Domingo, 6 de Abril de 2008

O maior carvalho do concelho

Haverá um prémio para quem identificar o local onde se enconta este carvalho.

 

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência

António Gedeão

 

publicado por julmar às 21:58
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16 comentários:
De Ribacôa a 6 de Abril de 2008 às 23:12
Caso as aparências não me atraiçoem, este belo exemplar fica à entrada da Bismula . Quem como eu palmilhou várias vezes o caminho entre Vilar Maior e aquela povoação (normalmente para ir ao mercado ), passando pela Quinta dos Barreiros, seria de todo impossível ficar indiferente a esta árvore, tal a sua imponência. E já agora quanto à espécie: será um carvalho vermelho (quercus robur - folha caduca-), um carvalho negral (quercus pyrenaica -folha caduca) ou um carvalho lusitano(quercus paginea -de folha semi-caduca)? Saliento que estas, são apenas três de entre várias centenas de espécies.


De "O Vila" a 7 de Abril de 2008 às 00:27
Não querendo desmentir a afirmação de Ribacôa (que nestas coisas é especialista), sòmente queria dar uma achega: à entrada da Bismula , idos da quinta dos barreiros , não me parece que haja tantos barrocos como os que a figura mostra, falando das terras mais chegadas ao povoado. Por outro lado parece-me demaseado secadal " a terra que nesse sítio me parece ter mais humidade.


De Ribacôa a 7 de Abril de 2008 às 01:01
No início do meu comentário de abertura e à cautela, ressalvei a hipótese de poder estar errado. Porém, até prova em contrário, mantenho o que disse. A ser o carvalho que eu penso, fica junto à parede de um lameiro, bem junto ao caminho (não visível na fotografia), ali a uns cem metros da entrada da Bismula . A terra parece mais secadal ? Sim, é verdade, se compararmos com a que conhecemos nos tempos da nossa meninice. Mas não esqueçamos que toda a paisagem da região mudou. Daí as grandes dificuldades no reconhecimento da generalidade dos casos análogos aqui trazidos. Venham mais ajudas.


De "O Vila" a 6 de Abril de 2008 às 23:14
Para abrir as "hostilidades" devo começar por dizer que não identifico o sítio onde o "venerável" carvalho se encontra.
O que vejo é que o local onde se encontra a árvore é um cabeço, naturalmente cheio de barrocos e que apenas serviria para pastagem.
Verifico, isso sim, que no primeiro plano existe uma terra em cômaros " que antigamente era cultivada e, muito provavelmente, com culturas de regadio.
Imagino até que poderia ser através de uma presa que diariamente (ou não) "se ia deitar".


De Ribacôa a 6 de Abril de 2008 às 23:24
Caro "O Vila". As minhas desculpas pelo facto de te ter retirado o privilégio da abertura das hostilidades. Foi apenas por dois minutos e não foi intencional.


De Tintimportintim a 7 de Abril de 2008 às 18:24
Na minha opinião, este carvalho situa-se à saída da Bismula em direcção ao Carvalhal.


De Katekero a 8 de Abril de 2008 às 00:06
Sou de opinião que é à entrada da Bismula, no caminho velho, no sentidi Vilar Maior-Quinta dos Barreiros (Pereiro)-Bismula. Porém, como todos os caminhos vão dar a Roma...!!!


De Vilar a 7 de Abril de 2008 às 19:35
Árvore, cujo pomo, belo e brando...

Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgínias faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúrio sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruito debuxando.

Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.

Luís Vaz de Camões


De Carina a 7 de Abril de 2008 às 22:51
PRINTEMPS

Il y a sur la plage quelques flaques d'eau
Il y a dans les bois des arbres fous d'oiseaux
La neige fond dans la montangne
Les branches des pommiers brillent de tant des fleurs
Que la pâle soleil recule
C'est par un soir d'iver dans un mond très dur
Que je vis ce printemps près de toi l'innocente
Il n'y a pas de nuit pour nous
Rien de ce qui périt n'a de prise sur toi
Et tu ne veux pas avoir de froid

Notre printemps est un printemps qui a rasoir.
Paul Élouard

Peço desculpa por a minha intrusão en françês. leio e entendo portugues mas escrevo mal. sou potuguesa e coheci Vilar Maior quando era muito pequena e tenho la familia. Falaram-me deste sitio e visito porque gosto do que escrevem.Voltarei.


De Amora da silva a 8 de Abril de 2008 às 22:51
obrigado por nos trazer este poema de Paul Élouard.


De Lagartixa a 8 de Abril de 2008 às 22:56
Ora aqui está. O blog de Vilar Maior já ultrapassou fronteiras. Opssssssss....!!! O que é que estou a dizer? Já me esquecia que estamos na era da internet em que as coisas antes de o serem já o eram.


De Manuel Maria a 9 de Abril de 2008 às 10:25
Aqui netas bandas, deixamos sempre a porta aberta para os que partem e para os que regressam e para os que passam e se detêm...


De Anónimo a 10 de Abril de 2008 às 22:28
Mensagem sábia e oportuna, esta de Mauel Maria.


De Lian a 8 de Abril de 2008 às 15:18
Se entendem (eu entendo) que a melhor forma de homenagear este raro espécime é a poesia, então vamos a isso.

Parece-me que nunca ninguém há-de
Ver poema tão belo como a árvore.

Árvore que sua boca não desferra,
do seio doce e liberal da terra.

Árvore sempre de Deus a ver imagem
E erguendo em reza os braços de folhagem.

Árvore que pode usar, como capelo,
Ninhos de papo-ruivo no cabelo;

Em cujo peito a neve esteve assente;
Que vive com a chuva intimamente.

Os tontos como eu fazem poesia;
Uma árvore só Deus é que a faria.

Joyce Kilmer



De amora da silva a 8 de Abril de 2008 às 22:49
Belo poema. Curiosamente tinha-o lido há oito dias num parque em que havia poemas pendurados em árvores.


De J.B. a 8 de Abril de 2008 às 23:05
Comungo da mesma ideia. E salvo raríssimas excepções, o que por aqui não falta é bom gosto.

J.B.


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