Sábado, 26 de Maio de 2012

Burro - a origem do nome - Dr Leal Freire

O burro, mau grado o nome actual que, de resto, tinha originariamente um outro significado, é um animal superiormente inteligente

O jumento, gerico ou junó - esta última designação reflecte o asco popular pelo general de Napoleão que iniciou as chamadas invasões francesas - era conhecido, quando domesticado por asno - do latim  asinus - e no estado selvagem  por onagro

Para os que não saibam, informo que se tratava duma peça de caça muito apreciada.

Numa célebre lenda de Alexandre Herculano que  já foi de leitura obrigatória no ensino  liceal, o enredo  começa à volta  de uma aventura  venatória  do barão a perseguir um belo exemplar da raça, quando se formaram as línguas novilatinas, o animal, por virtude da cor da pelagem, que era avermelhada, passou a chamar-se asinus burrus

Esta ultima palavra – burrus - significava  vermelho.

Nos seminários, os alunos que começavam a estuda o latim eram confrontados com a frase « mater mea mala burra est» que traduzida   dá a  seguinte constatação « minha mãe come as cerejas vermelhas»

Est  pertence  ao verbo  edere - comer

Mala quer dizer cerejas

E  burra vermelhas

Essa pelagem desapareceu, mas o nome mantém-se.

O mesmo fenómeno  linguístico   se dá com o borrego

Que era agnus  burrus, por ser vermelho

Hoje, só esporadicamente  aparece um cordeiro vermelho.

Meu pai tinha rebanhos de meias, ao meio ganho e ao fintão.

Eu vai para meio século que sou criador de ovinos e presidente da maior associação da

Espécie

Pois ainda não vi meia dúzia de borregos vermelhos.

A palavra  burro não tem – efectivamente - nada a ver  com graus de inteligência ou estupidez.

Mas decorre unicamente da semântica que é a evolução das palavras, na escrita e no sentido.

Conta-se que um homem aí da raia, vendo  que o burro carrregado de odres titubeava  ao chegar a um pontão pegou nele  as costas dizendo:

Mais inteligência do que eu terás tu, mas mais força não.

Eu próprio já constatei ser muito menos inteligente que um buro emprestado a meu pai pela tia Carolina, das Batocas.

Passo a explicitar.

Meu pai, ao tempo integrado na Guarnição fiscal daquele povoado  mandou-me  ir ter com ele  à Bismula, onde  preparava uma carga de vinho.

Meti-me à derrota, cavalgando o animalejo  a que eu, já afecto a literaturices, pus o nome de Sultão, lembrando um famoso conto de Trindade  Coelho.

Ali por alturas do Rouxinol, já perto de Aldeia da Ribeira caíu uma terrível carga de água, que, como diria aquilino Ribeiro, parecia que dera soltura ao céu.

O caminho era marginado por uma lapa, a que o burro se queria acostar.

A minha formação lógico-matemática achava a solução errada.

E às boas e más, forcei o animal a mudar de posição.

Encharcamo-nos os dois e o aparelho.

Eu apanhei uma tremenda carga de gripe e uma infecção que deu em furunculose por não ter seguido a sugestão do burro.

publicado por julmar às 14:03
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4 comentários:
De Manuel Maria a 28 de Maio de 2012 às 16:44
Cereja em latim é cerasus; maçã é mala


De Julio marques a 31 de Maio de 2012 às 10:08
Tambêm me parecia. Lapsos, quem os não tem?


De Dr Leal Freire a 23 de Junho de 2012 às 11:01
CONFITEOR
MINHA CULPA, MINHA CULPA, MINHA MEIA CULPA

Agradeço a MANUEL MARIA e a um outro comentador, cujo nome agora não me ocorre, a correção feita ao significado por mim atribuído ao nominativo MALA que efectivamente quer dizer maçã e não cereja
Mas devo acrescentar que o erro não se filia nem em desconhecimento nem em lapso.
Bastaria ser iniciado e não especialista em greco-latinas para saber que mala é maçã.
Mais, será suficiente atentar no termo MALAPIO, da nossa linguagem popular, ou no químico ácido malico..
E, tendo no penúltimo capítulo da CONFRARIA DA CEREJA que ocorreu na feguesia do Ferro, termo da Covilhã, proferido uma oração pomposa e enganadora chamada de SAPIÊNCIA, SOBRE AQUELE FRUTO TAMBÉM VENERADO EM ALCONGOSTA—FUNDÃO...,VINHHÓ-GOUVEIA E ALFANDEGA DA FÉ-TEERA DE JUDEUS—sobre aquele tão saboroso como adiamantado fruto—tive de rever o nome da ilha egeia que lhe deu o nome—CERASEA
Então, indagarão, por que motivo identifiquei cerejas com o LATINO MALA
Foi para usar a versão ensinada aos levitas que aprendiam o ROSA-ROSAE
É que vermelho, vermelho só as cerejas e não as maçãs....
Isto traz-me à ideia outras traduções alinhavadas para frases de antologia
COR CONTRITUM ET HUMILIATUM-DEUS NE DESPICIT
Que o garotote traduziu para A UM COIRO ENCOLHIDO E MOLHADO NEM DEUS O ESTICA
Para não falar das aparentemente obscenas mas intrinsecamente ingénuas
PISCES FODERUNT CONNES – os peixes romperam as redes
Ou
FODERE PUTAS CUM PORRIBUS NOSTRIS – cavar os leirões com as nosas enxadas
Havia ainda traduções patuscas
TRIGINTA MILIA PEDITUM—tropa com que Anibal, o Peno, atravessou os Alpes
O FIDES, SPES, CARITAS—que o mesmo garoto traduziu para o autor..subentendido—fez com os pés estas caretas...
O enunciado de verbos
TANGO, TANGIS, TANGERE, FOX TROTE E VALSA
FERO, FERS, FERRE, TUDO É LATA
CAPIO, CAPIS, CAPILE, GASOSA E PIROLITO
Ou os macarronismos—O CANIS ME, NON LATRES ME QUE SOU DE CASA COMO TE


De Manuel Maria a 25 de Junho de 2012 às 15:38
O "levita" agradeçe a "lição" amigo Leal Freire...
A do "PISCES FODERUNT CONNAS" ( a concordância é mesmo em "AS"... e não em "ES"... se não me equivoco) ... sortia um grande efeito na missa em Latim às quintas feiras. Calhava, invariavelmente a Leitura da epístola ao Teixeira, que já andava mais adiantado na teologia. E a assistência... perante o olhar inquisitorial do Reitor, disfarçava o riso como podia...

JValente ( Manuel Maria)


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