Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013

Os Tosquiadores - Uma Operosa classe profissional - Dr Leal Freire

Até  ao grande  surto das  fibras  têxteis, a  lã   de  ovelha  era  uma  grande  riqueza. Quem  tivesse  meio  cento  de merinas, podia  considerar-se   um  homem   remediado   e  bem  remediado. O rifoneiro  atestava-o: Quem tem ovelhas , abelhas e pedras no rio entra com el-rei ao desafio. Na  vizinha  Espanha, os  grandes  terratenentes   distinguiam-se  pela  numerosidade  dos  seus   rebanhos. Só os grandes  senhores, à  sua conta, tinham, rezam  os  cronicões, quarenta  milhões de  merinas. E  não  eram  apenas  os  Alba e  MEdina  Sidonia, os  Veraguas  e  Romanones, os  Paio e Santillanas  que  criavam  gado  merino, mas   todo  o povo   espanhol. Do  cantabro ao mediterrânico, estabelecera-se um   enorme  emaranhado  de  pastagens, tudo  dirigido  pelo  honrado   Concepto de la Mesta, com  Canadas CAminos  Y   Veredas  Pastoriles, extenso   e  prolixo  mapa  que  a  tudo  tem  resistido . De  modo  que  ainda  agora, todos  os  dias de  Páscoa, as  principais  artérias   de  Madrid   se  engalanam  para  ver passar  os  gados  da  transumância. Do nosso  lado  e  à nossa  dimensão, partilhávamos daquele  entusiasmo. Aqui  na  Raia  Sabugalense   não havia  praticamente   merinas. Mas  abundavam as churras. Ricos, remediados, pobres, quase  todos os  chefes   de  família  tinham  a  sua   peara. E  valia  a pena. Tudo  naquele  gado, fácil de  manter, porque  tosava  sobre  quaisquer  rebentosl, rapando   como  quem barbeia, era aproveitado. A  comecar   pelo estrume. O  chão, assim  fertilizado, dava  o  cem por  um, anunciado   pelos  santos   evangelhos. Vale  mais  rabo   de  ovelha  que  benção   de  bispo, lembra   velho   adágio. E  o  humus  onde  o  cancelame  se  apusera  não  só rendia   mais  como  os   produtos  eram  mais  saborosos. Boa  batata   é  a  dos tres  itas...terra  granita, onde  se semeou. Água  granita  com  que se  regou. Caganita   que  deu outro  vigor  aos  renovos, melhor   textura   e  mais  aprimorado  sabor   aos   tubérculos. Com  o leite  fabricava-se   o  queijo,   diferente   do clássico Serra da Estrela  pela   qualidade   do gado, levando  aí   vantagem  as  mondegueiras,  e  pelo   modo  de  fazer, chamado  à  cabreira, por  menos  exigente. Os borregos  rendiam  bom  dinheiro, indo parar  ao estômago  dos  janotas   das   capitais  de  concelho, distrito  ou mesmo da   Nação. Já   velhas, não parindo  nem  obviamente dando  leite, achanfanadas  eram  o  consolo  de  festas  e  casamentos. E até  mesmo quando perigavam iam parar  ao barranhão  dos  enchidos. Por  vezes,o  tempo  vinha demasiado  áspero. O    ditado  apresentava   queixas. Quando  o Março   dá  ao rabo, não escapa  o gado gordo nem magro, nem  o  pastor mesmo  encapotado. Pois  as  rezes  assim desaparecidas  iam dar   chouriças. Eu  próprio, nos  meus verdes  anos, ajudei   a  comer  muitas  nos serões   do  Escabralhado   e  Carvalalzinho  e  que  não morri  nem me ressenti  do facto  atestam-no os  meus  quase  noventa, ainda   com  alguma  rijura e  bom  apetite… Eram, pois, os  rebanhos  uma  benção. Mas, quanto  a dinheiro  corrente e  transacções   de  ocasião,  nada   era   como  a  lã. Levada  ao pisão, dava  mantarronas  e  surrobeco. Vendida  aos  laneiros, tapava  buracos   em orçamentos  quase   sempre  mais  furados  do  que  capa  de  pedinte. E  aos lavradores   mais  do  que  meões   até  lhe  permitia   custear  os   estudos    dos  morgados   e  pagar  um empréstimo  bancário   contraído  para  adquirir   mais  um lameiro. Daí   a  azáfama  dos  dias  de  tosquia e  o pleno emprego, é certo   que por períodos  curtos, duma  classe   de profissionais, que, por  aqueles  dias, sentem  as  moedas, tilintando-lhe   nos  bolsilhos, deixando-os possuídos  duma  certa ufania. Ao  tempo ,havia   em Vilar   Maior, dois  estabelecimentos   de  tem-tudo – de  panos   de  cheviote, a  quartilhos  de  tinto, passando  por artigos   de  mercearia  e materiais  de   construcão, drogas  e  quinquilharia . Logistas  eram  os senhores  Albino Monteiro Freire, aliás  meu  tio  carnal   e Aníbal Gata, progenitor  de  ilustre  prole. Durante  o ano, os  tosquiadores, à  espera  da  sazão, tratavam-nos  com  reverência Mas   em  plena tosquia desinibiam-se. Batiam  à  porta  da  venda  e  requeriam  atendimento breve. - Ó  Albino, vem cá baixo, se náo vou já ao Gata Antes  do  ciclo, a   terminologia   e  o  tom eram  outros. - Ó  senhor Albino, fie-me aí um garrafão até às tosquias ...

publicado por julmar às 11:04
link do post | comentar | favorito
|

.Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente

.pesquisar

 

.Julho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
29

30
31


.posts recentes

. Contradições - O Riba-Côa...

. Ano 2051 - Senhora do Cas...

. Porque andas tu mal comig...

. Sinalização

. Um sítio para pousar a ca...

. Orca, a terra do senhor F...

. Ó sino da minha aldeia

. Que se passa?

. Demografia - Nonagenários...

. Vida de cão!

.arquivos

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

.links

.participar

. participe, leia, divulgue, opine

.

blogs SAPO

.subscrever feeds