Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013

Pedir para o lobo - Dr Leal Freire

 Há cem anos, os lobos constituíam, aí para as moitas, um bem perigoso perigo. Para os homens e sobretudo para os gados. E de entre estes, sobretudo para as ovelhas, que dormiam nos campos, até para os adubar. E que, tendendo a tresmalhar-se pelo terror que os lobos lhes incutiam, não permitiam defesa, quando o ataque era de alcateia, mesmo se o pastor dava conta do assalto e dispunha de dois bons cães de molosso. Por vezes, a vítima era um ou outro burro que passava a noite desgarrado. Ou cria desamparada de vaca ou égua. Em casa de meus avós, chegou a haver um garrano que exibia uma falha de pele, levada por dentuça de lobos e que só não terá sofrido maiores estragos por a mãe égua e uma mula que pastavam conjuntamente terem corrido a lobeda. No tocante a nós, homens, os ataques seriam mais raros. No entanto, a lenda, deixa-nos relatos vários de sucessos e insucessos de que os protagonistas só saíram vivos, graças aos isqueiros e ferrinhos ou então a rijos pulmões que atroaram os ares com feros gritos de à coa. Quem leu selectas e não se lembre de sustos no Marão de heróis camilianos ou dos terrores do Malhadinhas, de Aquilino, nas serranias da Lapa. Eu tenho o relato dum familiar próximo que se disse perseguido por um lobo desde que atravessou a Ribeira de Arnes, ali entre a vila do Sabugal e a aldeia de Rendo, até fechar a porta da sua residência na Bismula. A montada, uma média mula, estremeceu quando deu pela presença do lobo. Assim advertido e alarmado puxou do seu faz-lume e acendeu um caporal. O lobo pôs-se-lhe no encalço, à distância de coice e meio para não provocar as iras da muar. Assim o seguiu ate Rendinho, entrada de Rendo, tendo então desaparecido. Mas na Rendela, que assinala o fim daquela povoação, voltou a postar-se-lhe à ilharga, o que motivou a cachimbalhada de mais uma vagem dos quentuques. A cena repetiu-se à entrada e saída, tanto da Ruvina, como de Ruivós, povos intermédios. Mas na Bismula, o lobo foi ainda mais atrevido. Só parou à porta da loja, onde o meu tio guardou a égua. E, mesmo assim, marcando as tábuas com uma paturrada. Aliás, ficou ali de sentinela, aguardado a saída do homem para o atacar. Mas este subiu ao primeiro andar pela escada interior. Tudo verdade jurada e autenticada pela marca das patas da alimária. E o meu tio ou o viu claramente visto ou o sonhou, toldado pelo vinho. De qualquer modo, a lenda tambem pode ser real. Por isso, participar na dizimização das alcateias era obrigação da comunidade. E os que abatiam um exemplar tinham direito ao reconhecimento geral. Era pendurar a pele do bicho à porta da Paroquial e esperar pelo óbulo.

publicado por julmar às 17:17
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