Jarmeleiro

PRIMEIRA PARTE

Aqueles que tal como eu amanharam as tapadas e samearam algumas fanegas de grão, sabem quantas voltas há que dar ao pão até chegar à mesa do rico, do pobre do rei, à Casa de Deus e até ao pai nosso, na passage do pão nosso de cada dia. E eu como muntos outros, até comemos o pão que o diabo amassou. Ora e por môr dele ser o alimento princepal em casa de cada um, é que reza o ditado; Casa onde não há pão todos ralham e nenhum tem razão. Mas indo agora às fainas do pão temos:
A decrua da terra, que era feita durante a Primavera nas tapadas onde em Julho se havia ceifado , rasgado-se aterra pelas gomas dos regos deixados da colheita anteroir. Faço aqui um àparte pra dezer que as terras de pão eram semeadas ano sim ano não pois ficavam um ano de poisio. Depois, pelos meses de Junho Julho fazia-se a estravessa, lavrando-se de atravesso os regos feitos na decrua, mas quando a torna era estreita lavrava-se de forma inviezada pra que as vacas, ou burros não virassem tantas vezes, já que isso era tempo perdido. lá por Novembro faziam-se as sementeiras e para isso era preciso gradear a terra desfazendo os regos deixados da estravessa. Aí era ver o lavrador montado na grade de madeira segurando-se com uma das mãos ao rabo de uma das vacas, aguilhada na outra mão, pra frente e pra trás até deixar a terra lisa e pronta pra receber a semente. Logo a seguir com um saco de estôpa ao ombro contendo o grão, ia retirando o mesmo repetidamente, de mão cheia e certeira lançando-o à terra por gestos ritmados e passadas certas, de maneira que as sementes ficassem destribuidas por igual, não fosse o pão nascer ralo ou aos mochões. O calibrador da saída da sementes era composto plo dedo polegar e plo indicador, conforme se abriam mais ou menos. Uma vez espalhada a semente era coberta com a abertura de novos rêgos, feitos no sentido contrário dos da estravessa. Pelo mês de Março o pão era aricado, serviço feito com arado de pau, de abecas curtas de maneira a lavrar alviando a terra do fundo do rego e sem apanhar a goma aonde iria crescer o o cereal . Este serviço tinha por fim matar ervas, dar algum barbeito à terra e desimpedir o rêgo pra evitar o estancamento das águas impedindo que o pão ficasse chôco e amarelado . Em Julho juntavam-se os ranchos de ceifeiros e enquanto ceifavam as louras cearas lançavam cantigas ao vento e d'algumas inda me lembro bem. Finda a ceifa, em cada tapada os molhos eram juntos por todos e enrolheirados, por quem sabia, de modo que as espigas ficassem protegidas pela palha, por môr dos animais não as comerem e tamém pra não se molharem caso viesse alguma trevoada. E o tempo da malha estava logo ali a chegar, pois como dezia o ditado, quem malha em Agosto malha com desgosto. Mas o pão só podia ser malhado na eira e pra isso era preciso acarranjá-lo, o que se fazia nos carros das vacas com aqueles estadulhos especiais, altos lisos e luzidios. E não fosse a demora, até esplicava aqui a maneira complicada como a carrada dos molhos era feita travando-se uns aos outros. Fica pra outra vêz. Trazido para a eira carro carro, os molhos eram empihados na méda que tamém não era feita à toa, mas segundo certas regras. Depois, era a malha que quando feita a mangual, era cousa digna de se ver. Mas esse e o resto dos passos do pão, fica pra mais logo, porque a hora já vai adiantada.
Munto bôa noute a todos.

publicado por julmar às 12:32
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