Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

Vilar Maio no século XX

(Fotografia do 1º quartel do século XX)

Vilar Maior viu chegar muito tardiamente, em relação ao país urbano, muito dependente do mundo rural, muitas estruturas e infra-estruturas que ditavam o estado civilizacional (vias de comunicação, telefones, água ao domicílio, electricidade, saneamento). Na primeira metade do século XX as formas de produção e as relações sociais eram mais próximas da Idade Média do que da época industrial. Só no último quartel do século há acesso a vias de comunicação alcatroadas, a transportes públicos, a água, luz e telefone domiciliado. No entanto, olhando o século XX, vemos um conjunto de obras impressionantes, sendo que antes de 1974, elas decorreram essencialmente do esforço conjugado dos habitantes da freguesia, sendo mais relevantes as ligadas ao culto religioso. A freguesia tinha no ano de 1900, início do século, 200 fogos e 738 habitantes, população que ainda haveria de crescer até meados do século. No primeiro quartel deu-se a implantação da República que aqui teve as suas sequelas na luta contra a Igreja, na dinamização do ensino elementar; o impacto da Primeira Guerra Mundial em que participaram alguns conterrâneos - lembro-me do ti Ferreira contar as façanhas na linha da frente; a emigração para a América do Sul (Argentina e Brasil) e os que demandavam melhor vida nas colónias. O factor económico mais relevante do segundo quartel foi a exploração mineira - estanho e volfrâmio - mercado dinamizado pelas necessidades dos beligerantes da Segunda Guerra Mundial. Foi intensa a exploração mineira, sobretudo na margem direita do Cesarão, na década de quarenta, estendo-se à década de cinquenta já em acentuado declínio. Foi uma significativa fonte de rendimento acrescentado pelo contrabando noturno. O segundo quartel é caracterizado no seu início por uma exaustão dos recursos naturais e que teve como válvula de escape, a par da juventude que ia para a guerra do Ultramar ( Índia nos finais de cinquenta, logo seguida de todas as outras colónias), a grande diáspora a caminho de França, com que se iniciou, até agora de forma irreversível, o abandono da agricultura, o despovoamento e envelhecimento da população. O período de 1960 a 1974 é um período de separacões, de medo e saudade. A única maneira de chegar a França era a salto. Iam os homens e ficavam as mulheres e os filhos. Os filhos ou iam a salto pra a França ou iam para a Guerra. Os homens amealhavam avidamente francos que mandavam para Portugal. Poupavam com sofreguidão, pois, como diziam a " França não vai durar sempre". Os que na terra precisavam de mão de obra e não a tinham alimentavam essa esperança no fim do 'El- Dourado', e, secretamente, em tom de vingança: " eles vão ver quando a França acabar!" E no medo que a França acabasse começaram a comprar as terras que "os ricos" não tinham quem nelas trabalhasse, ou de terças ou de meias as quisesse trabalhar. Durante estes 15 anos, a vida tornou-se mais leve e doce. As mulheres com os filhos que cá ficaram iam continuando os trabalhos da lavoura e do gado mas trocaram a rega através da nora, pelo ensurdecedor mas eficiente motor, as regadeiras de pedra ou terra pelas mangueiras de plástico, o pesado carro de vacas pela carroça puxada pelo burro, uma ou duas vacas leiteiras em vez da piara do gado. Cultivando menos, cada vez menos, aproveitando os pastos que eram cada vez mais para produzir leite. Leite que foi uma das maiores fontes de rendimento durante a década de setenta e oitenta em que era recolhido uma ou duas vezes por semana pela Martins e Rebelo de Vale de Cambra. O Último quartel do século XX podemos dividi-lo entre o período de 1974, a Revolução de Abril até à adesão de Portugal à CEE em 1 de Janeiro de 1986. É um período de perplexidade, incerteza e esperança. Finalmente, os emigrantes não tinham mais que ir assalto; terminava a guerra do ultramar. Alguns conterrâneos, com o processo conturbado da descolonização, viram conturbadas as suas vidas que tiveram de refazer noutros territórios. A adesão à CEE trouxe a certeza aos emigrantes que a França não acabaria mais; para a Vila trouxe dinheiro, subsídios a troco de coisa nenhuma. A culpa não foi da CEE, mas da ausência de projectos da política portuguesa que nunca teve um plano de desenvolvimento par o interior. Mais uma vez o dinheiro entrado aqui ( tal como o aforro dos emigrantes) entrou nos bancos que o canalizaram para onde o lucro era maior: Lisboa e litoral, tornando o país pequeno num Portugal mais pequeno ainda. E é assim que dos 200 fogos e 738 habitantes do início do século XX, teremos chegado ao final com pouco mais que um décimo desses números.

publicado por julmar às 15:05
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1 comentário:
De Francisco a 21 de Janeiro de 2013 às 23:55
Autor/Produtor: Magro, Maria Virgínia Antão Pêga
Título: Vilar Maior : evolução de um castelo e povoado raiano de Riba-Côa (séc. XI a XV)
Editor: Porto : [Edição do Autor]
Data: 2011
http://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/57070


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