Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2013

As obras no século XX - A ÁGUA II

Já vimos uma das grandes obras no século XX que teve um impato enorme na economia local: a introdução das noras ou rodas. Substituindo a força braçal humana aplicada às picotas ( burras) pela força animal, permitiu aumentar consideravelmente as áreas de regadio pela conquista de pedaços de terra surribando as margens dos rios, estoirando barrocos, construindo cômoros suportados por muros. Terras boas eram aquelas em que se regava a pé, em que água se deslocava pela força natural da gravidade. Era o caso dos açudes donde se regavam as maiores áreas, sobretudo no rio Cesarão na sua margem direita, desde a Cimeira, passando pelos Linhares da Balsa até às veigas das Retortas. Áreas mais pequenas mas de grande produção eram constituídas por hortas, disseminadas um pouco por todo o lado que beneficiavam da água de minas e de presas. Dentro destas destacavam-se as presas do Vale da Lapa alimentadas pelo ribeiro do mesmo nome e a presa de Vale de Castanheiros, célebre pelas sua água quente no Inverno que levava as mulheres a preferirem-na a todas as outras na lavagem da roupa, apesar da distância que era preciso percorrer. Esta ao contrário de outras que eram apenas de um dono, ou em que havia regime de adua no regime de rega, era, no que toca a lavagens, de uso público. Todas as presas, espalhadas um pouco por todo o lado, tinham as suas especificidades. Por exemplo, a dos Galhardos, no sopé do monte do Cabeço da Porca tinha umas das águas mais geladas no Verão. Uma presa como esta de água abundante e uma extensão de terra razoável constituía uma garantia de uma subsistência mais tranquila. E aos que labutavam nos campos nos cálidos dias de Verão, era direito consuetudinário, podiam usufruir destas nascentes para matarem a sede, dando cumprimento à ordem de misericórdia de dar de beber a quem tem sede. E por todo o lado, havia águas de nascente puras, cristalinas, frescas. Hoje não encontrará em todo o termo de Vilar Maior (atrevo-me a dizer em todo o concelho do Sabugal) fonte ou poço onde possa matar a sede com higiene e segurança. Centenas de poços abertos, ao longo do tempo, em sítio onde se vislumbrasse a possibilidade de uma horta, encontram-se abandonados, como abandonada se encontra a natureza à lei da selva. As vacas, animal de grande exigência alimentar(sabem que uma vaca polui tanto como um automóvel?) mas de poucos cuidados por parte dos donos, dominam agora a paisagem rural. Em vez das fontes surgem charcas de água, mais depósitos que nascentes. O arame farpado omnipresente substitui as paredes milenares que, aos poucos, se vão deitando abaixo para facilitar o trânsito dos animais. Os caminhos ficam alguns intransitáveis, outros barrados com portões improvisados de arame farpado e outros, ainda, são pura e simplesmente privatizados. Tudo isto por mor das políticas de Lisboa e de Bruxelas, tudo isto por mor das políticas ditas de desenvolvimento rural ( tem piada desenvolvimento rural) baseadas na atribuição de subsídios: subsídios para arrancar vinhas, subsídios para semear isto e aquilo, subsídios para estar quietos, subsídios para burros, cabras, ovelhas, vacas, para carrasqueiras. Em meio século com subsídios conseguiu-se, não o desenvolvimento rural, mas acabar com o mundo rural. A água, a quantidade e qualidade, é o melhor espelho do estado a que chegámos.

publicado por julmar às 11:25
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2 comentários:
De Fiel ao Sr. "Leal" a 18 de Fevereiro de 2013 às 16:06
Boa. Subsídios Um tema que me agrada. Vejam só que os únicos subsídios que são criticáveis, são aqueles que ainda mantém alguém no interior, e que impedem ainda mais desertificação. Aqueles que são atribuídos por 14 meses de trabalho, quando o trabalho efectivo é de 11 meses, esses sim são legítimos E já não falando dos reformados, RSI's e outros... Esta gente da Vila... Nossa Sra.


De:

Data:
5 de Março de 2013 às 23:15


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