Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

O VINAGRE - Dr Leal Freire

Começaremos por uma quadra do poeta Aleixo:

Vinho que vai pra vinagre

Não volta atrás ao caminho

Só por obra de milagre

Pode voltar a ser vinho

 

Mas do bom vinho é que sai o bom vinagre

E este ditado tem tanta mais força quando é certo que corre mundo, em adágios no mínimo paralelos

Passamos a transcrever do livro O Folclore do Vinho, do estudioso brasileiro Whitaker Penteado, a demonstração desta universalidade. A versão brasileira, idêntica à portuguesa, é, no entanto, diferente de um provérbio praticamente universal, embora muito semelhante. A sabedoria popular noutros países, repete a ideia de que «o vinho mais doce produz o vinagre mais azedo», o que corresponde ao dito popular “as aparências enganam

Na Itália, diz-se «forte  é l’aceto di vino Dulce»

Na França a expressão equivale-se-lhe  «c’est du bon vin  que se fait le plus fort vinaigre»

Na Inglaterra correm duas máximas muito antigas «sweetest wine makes  sharpest vinegar  ou  take  heed  of   vinegar  of sweet wine»

A contradição doce-azedo ou melhor a transformação ao caso imanente levou já a que para as mesas mais exigentes dos mais refinados gastrónomos se passasse a fazer vinagre a partir da oxidação de portos de grande qualidade, até dos chamados VINTAGE que atingem no mercado preços proibitivos.

Aqui, na Raia Sabulgalense, poucos lavradores faziam propositadamente vinagre, pois o vinho, por sua fraca qualidade ou deficiências de fabrico ou acondicionamento, avinagrava de per si, com grande raiva, às vezes, do colheitero.

Alguns iam-se habituando à deterioração, bebendo-o já aldeído ascético como vinho de três estalos, o que podia acontecer até pela progressiva adequação do paladar.

Eu tive um tio, homem até de posses muito acima do comum, cujo lagar dava para a cozinha. Possivelmente por este mau contacto, o vinho já saía dali com picos de vinagre. E, todavia, ele só gostava daquele.

- Só gosto do meu, dizia ufanamente.

Já meu pai, extremamente cuidadoso com a sua aliás pequeníssima produção, tinha uma barrica só para o vinagre, numa loja  o mais distante que a casa  permitia da  adega, onde   uma poderosa flora microbiana  tornava em fortíssimo vinagre até o mau vinho que lá caía. Por isso, a vizinhança disputava aquele vinagre para as suas conservas de inverno. Com sinas diferentes, os dois produtos não deixam de ser irmãos.

Diz o vinagre

O meu irmão vai á missa

Eu á missa não vou não

Não é que tenha preguiça

Mas falta de vocação

 

O Rifoneiro  Francês do Vinho

 

Dado o grande exodo que das nossas terras desviou para França a quase totalidade da nossa população activa  e atendendo a que hoje se pode falar já de emigrantes de quarta geração, muitos dos  leitores do blogue VILAR MAIOR  dominam perfeditamente o Francês.

Trazemos aqui com a devida vénia do doutor Júlio Marques uma série, aliás longa, de provérbios franceses, ao tema atinentes, dispensando-nos de os verter para português:

A bon vin, point d’enseigne

Ami, or et vin vieux, sont bons en toux lieux

Beauté sans bonté, est comme vin eventé

 

De bonne  plant, plante la  vigne, de  bonne mère prends la fille

L’âne de la  montagne  porte le vin et boit de l’eau

Le bon vin réjouit le coeur de l’homme

Le boire entre, la raison sort

Le lait avec le vin  se tourne em venin

Les tonneaux vides sont toujours   ceux qui font le plus de bruit

Le vin est  le lait des  vieillards

Vin délicat, friant et bon, n’a  mestier lierre ni brandon

Vin sur lait, c’est souhait, lait sur vin c’est venin

Sans pain, sans vin, l’amour n’est rien

Saint  Vincent, claire et bon, met du vin au tonneau

S’il pleut a la Saint Barnabé, les vignes  baignent   dans l’eau  jusqu’au  tonneau

Si Saint Laurent  manqué  d’ardeur, le petit vin de l’année sera  froid

Pays de vin, pays divin

Saint  Martin boit le bon vin,  e laisse l’eau courre au  Moulin….

 

Como perceberá qualquer simples iniciado na Língua Francesa, estes provérbios não diferem grande coisa dos nossos

E em tradução literal quase se podem dizer coincidentes. Não encontramos qualquer referência a santa Bebiana ou santa Bebelhana, padroeira em Portugal das mulheres que refocilam no garrafão. Aliás o nome é uma incentivação à bebida:

BEBE-LHE ANA

Ana, porque nome da mãe de Nossa Senhora, é muito frequente na nossa antroponímia feminina. Com os derivados resultantes da má interpretaçao de ordens registrais.

-Então, que nome quer para a menina?

-Ponha-lhe ANA.

A primeira parte  da opçao  por vezes é mal interpretada.

A madrinha não usou o verbo pôr mas outros igualmente determinativos - botar, plantar, prantar  e daí as Botelhanas ou prantelhanas...

Se bem que a bota é mais própria, nestas coisas de bebida, do linguajar castelhano A la bota, darle el beso, despues del queso...

 

Vinagre - um produto multifuncional

 

Liminarmente, trataremos de fazer o contraste VINHO-VINAGRE

 

Somos iguais na nascença

Diferentes no parecer

Meu irmão não vai á missa

Eu não a posso perder

Entre bailes e festanças

Lá me encontrarão

A preparar cozinhados

Isso é lá com meu irmão.

 

Nós somos dois irmãozinhos

Ambos duma mãe nascidos

Ambos iguais nos vestidos

Porém não na condição

Para gostos e temperos

A mim me procurarão

Para mesas e banquetes

 

Falem lá com meu irmão

Que a uns faz perder o tino

A outros a estimação

 

Fazendo perder o juízo arrasta a bebedeira o senso crítico, gizando travalinguas como este

Uma vez era um era-não-era

Andava lavrando na serra

Com um boi calhandro

E outro outrotanto.

Veio-lhe a novidade

De que seu pai sem idade

Pois ainda não nascera

Morrera.

Pegou nos bois às costas

E o arado a pastar

Foi por ali abaixo

Achou um ninho de cartaxo

Ao cimo do outeiro

Estava um castanheiro

Carregado de avelãs

E ameixas temporãs

E nozes barrigudas

Foi às amoras

E encheu a barriga de uvas

A estas horas

Veio lá o dono dos marmelos

Com cara de trinta pelos

Ó ladrão que estás a comer os figos

Que o meu pai comeu com os amigos ....

O vinagre esse não perturba a mente, uma vez que o alcóol deu lugar ao ácido acético, de efeito umas vezes corrosivo, outras conservante.

O espírito, é-lhe, portanto indemne. E, mesmo sobre a nossa parte corporal o efeito deletério é pouco. No estômago espevita os sucos, coisa a bem dizer desnecessária, pois o agricultor fora, raríssimamente, sofre de falta de apetite. A merenda é que muitas vezes tarda.

A alta cozinha, por aqui, não se pratica. De modo que, directamente, o seu uso se restringe ao tempero das saladas. Sempre teve e continua a ter grande utilização é como conservante. Como o sal, o fumo e o pimentão para as carnes e enchidos ou o sol para as vagens secas e algumas ervas, o vinagre era o responsável pela conservaçao das hortofruticolas, à cabeça das quais os pimentos-doces e picantes. Havia e há ainda também quem conserve tomates verdes, pepinos, repolho e até vagens.

Mas o grande consumo de vinagre, que nem sequer tem de ser muito acidulado, é com os pimentos, particularmente com as ginjas mais carnudas, espécie granadina que pegou muito bem nas veigas do Pereiro e do Cesarão.

publicado por julmar às 19:16
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Manuel Maria a 17 de Novembro de 2011 às 14:01
uns pimentos ou ginjas em vinagre... bom pitéu com um copo de vinho!


Comentar post

.Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente

.pesquisar

 

.Dezembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.posts recentes

. Lendas de Portugal

. Requiescat in Pace, Ana D...

. Requiescat in pace, Maria...

. Armário Judaico no Baraça...

. Citânia de Oppidanea

. Gente da minha terra

. Viagens ao pé da porta - ...

. Eleições à porta

. Requiescat in pace, Álvar...

. Contradições - O Riba-Côa...

.arquivos

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

.links

.participar

. participe, leia, divulgue, opine

.

blogs SAPO

.subscrever feeds