Sexta-feira, 13 de Junho de 2014

A Ponte, Os Da Ponte

Já dei conta neste blog de lugares e gentes da Vila. Agora será a vez dos Da Ponte, histórias de gente, da nossa gente. Por hoje apenas o início.

Fotografia de Marcos Santos

A Ponte – o lugar 

A ribeira corria indiferente aos transtornos dos que tinham que se haver com o volume e turbulência das suas águas - a hidrografia assim se talhara nos tempos e assim dava cumprimento ao curso da rerum natura. Se as águas turvavam e montavam para as margens, não havia senão dar tempo ao tempo que é no tempo que se nasce e se morre, se constrói e destrói, se sobe e se desce, se ama e se odeia … e, isto sabendo, se espera que as águas se amansem e se aclarem. Assim era para os indígenas que por ali iam curando das suas vidas simples e nem lhes passava pela cabeça que pudesse ser de outro modo, já que o seu saber e a sua técnica aprendidos não iam além de colocar umas toscas pedras em fila, a emergirem na normal corrente da ribeira, para que de pé enxuto, de poldra em poldra, passassem à outra margem. Foi o que fizeram, no sítio das Eiras, onde a largueza e o manso curso do leito aconselhava tal travessia. Um pouco a jusante, com saber e técnica vulgares da engenharia do betão, ilustrados indígenas do século XX fizeram um pontão de cimento e, tementes que as poldras não soubessem nadar e submersas se afogassem, dali as expulsaram, guiados por um senso tacanho e servil de que tudo o que não é útil não presta, apagando assim as marcas por onde os nossos antepassados cuidavam dos teres e haveres (1).

Mandava a lei geral da conservação, em tempos recuados, que se abrigassem nos sítios altos em encostas viradas a sul, que aí construíssem os seus lares, que melhor aí defenderiam as suas vidas. Só muito mais tarde quando, aumentada a população, o direito se foi substituindo à força, a lei ao arbítrio, o arado e a vaca veio superar a enxada e o burro, a ovelha veio superar em número a cabra, só então, a vila saiu do cerco amuralhado que começava no Arco. O símbolo de toda esta lenta mudança ali está erguido em pedra - O Pelourinho! Uma nova idade começa assente na propriedade da terra e no lavrador com a junta de vacas, puxando o carro e o arado, a tornar-se o embrião da classe média, a espinha dorsal da futura sociedade que irá paulatinamente transformar a cultura, a economia e a paisagem.

Havia os campos que, na margem esquerda da ribeira, do cume do Buraco e da Filipa, se inclinavam suaves até ao leito da ribeira e, paulatinamente, se foi estabelecendo o povoado tendo como nova centralidade o Pelourinho na base da contígua colina onde se construiria a casa senhorial de Luís de Bastos (propriedade atual de António Silva Cerdeira) com a melhor e mais extensa propriedade agrícola - O Cerrado.

Aqui tornaremos mais tarde, que queremos falar dos da Ponte, que hoje dizemos serem os do Bairro de S. Sebastião. Sabemos quão importante seria saber da datação desta ponte ou, pelo menos, saber a época em que foi construída, havendo bons argumentos e provas para a considerar romana (2) e havendo outros que a consideram uma construção medieval. Quase certo é que terá sido construída, não para atender às necessidades dos indígenas, mas antes obedecendo a um plano estratégico de interesses mais vastos, nomeadamente de índole militar (3). Nem os indígenas teriam organização, saber e poder para levar a cabo uma obra desta dimensão.

Certo é que dos lugares possíveis em que poderia ser erigida foi este o eleito, no enfiamento da rua mais importante – a rua das Amoreirinhas – que conduzia à cidadela amuralhada e na confluência da rua da Ladeira, da rua Chorreão e da rua da Quelha (atual rua Dr. Diamantino dos Santos).   

Antes da construção da ponte o rio era atravessado um pouco mais acima como mostra a existência do caminho de um lado e outro da ribeira,(foto 1) num sítio onde a largueza do leito diminui a profundidade das águas e onde se dá um quase natural emprezamento das mesmas onde antes da construção da ponte poderá ter existido obra que facilitasse a travessia.

(para continuar)

publicado por julmar às 18:20
link do post | comentar | favorito
|

.Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Requiescat in pace, Maria...

. Armário Judaico no Baraça...

. Citânia de Oppidanea

. Gente da minha terra

. Viagens ao pé da porta - ...

. Eleições à porta

. Requiescat in pace, Álvar...

. Contradições - O Riba-Côa...

. Ano 2051 - Senhora do Cas...

. Porque andas tu mal comig...

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

.links

.participar

. participe, leia, divulgue, opine

.

blogs SAPO

.subscrever feeds