Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011

Um passeio na Vila - parte 2

Já com o sol a inundar toda a encosta do castelo, descemos Cerca abaixo fazendo conversa em que se misturam memórias e observações. Memórias de como eram os campos e seu cultivo; observações da desumanizaçáo da paisagem: da propriedade que fora do sr Bernardo Simões de vinha e olival e, agora, das moitas de silvas que nem para pasto serve; do entulho que se espalha pelo caminho ao desandarmos para o caminho das Entrevinhas ladeado por cachos de amoras que se misturam a abundantes cachos de uvas que o míldio não poupou; da figueira do Nabal, junto da presa, deque mão retam vestígios. Passamos junto da amoreira da ti Filomena Moreira cujos frutos estão ainda vermelhos. Viramos para o caminho ao cimo das Regadas e recorda-se o tempo em que este caminho, ao anoitecer, de regresso do campo, era um mar de gente e animais.

À memória de Miguel Duro

 Depois uma primeira foto junto do cruzeiro que assinala o assassinato do ti Miguel, corria o ano de 1955. E eu e o meu companheiro vamos identificando propriedade a propriedade e fazendo as histórias do acontecer de um tempo de escassez de recursos em que cada palmo de terra era cultivado. Entrámos nas Retortas de Cima e fomos em direcção ao local onde existira uma frondosa abiboreira (género de figueira que produz uns figos especiais - maiores e com um sabor especial) mas nem vestígios dela. Descemos quarteirão a quarteirão observando os restos do que outrora fora um jardim de frutícolas de que restam apenas esqueletos. Chegámos ao rio que na ausência de água se tornou o melhor caminho que nos conduziu à açude das Aaleijoeiras reserva preciosa de àgua para peixes, cágados, rãs e bicharada terrestre que aqui se vem dessedentar. Nas poldras atravessámos para a margem direita e entrámos na veigas das Retortas de Baixo procurando delimitações constituídas por marcos ou cruzes mas a única que se apresentou evidente foi o tronco cadavérico da imponente cerejeira do ti Xico Bárbara.

 

Rumámos tapada das Retortas acima por entre o giestal até ao caminho que separa o Vale da Lapa da tapada da Justa e da Correia depois. Dali se avista a Lapa Longa, nas faldas do Vale Carapito, onde descendo até à ribeira se iam sucedendo nascentes de água que empresada, outrora, favorecia o aparecimento de hortas em socalcos,onde o homem empreendia numa agricultura braçal donde resultavava uma variedade de frutos e hortícolas temporãos. A paisagem, a custo, por mor dos incêndios, começa a passar de mata em floresta: freixos nas partes baixas de maior humidade e carvalhos nos secadais crescem ano após ano sem intervenção humana.

 

A electricidade e o gás substituíram o exclusivo da lenha como energia. Destoa em volta o escalavrado monte do Castelo que dificil e lentamente recupera da imprudência de quem resolveu limpar a sua propriedade através do fogo. Não resistimos a entrar na Correia e a revisitar uma das sepulturas antropomórficas escavadas na rocha. Para que não haja dúvida: Descemos o Pombal a caminho do Pinguelo, discorrendo sobre a importância económica da Correia de que são testemunho a arqueologia da Tapada Limpa, as sepulturas antropomórficas, o Pombal, a calcetamento do caminho ao jeito da calçada romana e o ter sido propriedade do sr Alexandre Araújo.

 Tudo pontas de novelo de onde se tecem histórias que cruzam com outras histórias na histórias de todos. O sol queima, a camisa começa a colar-se ao corpo. Já é tarde para dar uma olhadela ao Moínho que foi da ti Filomena Moleira. O caminho que nos conduzirá às Escaleirinhas tem no início um aluimento de terras que a não ser tratado impedirá o seu uso. (Ó senhor presidente da Junta, enquanto é tempo ...). Em qualquer parte do mundo este trilho das Escaleirinhas é digno de admiração: pela paisagem feita de rio ao fundo das fragas rochosas, da variedade da flora. E mais histórias tendo como personagens o mais blasfemo dos homens ou a maior profissional das artes de Eros.

 

Chegados ao largo das Lajes ouvimos a crítica ao mau estado -à vista - em que deixou este largo. Feita a observação das casas em redor constata-se a ruína irrreversível de quase todas com a constatação do crescimento rápido do sabugueiro no seu interior. Porquê? Mistério para leigos como os dois peregrinos dets jornada.

 

 

publicado por julmar às 22:19
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De MANUEL LEAL FREIRE a 16 de Agosto de 2011 às 17:13
CRIMES NA RAIA SABUGALENSE SÓ POR VINHO A MAIS,AGUA A MENOS OU MUDANÇA DE MARCOS

Quem analise,ainda que de modo ligeiro, o rol das condenações por homicidio proferidas pelas justiças comarcãs do Sabugal, logo verificará que na base está ou uma SITUAÇAO DE EMBRIAGUEZ,OU UMA QUESTAO DE REGOS DE ÁGUA OU DE ALTERAÇAO DE MARCOS
Este ultimo termo,de raiz germanica,significava originariamente limites. ou extremas.
Com as sucessivas divisões da propriedade o recurso a paredes tornou-se cada vez mais raro.
Não que não houvesse pedra cabonde e mão-de-obra disponivel,
Mas o muro fixo ia comer terra e toda ela era pouca
Além de que pela pouca longevidade dos proprietarios,a rede mural se adensava de forma insuportavel.
Daí o recurso a marcos.de simbologia falica.
Uma pedra ao alto era o membro viril.E para lhe dar maior estabilidade e sustentabilidade de cada lado uma pedra á guisa de testiculos-as testemunhas.
Mas tudo isto a pequena fundura,o que lhes facilitava a dança.
Eu,que nos meus tempos de sirga muitas vezes gazeteava a missa dominical ,até porque sem razão embirrava com o celebranbte, muitas vezes vi um falsario a mudar marcos, roubando uns centimetros.
Mas tantas fez que uma manhá, estaria o santo sacrificio na hora de santos ,o lesado que se alapara a uma esquina o topou na marosca e com uma sacholada o despachou para o longinquo além onde haverá, segundo a Biblia e o Corao,terra que farte.
Outras vezes,a ocasião surge nas regas,quando se encontra um agiota que paga com a vida a traficancia de desenregueirar a agua.
Mas o forte,por vezes com duas ou três mortes, so as bebedeiras de fim de festa, com os rapazes de duas freguesias a dar que dar...
Assim já sucedeu no SAO MARCOS, DO CARVALHAL. entre BISMULA e Badamalos, ou no TERREIRO DA SACRAPARTE, entre ALFAIATES e ALDEIA DA PONTE.
Mais trágica foi nesta última freguesia.a luta dos solteiros com a guarnição local da GNR,o que motivou até muitas trovas de cordel
Existe na Aldeia da Ponte um talho de carne humana e o grande carniceiro é a guarda republicana
Raras vezes ,porém, a cacetada redundava em morte.
Os rapazes da Raia tinham a testa dura.
E UMA FRICÇAO COM AGUARDENTE OU MESMO VINAGRE. SARAVA O GOLPE,
Por vezes, o agressor, ante a ameaça de participação á autoridade, pagava uma compensaçao, criando uma casta de agredidos, que,valentes ,controlavam o grau da ofensa, a que punham fim, quando houvesse uns arranhões que permitissem ir junto dos pais do agressor negociar a desistencia da queixa
A coisa tornou-se patética e também motivou romances de cego---


De O Ilustrado a 17 de Agosto de 2011 às 21:30
É sempre um grande prazer poder ler o Dr. Leal Freire tantonpelo que diz como da forma como o diz.
Há-de fazer falta na sua função de grande causídico daqui a uns anos jà não pelo desvio mínimo de marcos ou por direitos do uso de águas. Daqui a uns anos os herdeiros hão-de desconhecer por completo a localização de marcos delimitadores escondidos por moitas e silveirais ou de cruzes marcadas na Rocha e que a erosão e o crescimento de musgos ocultarão. Haverá o recurso ao uso capião de criadores de gado que vão pastando terrenos que não sáo seus, que abusivamente deitam muros abaixo ligando propriedades, cercando propriedades com arame farpado e até vedadndo caminhos como se tudo dali em diante fosse deles.


Comentar post

.Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente

.pesquisar

 

.Julho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
29

30
31


.posts recentes

. Contradições - O Riba-Côa...

. Ano 2051 - Senhora do Cas...

. Porque andas tu mal comig...

. Sinalização

. Um sítio para pousar a ca...

. Orca, a terra do senhor F...

. Ó sino da minha aldeia

. Que se passa?

. Demografia - Nonagenários...

. Vida de cão!

.arquivos

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

.links

.participar

. participe, leia, divulgue, opine

.

blogs SAPO

.subscrever feeds