Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2013

Os homens de ofício e os homens de negócio - Dr Leal Freire

Lê-se  num  livro  antigo

Se quisermos buscar  as  raízes mais fundas  do mercador, temos  de  as  procurar   na   própria  oficina, pois   a  primeira tenda  foram  os tabuleiros  desta.

Aliás o  tabuleiro era  uma  das  portas  da  oficina e  foi   o    primeiro   balcão    do  artifice-mercador, isto é  do mesteiral  que  não produzia  para  as  suas  necessidades  de   consumo.

O homem  das  profissões   produzia  e vendia  directamente   ao  público  a  sua   manufactura.

Depois, quando  a  produção    fazia  lote, remédio   não  tinha  o  oficial    senão   pegar  na sua  manufactura, ageitá-la  à carga  da   sua  azémula, aparelhar  esta  e  meter-se  a  caminho.

Tomar   esta  decisão  nos  tempos  medievos, não era  empreendimento  para  todos.

Os   menos  afoitos  ver-se-iam  na  contigência  de  entregar   aos  mais  temerários  a  sua   própria   fabricação.

Destarte  se  iam  firmando  dois  tipos  de   mercadores  incipientes . O mestre   de  oficio  que vendia  ao tabuleiro da  oficina  e o outro, que   mais  resoluto, se  fazia   para  as andanças  de  ruas, mercados  e feiras, enfim  para  fora de  portas, onde  quer  que  adregasse  topar   freguês.

Eram  estes  últimos   os mercadores erradios, descritos   numa carta régia  ainda  em  latim   como   mercatores  qui   de  locum  as  locum   merces  et  necessaria    deferse   consuevernunt - mercadores  que   levam  de  lugar  para  lugar  as  coisas  necessárias  às  vidas  dos  povos

Eis  como  no livro  Os  Mesteres se  nos  apresentam   alguns desses  curiosos  espécimes.

Da   sua   oficina  de  ouriveseiro - ao  Serralho - o apartado  bairro  dos  judeus - ergue-se   no  alvor da  madrugada, Isaac   Marcos, aprestando-se    para  uma  jornada   mercantil.

A estranha   figura  do  filho  de  Israel, com  a  cabeça  sumida   no  albornoz, olhar   de  fuinha, nariz adunco, barbicha de  bode, vai  escarranchado  em  besta   muar, arriada  à  mourisca.

A  sua  carga especiosa - de  pratas  lavradas   e  mimos   de  lapidaria - vai  acomodada   nos recessos   do   albardão, em  cujas   bolsas  igualmente  se   agasalham  os  pistolões, para  sua   defesa  nos  percalços  dos  maus  encontros.

Deixando  o bairro  exôtico   do  Serralho, e, às   arrecuas, a   sinagoga  da  oração, Isaac  Marcos   meteu-se  nos  trilhos   confusos   que   o  levariam  aos  casais, castelos, solares, abadias, mosteiros, onde, por venda  ou  escambo  de  baixelas  avariadas, negociaria  as peças   da  sua  carga.

Depois, no  itinerário das  feiras, por  vilórios  e  lugares, o  judeu  da  mercância  ambulante   continuaria, apegado  ao  seu    pergaminho  de  privilégio onde   o  senhor   Dom  Pedro, regente   do  reino  pelo decesso  de  Dom  Duarte, lhe  outorgava  livre  trânsito.

Rezava assim  o  papel, datado  de  1441.

Que  ande   em  besta muar  de  sela  e  freio, sem  embargo da ordenação  e  use  clavina   ou  bacamarte.....

publicado por julmar às 22:11
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De:

Data:
5 de Março de 2013 às 22:55


Comentar post

.Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Requiescat in pace, Maria...

. Armário Judaico no Baraça...

. Citânia de Oppidanea

. Gente da minha terra

. Viagens ao pé da porta - ...

. Eleições à porta

. Requiescat in pace, Álvar...

. Contradições - O Riba-Côa...

. Ano 2051 - Senhora do Cas...

. Porque andas tu mal comig...

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

.links

.participar

. participe, leia, divulgue, opine

.

blogs SAPO

.subscrever feeds