Sexta-feira, 12 de Abril de 2013

As grandes obras do século XX - A Água VIII - O Chafariz

Inauguração do Chafariz - 1952

Vimos anteriormente que a água explorada no sentido do Buraco e que vinha ao Pelourinho para pessoas e animais era insuficiente. Vimos a epopeia de conduzir a água da Atalaia (a que se juntou a do Poceirão, esta ao que dizem insonsa) e que durante alguns anos na década de quarenta ficou assim a correr abertamente no sítio do chorreão até se fazer o depósito no Cimo da Vila em propriedade de Júlio Palos.

Vimos como se tornava inquestionável a situação de um Chafariz no sítio da Praça. A obra estava cara pelo trabalho oferecido por todos. O governo havia disponibilizado uma verba de quarenta e tal contos usada na compra das tubagens de lusalite para condução da água. Não sabemos quem planeou o chafariz tal como o conhecemos  … talvez o senhor Tenente, talvez o padre José Baptista, talvez de uma conversa ao calhas com qualquer um. Talvez numa noite de insónia. Terá sido autor o que ao olhar para o castelo o viu em proporções muito menores jorrando água abundante. Podemos imaginar a euforia, um eureka gritado para os rochedos da Fraga que lho devolveram repetidamente. E a ideia foi falada nas ruas e nos caminhos, ponderada no sobe e desce das enxadas, adornada nos copos vertidos na taberna, apregoada nos lavadoiros da Presa de Vale Castanheiros.

Que ficaria no centro da Vila, não havia dúvidas. Mas quando se perguntaram onde era exatamente o centro, repararam ou não o saber ou quando julgavam sabê-lo, cada um o sabia num sítio diferente. Muitos se inclinavam para o Pelourinho, outros para o Largo das Portas; outros, a maior parte, que o centro era o centro da Praça, ali frente ao Cimento, perto da Taberna que a água não faz concorrência ao vinho. Acharam os mais perspícuos e ilustres da terra que acanhava o largo e colocados na elevação Cimento achou um deles que ao fundo ficaria bem se não acanhasse a rua. E que se pusessem o fundo mais para o fundo estaria resolvido. Ora, o fundo do fundo era o quintal do João Marques e não havia remédio senão falar com ele, que era bom homem, que haveria de entender como eles entenderam que ali deveria ficar, que até lhe faziam um muro novo caiado, que ficaria mais do que ninguém com a água à porta, que até lhe davam um terreno da Junta noutro lado, que isto de prometer não custa nada. E se não aceitasse que o povo nunca iria entender e ele não gostaria que o povo não entendesse. E ficou assente que ali seria erigido o chafariz, um castelo com muralhas em volta em cujas ameias pousariam os cântaros de barro.

O senhor Esperança, filho da terra, recebedor de rendas, residente em Lisboa, mais rico que os ricos da terra que mais dá o comércio que a agricultura, não quis ficar de fora desta epopeia e decidiu custear o preço do chafariz. Vieram mestres pedreiros de fora, exímios na arte da cantaria e, de blocos toscos, duros e informes, talharam todas as peças necessárias, incluindo quatro pilares encimados por pirâmides quadrangulares. Mandou o sr. Esperança que cada uma das quatro faces fosse revestida com pedra mármore, chegada a destempo da inauguração, e, mandou gravar numa  lápide, de mármore, para  memória futura do gesto da sua generosidade presente:

OFERTA

DE

MANUEL NEVES ESPERANÇA

Em 1952 estava concluído. O grande líder da obra, o padre José Baptista, tinha sido substituído no cuidar das almas pelo padre Manuel Narciso, o senhor Tenente Palos era o Presidente da Junta, feliz por isso, feliz pela reforma que começara a gozar, feliz pela obra que ia inaugurar, feliz pela felicidade de D. Olívia, sua esposa a cargo de quem ficou toda a parte social da inauguração desde a confeção dos alimentos, à preparação das mesas, etc. E foi na sequência de toda essa felicidade que, após o discurso de inauguração do senhor Tenente e do senhor Esperança, após abertura das duas torneiras jorrando água em abundância, um afrontamento fatal vitimou Olívia de Oliveira Simões Palos, filha de Bernardo Simões e Patrocínia Oliveira, com 41 anos de idade. À água das torneiras juntaram-se as lágrimas de todos.

publicado por julmar às 19:35
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1 comentário:
De Anónima a 14 de Abril de 2013 às 15:39
Belo texto descritivo a que o autor do blog nos habituou. Assim a memória dum povo não se esquece. Nesse ano tinha a minha acabado de dar a luz uma menina ( eu). Parabens ao Dr. Júlio , que não nos deixa esquecer as nossas raízes.


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