Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

Noite de Natal - João Martins

Natal! Noite de Natal!...

Noite sagrada!...

Festa das filhoses,

Dos sonhos,

Das fatias douradas!...

O Toco levantado no meio da praça...

Frio de rachar...

Os pingos congelados

Nos beirais

E a gente arrepiada

Só de ir à rua.

A missa do galo à noite...

A Igreja, Abarrotada de gente,

Cheirando a flores, a velas

No presépio, a Gruta, a Estrela,

O Menino, a Mãe, S. José,

O burro, a vaquinha, os magos

E o Padre Chico na sua casula branca a cantar:

«Glória no Céu, paz na terra,

Para a gente de boa vontade..»

À saída

A gente vinha a cantar,

A rir… abraçando-se,

Ateava-se o toco…

Labaredas incendiando os muros...

Gritos,

Bombas de foguetes,

Confusão,

Faúlhas a subirem no ar,

O garrafão do Zé Santo

De mão em mão,

A concertina do Zé Laranja a tocar

E todos em roda a cantar:

«Entrai pastores entrai, por esses portais adentro…

Vinde adorar o menino, que está em palhas deitado…»

Depois,

Cada um tomava o caminho de casa,

Espevitávamos a lareira,

Grandes troncos ardendo,

O fumeiro, por cima, a secar,

As meias das crianças penduradas na chaminé,

A família sentada, em redor da mesa,

Naquela moleza de barriga farta,

O bacalhau, as couves, as batatas, regados com o fio de azeite

O vinho novo da pipa, os doces da avó… Aletria! Arroz doce!

E lá fora grupos de rapazes, a cantarem ao desafio:

«Natal Natal… Natal Natal…

Filhós com vinho não fazem mal!...»

A cantiga afastando-se:

O vento a trazendo, O vento a levando…

Sumindo-se com a noite…

De ali a nada… O Carlos grande e o Carlos pequeno

Rabugentos! Cabeceando de sono!

A Fátima com a sua boneca de trapo!

A irem para a cama levados ao colo…

O Avô João sentado na cadeira de palha, ao lume,

Eu nos joelhos dele a ouvir-lhe as histórias

E a avó Maria da Luz limpando os olhos com a ponta do avental

A sacudir aquela aguadilha que teimava em aparecer-lhe…

De tanta felicidade.

O lume morria…

A torcida da candeia esmorecia…

O avô tirava do bolso uma goluseima, levantava-se:

«Em Nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, Ámen…»

E ia-mo-nos deitar…

 

 

publicado por julmar às 18:54
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3 comentários:
De julmar a 8 de Janeiro de 2008 às 21:29
Temos poeta! E que saudade do tempo em que um lenço das mãos, um par de meias, uma laranja eram verdadeiros presentes que nos faziam sonhar.


De Ribacôa a 9 de Janeiro de 2008 às 16:38
Presentes do Menino Jesus, já que o Pai Natal, fosse porque Vilar Maior ainda não constava do mapa, fosse por causa dosdifíceis acessos (mesmo dos aéreos), não se aventurava por aquelas paragens. l


De Ribacôa a 9 de Janeiro de 2008 às 19:42
Mau grado a sua crescente desertificação, julgo que com o precioso contributo deste blog juntamente com a nossa participação cada vez mais empenhada (pena é sermos poucos - mas penso que somos dos bons, podemos contribuir para que o seu nome cada vez mais possa ser conhecido não através de um mapa qualquer, mas do rei de todos os mapas. Refiro-me ao Google Heart, potente motor de busca de todos os lugares da terra. Foi com grande prazer que na última viagem (VIRTUAL) que fiz a Vilar Maior por seu intermédio, ali verifiquei a existência de uma linda fotografia com uma vista aérea da aldeia com o castelo em primeiro plano. Ao que tudo indica, postada por um Vilarmaiorense .


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