Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

As Grandes obras do século XX – A Água VIII

Vimos em crónicas anteriores que, segundo acta da Junta da Paróquia de 1852 se decidiu sobre a exploração e o encanamento de água vinda do Buraco para o sítio do Pelourinho, onde se haveria de construir um chafariz. Afinal, a água não era assim tanta, e por mor disso e da falta de dinheiro, o chafariz ficou em águas de bacalhau. Coincidência de datas, o chafariz haveria de surgir, cem anos volvidos, em 1952 e julgou-se que seria obra, não para a eternidade, mas para muitos anos.

Os problemas no princípio começaram não pela falta de água, mas talvez pelo excesso, e pela deficiência de fundamentos científicos de hidráulica conjugados com a falta de conhecimento sobre questões gravíticas e fluxos e refluxos de ar comprimido em canos. Também poderia tratar-se de deficiência dos materiais vendidos pela casa Conde § Gião que à época vendia os tubos de lusalite. Certo é que, volta e meia, os canos rebentavam com óbvios transtornos à população que bem e depressa se habituara ao manancial aquífero e o adir de despesas concernentes à respetivas reparações. 

A partir de 1960, não por míngua de água, mas pelo excesso de gentes e gados, a exploração da terra cansada e exausta respondia com produções cada vez mais baixas. Escassez de trabalho para os jornaleiros e de jeiras para os lavradores. A exploração do minério chegara ao fim pondo termo ao contrabando do mesmo. Os forneiros já não tinham onde ir buscar giestas para aquecer os fornos. E se o forno deixa de funcionar lá se vai o provérbio de conforto para quase todas as desgraças: Haja saúde e coza o forno.

Por isso, há que sair. Os rapazes vão para a guerra ou fogem dela. Os homens deixam mulher e filhos, largam gado e terra e, a salto, demandam terras além Pirinéus. A França torna-se a terra prometida onde corre o leite e o mel a que ninguém, quase ninguém resiste.

Ei-los que partem 
novos e velhos
 
buscando a sorte
 
noutras paragens
 
noutras aragens
 
entre outros povos
 
ei-los que partem
 
velhos e novos

Ei-los que partem 
de olhos molhados
 
coração triste
 
e a saca às costas
 
esperança em riste
 
sonhos dourados
 
ei-los que partem
 
de olhos molhados

Virão um dia 
ricos ou não
 
contando histórias
 
de lá de longe
 
onde o suor
 
se fez em pão
 
virão um dia
 
ou não

                                                                                                                               Manuel Freire

O poeta sabia como era, não como seria. Hoje sabemos:

Nem ricos, nem pobres. Muito suor. E todos com histórias para contar.

O abandono da terra foi progressivo e quase total. A paisagem, que é o rosto da natureza, sem o cuidado do homem, seguiu a lei da selva onde na luta pela vida sobrevive o mais forte. E o mais forte nem sempre, diria quase nunca, é o melhor. Quando se perde a cultura, mesmo que seja a cultura dos campos (agricultura), é a humanidade que se perde.

Pois, mas que tem a ver isto com a água? Aprendi com o meu pai que era preciso ordenhar as vacas duas vezes ao dia, que, no tempo das regas, era preciso tirar, regularmente, a água do poço - deitar o poço, como dizia. As vacas dariam menos leite e acabariam por secar. O mesmo para o poço. Ora, aos poucos as terras ficaram incultas e presas e poços por deitar, levou bracejos, juncos e silvas a tomarem conta deles.

O Planalto das rasas das Moitas era o celeiro que fazia chegar o pão à mesa e era a floresta fonte de energia que, em forma de lenha, chegava à pedra de cada lar, à lareira em torno da qual se alimentava o corpo e a alma. Era aqui o altar da cada família onde se repartia o pão e o vinho.

As Moitas deixaram de ser decruadas, deixaram de ser estravessadas, deixaram de ser semeadas, tudo formas de lavrar o solo, de amaciar o rosto da natureza que se hidratava com as águas das chuvas e com os nevões invernais. O rosto endureceu de tal forma que as águas corriam apressadas para os ribeiros que à ribeira iam dar.

Por isso, a água que chegava ao chafariz foi diminuindo, diminuindo sempre até, no pino do Verão, não correr gota de água.

A natureza não se vinga, apenas segue as suas leis.

Porque o homem não respeitou a natureza ela negou-lhe o que sempre graciosamente lhe dera: a água.

E o impensável em 1960 aconteceu duas ou três décadas depois: as pessoas compravam garrafas e garrafões de água.

O Chafariz andou em bolandas daqui para ali sem saberem o que lhe fazer. O povo deixou de ter voz ou a voz que tem não se faz ouvir.

E lá acabaram por encontrar um lugar. Como se trata de gente que não conhece a história adulteraram um lugar que tinha a sua história. Ali era a   

eira do Buraco. Para quem lá colocou o chafariz era apenas uma lage. E não conseguindo, sol na eira e chuva no nabal, acrescentaram ao sol na eira, água na eira.

publicado por julmar às 11:04
link do post | comentar | favorito
|

.Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Requiescat in pace, Maria...

. Armário Judaico no Baraça...

. Citânia de Oppidanea

. Gente da minha terra

. Viagens ao pé da porta - ...

. Eleições à porta

. Requiescat in pace, Álvar...

. Contradições - O Riba-Côa...

. Ano 2051 - Senhora do Cas...

. Porque andas tu mal comig...

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

.links

.participar

. participe, leia, divulgue, opine

.

blogs SAPO

.subscrever feeds