Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013

As obras do século XX - A água III

Poço da Ponte


É um regalo na vida

À beira da água morar

Quem tem sede vai beber

Quem tem calma vai nadar


Assim foi enquanto a água era uma graça da natureza. Já vimos que o assentamento dos humanos tinha em conta esse recurso vital cuja aproveitamento implicava toda uma engenharia hidráulica assente na necessidade, na experiência e no saber acumulado ao longo de gerações. A água, mais que um recurso natural de sustentação da vida dos corpos, é um elemento fundamental em todas as liturgias religiosas: sem água não há purificação e as almas impuras não têm salvação. Na Terra, muitas questões tribunalícias tinham como objeto dirimir direitos de acesso à água e, quantas vezes, prescindindo do direito, uma sacholada punha termo ao oponente. Ao contrário do sol que, como soi dizer-se, quando nasce é para todos, a água quando nasce é mais para uns do que para outros. Com efeito, o que torna uma propriedade melhor que outra é a existência de uma nascente e essas eram dos ricos. Na maior parte dos casos, a casa residencial, quase sempre com algum terreno, tinha um poço de abastecimento (seja a casa dos Pessanhas, dos Rebochos, dos Gatas, dos Araújos, entre outras). Depois havia os poços públicos, um situado junto frente ao Pio, na Praça, e que está tapado desde que foi feito o Chafariz; outro ao cimo da Quelha que passou a designar-se Rua José Diamantino dos Santos quando foi calcetada e que deu sumiço ao referido poço - o poço do Açougue. Restam o poço do Largo do Senhor dos Aflitos e o poço da Ponte, este com mais características de fonte de mergulho. A água destes poços não era aconselhável para beber. Ter água em casa para fazer as viandas dos animais, a preparação dos alimentos, para lavar a loiça (ainda que pouca), para as pessoas se lavarem, e, sobretudo, para beber, ainda que essencial, não era fácil. A Fonte Velha ( os entendidos que disputem se é romana ou românica), além de ficar longe do povoado terá deixado de ser suficiente, pelo que um pouco mais acima e mais próximo, na idade moderna, fundaram e construíram a Fonte Nova. No mesmo andamento, cerca de duzentos metros mais próxima, encontrava-se a Mina mas conta-se que era preciso apanhar a água com um copo, ás vezes, esperando até o poder encher. Haveria também uma fonte na margem direita do Cesarão, frente ao Poço da Andorinha! A fonte da Talisca. Haveria uma outra fonte situada pelo largo do Pelourinho. No primeiro quartel do século XX, rondando o número de habitantes entre a 700 e oitocentos o abastecimento de água era uma fonte de problemas. Se no Inverno todos os poços e fontes referidos a tinham em abundância, a situação no Verão era aflitiva para o renovo que não se criava, para os animais e para as pessoas que tinham de cuidar de si cuidando daqueles. Levantar-se bem cedo era uma certeza de encontrar a fonte cheia e limpa, mas quando todos pensam o mesmo ... Por vezes, levava-se a vasilha ( o cântaro de barro, a lata ou o regador, o balde da rega) que era mais um peso a acrescentar a outros que do campo se traziam. Por vezes, os proprietários das melhores fontes ou poços ficavam tão aborrecidos com o excesso de gente que ia buscar água para beber que lhe deitavam estrume para a tornar imprópria. Ter água em casa era uma incumbência das mulheres, sobretudo das solteiras, para quem poderia ter os seus encantos, pois desde a poesia trovadoresca que a ida à fonte é um tema inspirativo para os poetas, na probabilidade ou certeza de encontrar o amado, fora da alçada parental. Era também um tema renascentista que não escapou à pena de Camões:

LIANOR

 Descalça vai para a fonte

Lianor pela verdura;

Vai formosa e não segura.  

Leva na cabeça o pote,

O testo nas mãos de prata,

Cinta de fina escarlata.

Sainho de chamalote; Traz a vasquinha de cote.

Mais branca que a neve pura;

Vai formosa e não segura.  

Descobre a touca a garganta,

Cabelos de ouro o trançado,

Fita de cõr de encarnado,

Tão linda que o mundo espanta;

Chove nela graça tanta

Que dá graça a formesura;

Vai formosa e não segura.


A problemática procura de água não deixava de ter os seus encantos, bem diferente dos encantos de hoje

publicado por julmar às 11:43
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2 comentários:
De 3vairado a 2 de Março de 2013 às 14:48
gostei deste copo de água. obrigado


De:

Data:
5 de Março de 2013 às 22:53


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