Quarta-feira, 11 de Março de 2009

As castanhas do Ti Tavares‏ - João Martins

«A minha vida confunde-se com a daquele centenário castanheiro do Romão, à beira do caminho, mesmo à saída da aldeia, quando se vai para a Balsa. Sou mais castanheiro do que se pensa e ele, mais homem do que parece.

Somos amigos há mais de quarenta anos. É quase uma vida, quarenta anos! Mais tempo ainda do que duram muitas das relações humanas. Por isso somos velhos amigos de tu. E não é para menos: Ele viu os meus antepassados, que lhe pisaram a raiz e reconhece-os agora na minha voz, na minha cara, no mesmo jeito de rebuscar ouriços.

Ai velhinho castanheiro do caminho, ai casa de pedra dos meus avós, ai cruz do chão da forca, ai romaria do Senhor dos Aflitos, ai Elvira Polónia de mensageiro na mão lendo ao serão a crónica dos dois compadres, ai Chico Bárbara a levar as vacas montando em pêlo o boi preto, ai ovos tingidos na Páscoa a casca de cebola, ai caravelas de vento feitas de cana e pregadas com picos de espinheiro, ai lançamento de bogalhadas pelas fisgas das portas – parece que lhes ouço ainda o barulho no soalho do corredor, ao soar das trindades- ai Manuel Rasteiro a bater o trigo na eira, debaixo do sol de Julho.

Estou mesmo a ver-te Zé Vicente, todo osso, já alquebrado, palmilhando sobre as pernas bambas o caminho de Aldeia da Ribeira, repetindo o constante estribilho: bô s’tá, bô s’tá, bô s’tá…, misteriosa ladainha que saía dessa boca de viajante. A fronteira da tua alma, Zé Vicente, os limites do teu mundo, eram os 10 km de ida e volta, entre o velhinho castanheiro e a tasca do João do Escabralhado.

E imagino o velho Tavares e a Maria, ele muito franzino, ela encurvada, ambos de preto, a desaparecerem na curva do caminho carregando no burro os sacos de castanhas, que iam trocar a Aldeia da Ponte.

O Tavares e a Maria, onde irão eles agora! Há mais de cinquenta anos que partiram naquele caminho! Os dois enregelados, sob o grande temporal que os surpreendeu, no regresso da Aldeia da Ponte.

Que saudades tenho deles e de todos os outros vultos que desapareceram na curva daquele caminho, sob o centenário castanheiro do Romão. Tudo são fantasmas. Almas penadas, nuvens altas de almas. Agora, apenas a solidão do ermo me rodeia…

Ó Zé Vicente, ó Tavares, ó Maria, como eu vos queria agora aqui! Também eu faria o rebusco, não tivesse o castanheiro mirrado, também eu dou comigo a repetir: bô s’tá, bô s’tá, bô s’tá… quando a indefinida mágoa me abraça, ao rebuscar ouriços sob o velhinho castanheiro da minha lembrança.

É nestas horas, que a alma me pesa como um rochedo… e o rochedo é um alto-relevo da lembrança!

E há lembranças que vivem séculos… como os castanheiros!»

 

 

publicado por julmar às 18:55
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6 comentários:
De agent-provocateur a 11 de Março de 2009 às 20:23
O poeta Alegre escreveu um livro delicioso: "Um cão como nós"
Este texto ,na mesma linha, poderia também chamar-se "Um castanheiro como nós". Parabéns!!!
E este blog poderia chamar-se... "Cantinho da Saudade"


De "O Vila" a 11 de Março de 2009 às 22:26
Quem nasceu e cresceu na Vila, como eu, certamente lê este texto apossando-se dele uma certa nostalgia de tempos idos, há já longos anos e parece recordá-los sentado à beira de uma das nossas ribeiras ao entardecer de um dia de primavera.
Se os castanheiros duram muitos anos, estas coisas duram em nós toda a nossa vida. Uma boa noite para todos.


De Confuso a 11 de Março de 2009 às 22:39
Ora ... Ó João Martins !,,,,,
Então o ti Chico Bárbara montava o boi preto?
Não seria a burrita preta?


De Jarmeleiro a 12 de Março de 2009 às 00:32
O boi preto? E o castenheiro do Romão no caminho da balsa? Isso são mirages dos grandes poetas como o Sr. Manuel Maria. Eles vêm coisas que nem ó diabo alembram.Coisas que o o homem mediano assim como eu nada enxerga. E foi a sismar nisso que me veio à lembrança aquela passagem dos moinhos e dos gigantes escrita p'lo grande Cervantes ( o poeta claro). E tamém me alembrei duns versos que fala nesse assunto escritos pelo nosso grandissimo poeta António Gedeão, nome que como o meu tamém não é verdadeiro. Ora atão veijam lá se não bate certo.

Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde os outros, com outros olhos
não vêm escolhos nenhuns.

Inútil seguir vizinhos
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos ,
D. Quixote vê gigantes.

Vê monhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

Ele diz mais, mas estes dão para amostrar a verdade do que afirmei, sobre o que os poetas vêm.
Os meus parabéns ao Sr. Manuel Maria e uma boa noute a todos.




De Jarmeleiro a 12 de Março de 2009 às 08:59
Tamém sendo grande poeta o Sr. Manuel Maria não era práqui chamado. O Sr. João Martins por certo vai-me intender e desculpar.


De Manuel Maria a 13 de Março de 2009 às 08:48
Foi afirmação devida a o entusiasmo da amizade, jarmeleiro. Vamos lá pôr as coisas no devido lugar... que é rentinho ao chão.


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