Sexta-feira, 25 de Outubro de 2013

Do modo de andar em Portugal e na Vila de Vilar Maior

ANDAR

            O dicionário “Expressões Populares Portuguesas” de Guilherme Augusto Simões contém 376 expressões a começar por andar e a terminar em andar um a mais( quando há mau cheiro causado por ventosidade anal sem ruído), estando longe de esgotar todas as formas. A expressão referida só é quantitativamente ultrapassada pelas expressões começada por estar que conta 404 formas.

A expressão andar é conforme a forma de ser do povo português que sendo um país de tão poucas gentes e de tão escasso espaço se disseminou ao longo dos séculos pelos cinco continentes de onde lhe adveio uma experiência inigualável na dimensão viandante. É um povo de andanças: nunca se sente bem onde está e daí andar de aqui para ali e de além para acolá. Está mal muda-se e depois lastima-se por ter mudado. Este o seu fado que se traduz no indefinível sentimento que dá pelo nome de saudade.

O povo português anda, desigualmente, de todas as maneiras: de cavalo para burro, de cu tremido, com o cu às fugas, às sopas, às cegas, às escuras, às aranhas, a reboque, ao sabor do vento, ao deus dará, à nora, à mama, a dormir na forma, à vela, de burros, de mal a pior, de orelha murcha, de peito feito, de proa levantada, de queixo caído, de cabeça no ar, de rastos, de tanga, em dia, em maré alta, na berra, nas nuvens, no mundo por ver andar os outros, pelas ruas da amargura. 

Desde o andar tradutor das leis gerais de toda a humana natura ao andar que reflecte o caldeamento de povos e culturas que por aqui deixaram rasto: gregos, romanos, bárbaros diversos, judeus, moiros, galegos, franceses, ingleses, castelhanos muitas variações destes todos e de muita outra inominada gente. Algumas dessas expressões dão conta de acontecimentos históricos. Tal é o caso da expressão “andar com o credo na boca”. Corriam difíceis os tempos para os judeus na Península Ibérica. Era um povo culto e instruído dado mais ao comércio do que a actividades extractivas ou transformadoras. Nunca os cristãos lhe perdoaram o terem matado Cristo nem, sobretudo, verem-nos prosperar de forma rápida e fácil.                                          Durante muito tempo não entendia porque quando se queria insultar alguém nesta terra se lhe chamava judeu, e marrano (= judeu). Muitas vezes, da situação que deu origem a uma forma de dizer só esta fica. Aqui, onde pelo século XVI terá havido uma forte comunidade judaica, permaneceram modos de dizer que passaram a ser extensivos a outras etnias e outras situações. São infinitas as formas de andar e inúmeros os sítios por onde ele se faz: carreiro, carreira , carril, veredas e caminhos  (os do senhor, os da perdição, os de cabras ...) as varedas, os atalhos, as calçadas, os becos, as rodeiras.

O andar se faz por vias (viagem, viajante, viandante, via sacra, viático. Muitas vezes sai dos eixos e desvia-se, transvia-se, avia-se, envia-se).

O leitor entenda tudo isto de modo sério ou trivial, como lhe aprouver que uma e outra fazem parte do viver. Com efeito, eram três as ruas ou vias (tri-via) que ao foro romano iam dar e nas quais os senadores enquanto não entravam para tratar dos assuntos do império iam falando de questões de lana caprina. Das múltiplas maneiras que há de andar em Portugal, aqui, neste lugar de Vilar Maior, se pode: (a continuar)

In, Memórias de Vilar Maior, minha Terra, minha gente - Júlio Marques    

publicado por julmar às 11:34
link do post | comentar | favorito
|

.Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente

.pesquisar

 

.Julho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. Ano 2051 - Senhora do Cas...

. Porque andas tu mal comig...

. Sinalização

. Um sítio para pousar a ca...

. Orca, a terra do senhor F...

. Ó sino da minha aldeia

. Que se passa?

. Demografia - Nonagenários...

. Vida de cão!

. Requiescat in pace, Adria...

.arquivos

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

.links

.participar

. participe, leia, divulgue, opine

.

blogs SAPO

.subscrever feeds