Domingo, 22 de Abril de 2012

Requiescat, António Rasteiro

 

Viúvo, desde a morte da ti Ana Prata  há muitos anos, sem filhos, o ti António Rasteiro, para além de todos os Rasteiros e Pratas tem uma enorme família que são todas as pessoas da Vila. O que o tornava, assim uma pessoa tão especial?

Era o vagar, que é uma palavra bem da nossa terra, o dar tempo ao tempo que é no tempo e com tempo que os laços se criam.

Por isso, parava no meio da rua e falava, falava ... E ouvia.

Se o presente não oferecia tema, ia à memória dos tempos outros e desfiava histórias da vida real, suas e do seu interlocutor.

Era a coragem para enfrentar a adversidade, traduzida num "raio" tirado das entranhas capaz de botar por terra toda a a tibieza. Por isso, de menino criado a mando de outros se tornou dono de si, indo à luta.

Era o optimismo contagioso que se sustentava no sucesso das lutas travadas.

Por isso, cumpriu a palavra do Evangelho, multiplicando os talentos que recebera.

Era a crença no poder transformador do trabalho criador de riqueza.

Por isso, foi pastor, lavrador, emigrante.

Era, ao contrário da inveja que corrói e amargura, a admiração pelo sucesso dos outros.

Por isso, tinha tantos amigos.

Era a aceitação da vida como ela é.

Por isso, uma sabedoria assente na experiência e na reflexão.

Era, talvez esse, carácter chão, essa profundeza telúrica, que transparecia no teu olhar e irmanava todas as coisas, todos os homens.

Por isso, talvez por isso, vestias a opa, pegavas na cruz e ias à frente na procissão ou na lanterna a abrir o caminho ... para a eternidade.

Para já vou sentir a tua ausência. Sentirei a falta não do copo do vinho, mas do convite, mão na chave da porta, infinitamente repetido:

- Ó Júlio, vai um copinho?

- Obrigado, ti António. Fica para logo.

 

A Rua de Cima

Terminava a rua de cima, no seu correr de casas do lado esquerdo com a casa do ti

António Rasteiro, casado com a tia Ana Prata. Só os dois, que filhos não tiveram cuidavam de uma junta de vacas e de uma grande piara de gado até seguir, como quase todos o caminho de França. Depois enviuvou. Para além das terras que tinha comprou a horta da ti Esperança (bela propriedade!) que continua a cultivar com os noventa anos a baterem à porta, a solidão a pesar ... e recordações contadas vezes sem conta como se fosse sempre a primeira vez: 'ah, Júlio se me agarro no tempo de sê pai! Aquilo é que era um homem!' Depois, irrompia pelo Manel que guardava o gado, pela lavra das terras, pelo agadanhar do feno, pelas malhas como se tudo isso fosse uma epopeia que urgisse salvar. Depois havia de recuar até ao tempo da tropa em Lisboa e das boas graças em que caíra  nos seus superiores que lhe permitia interceder a favor dos seus conterrâneos, tropas também do ramo da cavalaria.

In, blog Vilarmaior1

publicado por julmar às 22:28
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10 comentários:
De Manuel Maria a 23 de Abril de 2012 às 08:59
«O Valor das coisas não está no
Tempo que elas duram, mas na
Intensidades com que acontecem.

Por isso existem momentos
Inesquecíveis, coisas
Inexplicáveis, e pessoas
Incomparáveis».

Fernando Pessoa


De Manuel Maria a 23 de Abril de 2012 às 09:00
«O Valor das coisas não está no
Tempo que elas duram, mas na
Intensidade com que acontecem.

Por isso existem momentos
Inesquecíveis, coisas
Inexplicáveis, e pessoas
Incomparáveis».

Fernando Pessoa


De egitania a 23 de Abril de 2012 às 22:37
Era uma das pessoas mais faladoras em Vilar Maior, convivia com todos e aqui de longe, fico comovida com o seu desaparecimento e dou os pêsames aos familiares e amigos. Mais uma grande pessoa de Vilar Maior que nos deixa.

Isabel


De Olívia Dias a 23 de Abril de 2012 às 23:06
Homem de belo sorriso e boas palavras. Amigo do amigo. Sentidos pêsames aos moradores de Vilar Maior, porque perderam um amigo. Paz à sua alma.


De António Cuinha a 25 de Abril de 2012 às 10:51
Aqui temos uma bela homenagem ao "ti António" Rasteiro. Quem não gostava de ouvir o ti António Rasteiro? Desde pequenino que me habituei a ouvir com atenção o ti António Rasteiro dizia.
Um merecido eterno descanso.
Os meus sentidos pesames para toda a familia.
António Cunha


De Anónimo a 25 de Abril de 2012 às 10:53
Leia-se Cunha e não Cuinha.


De Carlos Marques a 25 de Abril de 2012 às 13:24
Paz à sua alma e os meus pêsames aos familiares.


De José Francisco C. Cruz a 26 de Abril de 2012 às 16:30
Amigo do seu Amigo.
Um homem sempre com tempo para dois dedos de conversa.
Descanse em Paz.

Sentidos pêsames aos familiares.

José Cruz


De manuel fonseca a 27 de Abril de 2012 às 23:14
grande homem que foi o ti rasteiro, ajudou muita gente, paz a sua alma e sentidos pesames a familia.


De Susana Marques a 5 de Maio de 2012 às 09:25
O sr António Rasteiro era um homem simpatiquíssimo. Lembro-me, perfeitamente, que sempre que me via cumprimentava-me e perguntava-me pelos pais e família. Com ele, a conversa fluía facilmente.
A primeira lembrança que tenho dele era eu, ainda criança. Ele passava sempre com o seu burro e a carroça pelo café dos meus avós maternos. Ele parava aí e e eu, o meu irmão e os meus primos ( não contando já os miúdos que ele ia "apanhando pelo caminho) ´montávamos na carroça e íamos com ele até o seu destino. Íamos todos contentes. Quando vínhamos, agora a pé, não nos importávamos , pois sabíamos que no dia seguinte, seria igual.


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