Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

O CERIMONIAL - Dr Leal Freire

Na  data  aprazada, o  neófito, com  pleno assentimento  do  pai, que  no  seu  tempo   também   andou nas  ruas, ou  seja   foi  membro  da   Confraria, enche  na   adega   da  casa, dois  cântaros  de  vinho   da  melhor  lavra   do  ano.

Para a hipótese  rara  de  os  pais  não produzirem  vinho, aconselha-se-lhe   que  procure   lavrador  que  lho ceda, relegando-se  para   último  lugar  o  recurso   ao vendeiro  que da  má fama  não  se  livra -  matruca  o  produto.

Assim   rezam  as  trovas

É um  perfeito  cristão

Em tudo  tam perfeitinho

Que  vejam   que  o maganão

Até  batiza  o  seu  vinho...

Municiado de  bebida, vai  à venda  e  compra  cigarros que dêem, no mínimo, para  uma  dupla rodada.

Com estas credenciais, aparece à noite, depois  da   reza  das  almas, no lugar  do  estilo - a  praça  mais  ampla  do povoado, onde  crepita  já  uma  enorme  fogueira, ou  cabanal  para  tanto  prezado, se  há   nuvens  pressagiando  ou  confirmando  chuva

Então, os  dois  membros   mais novos da  confraria, os  últimos  que  pagaram  a  patente, pegam  num  dos   cântaros, cada   qual  por  sua asa, enquanto um  terceiro, que  é  o  antepenúltimo  confrade, empunhando  um  canadão, vai  distribuindo  vinho, primeiro  pelo maioral, depois  pelos  imediatos   e assim  sucessivamente  até  completar   todos  os  presentes, em  regra  o  plenário  dos  moços, pois   só  por  causa  grada, algum  faltará...

Por  seu  turno, o  neófito   faz  a  distribuição   dos paivantes  que  uns  fumarão, outros  guardarão.

Esvaziado  o  primeiro  cântaro, o maioral  ou um  dos seus  validos  faz ao novo  associado   uma  arenga, em  que  fala  dos  deveres   impostos  pela  sua  nova   condição - obediência  aos   mais  antigos, bico   calado   sobre  o  que se  passa  na  rua, coragem   e  cortesia   para   com  os  confrades   das  terras  vizinhas.

Obrigação de  segundo  as  suas  posses   contribuir  para  as despesas  gerais   e  de segundo  as  suas  possibilidades prestar  serviços  regulares   e  períodicos, como  vigiar   as  ruas   e  os  campos, reprimindo  abusos,,,

Na  primeira  cerimónia  de  iniciação   que  a  seguir   tiver  lugar, será  ele  um  dos  dois  a  pegar no  cântaro...

Para  as  fogueiras acesas  para  combater  o  frio  ou  assar  qualquer  peça  teré  ele  de  carrear  a  lenha, obter  acendalhas  e   regular  o  fluxo…

Nos  bailaricos  que  se  armam  nos  terreiros  e  serões  só irá  buscar  rapariga   depois  de  servidos  os  confrades   mais  velhos.

As  obrigações  são  um  pouco pesadas, mas  têm  uma   contrapartida   que  vale  bem  o  sacrifício.

E, sobretudo, há  a  satisfação  de  ter  entrado  num   mundo  tantas  vezes  sonhado

Por  isso, quando, já  alta  noite, e  um  pouco  perturbado  pelos  vapores   do vinho,  regressa   a  casa, o nosso  herói  tem  a  sensação   nítida  de  ter  entrado  num  novo  estádio   da  sua  vida.

publicado por julmar às 21:20
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Manuel Maria a 10 de Maio de 2013 às 09:01
Èra uma tradição generalizada a outras regiões do país e até em espanha. Existiu também noutras civilizações:
Em Esparta
Os jovens aos doze anos eram abandonados em penhascos sozinhos, nus e sem comida e viviam em grupos. Aos 18 anos, voltavam a Esparta, e até os 30 anos de idade eram considerados cidadãos de segunda classe, sem direito a voto, por exemplo. Podiam ser agredidos por qualquer esparciata acima de 30 anos, ficavam nus e recebiam pouca comida.
Os jovens poderiam atacar a qualquer momento servos (hilotas), a fim de lutar e se preparar para a guerra, mas, se fossem mortos por ele, o servo receberia dois dias de folga (por conseguir matar alguém que não era bom o bastante para o exército espartano). Existia uma temporada de caça aos hilotas, para treinarem os jovens para a guerra, uma espécie de moderna "caça aos Gambozinhos".
Mas a raí próxima destas confrarias está na IUVENTUS LUSITANA.
A iuventus,era uma organização paramilitar que preparava os jovens para a guerra, era uma adaptação urbana das fraternidades guerreiras da idade do bronze. A iuventus lusitana era formada por grupos de jovens,23 24 que recebiam treino
militar e viviam nos montes, apartados da restante sociedade, e que provavelmente serviam como militares de reserva na defesa dos castros. Organizações similares encontravam-se entre os celtas, celtiberos e romanos.O massacre da "flos iuventutis" lusitana, por Galba, é que desencadeou um conflito que ficou conhecido como a guerra lusitana.
Isto para concluír: Os costumes, se existem, têem alguma razão de ser, e não nasceram do acaso!



Comentar post

.Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente

.pesquisar

 

.Julho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. Ano 2051 - Senhora do Cas...

. Porque andas tu mal comig...

. Sinalização

. Um sítio para pousar a ca...

. Orca, a terra do senhor F...

. Ó sino da minha aldeia

. Que se passa?

. Demografia - Nonagenários...

. Vida de cão!

. Requiescat in pace, Adria...

.arquivos

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

.links

.participar

. participe, leia, divulgue, opine

.

blogs SAPO

.subscrever feeds