Quinta-feira, 24 de Novembro de 2016

A Praça, lembrando os que lá moraram

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 Durante muitos anos, assim como uma espécie de eternidade, a vida não mudou. Só muito tarde, quando o meu pádrinho e depois a minha avó materna morreram, é que para mim se tornou inquestionável a conclusão do argumento aristotélica: " Todo o homem é mortal". Até então, morriam crianças, logo promovidas a anjinhos da corte celestial, morria alguém no Cimo da Vila ou no Canto, ou tocavam os sinos a sinal, ou da Irmandade da Misericórdia saíam bandeiras com imagens do outro mundo, mas a morte era uma coisa dos outros, não da família, não dos vizinhos. Na praça durante muitos anos ninguém morreu. Eu nasci lá, cresci sem dar por isso e tudo era sempre igual mesmo as pessoas que por lá passavam eram sempre as mesmas, a menos que ( o que acontecia com alguma frequência) triteiros, caldeireiros, capadores, compradores de peles e outros, por aqui passassem a tratar das suas vidas,tratando da vida dos outros. As casas, sempre iguais, ladeavam a praça onde desaguavam as pessoas e os gados que eu do nosso balcão ( nosso era a palavra da nossa identidade familiar que incluía os familiares e toda a propriedade quer se tratasse da burra, do carro das vacas, ou da Horta da Ribeira) conhecia na perfeição: o tilintar dos chocalhos das ovelhas e das guisas das cabras, a identidade de quase todos os burros e vacas nas suas feições e jeitos. Era um mundo que se repetia todos os dias, todos os meses, todos os anos. E nas casas habitavam as pessoas como se desde o princípio do mundo assim fosse. E assim era porque o mundo tinha começado quando comecei a vê-lo. Ao Cimo da Praça vivia o ti Xico Henriques e a Ti Júlia e, mais tarde o Zé da Ruvina e a Amélia; no correr das casas térreas ( que as casa que ladeavam a Praça eram de escada e balcão como convinha à nobreza do lugar) do Forno onde o povo cozia o pão, vivia uma família que tomou o nome do ofício - Forneiro - e que mais tarde demandariam Lisboa; a seguir confinando as Portas vivia a ti Isabel Periquito ( que me perdoem as alcunhas mas também fazem a nossa identidade ao ponto de como é o caso serem a forma de sabermos de quem falamos - e é caso para dizer que quem nunca as usou atire a primeira pedra. E alcunha, quem a não tem? Como verão também não lhe escapo.) Em frente a este correr de casas temos o senhor Aníbal e a senhora Aninha que tinham o comércio e a taberna acessados pelo Cimento - esse altar profano ou palco, ou tribuna, ou plataforma onde os acontecimentos se tornavam notícia e passavam a ser verdadeiramente reais. Seguia-se a Ti Isabel do Alípio e filha a Maria Pelada - a mãe padeira e a filha uma autêntica amazona Se em vez de mula montasse uma égua; depois, quiçá, na mais antiga casa da Praça a Ti Zabel Afonso ( onde minha mãe me mandava pedir a malga do fermento para fintar o pão) vestida de preto, lenço na cabeça e olhar de humildade pregado ao chão como se a cruz não fosse do seu homem, o ti Zé da Cruz. Na mesma construção, em casa geminada o ti Mergilgo ( simplificações antroponómicas) lavrador e a tia Anunciação Polónia. A Botica das poçôes de outrora passara a local de guarda de instrumentos e produtos agrícolas; confinavam no correr a Dona ( e um título fazia toda a diferença na vida) Vangelina e sua filha D. Maria( a quem devo favores de enfermagem); seguia-se o Senhor João da Cruz - polícia de profissão na cidade da Guarda mas que conheci apenas como reformado - e a senhora Patrocínia Magalhães. Seguia-se uma casa - com uma varanda tradicional - desabitada e onde em dias de chuva, a garotada se abrigava a jogar o " ó ladrão marcha cão " - propriedade do sr Manuel Esperança que seguindo a tradição familiar se estabeleceu comercialmente em Lisboa; já fora da praça e ladeando o largo do Pelourinho, mas bem visível do nosso balção vivia o inconfundível senhor António Lucrécio e sua mulher Mercês ; bem ao lado com escadaria de serventia comum vivia a ti Filomena Rasteira , a ti Mouca tal era o considerável grau de surdez. Ao fundo da Praça era a nossa casa, o nosso balcão de onde eu aprendi a ver o mundo. No ano em que eu nasci - o ano em que começou o mundo como o estou a ver - o senhor Tenente inaugurou o Chafariz que foi construído no quintal da nossa casa. Ora, do nosso balcão eu via todas as mulheres e todas as raparigas que vinham buscar a água para todos os fins a que se destina. E, claro, muitas coisas vinham agarradas ao "ir ao chafariz" como, por exemplo, a namoradeira que gasta mais àgua do que precisa para ter um pretexto. Mas o chafariz merece uma história completa. Aqui na nossa casa viviam os meus pais , o ti João Marques - lavrador, cujo assobio resultava tanto na comunicação com os animais como o fiat do Criador - e a ti Graça, por linhagem de quem nos alcunhavam de Carrachos ( eu sei, mãe, que também não ias gostar de ler esta parte mas é só por causa dos outros não levarem a mal). Ao nosso lado, viviam o ti Zé Badana que aliviava o peso da profissão de pedreiro com o seu quê de zombeteiro e cuja alta estatura contrastava com a da ti Filomena. Do outro lado, no início da Quelha, em casa térrea, vivia o ti Augusto Balão orientando os rituais da cozedura do pão que trabalhar mesmo a sério era com a mulher, a ti Beatriz. Mais uma vez a profissão gera o apelido - ou alcunha - à descendência - Tonho do Forno, Ana do Forno, Zé do Forno. Segue-se a Senhora Glória, viúva de Guarda Fiscal a caminho do Vale da Lapa onde a cultura do linho a obrigava; o senhor Raúl - um pouco agricultor, um pouco sapateiro, um pouco habilidoso, um pouco emigrante - e a D. Zézinha, sua esposa, que exercia o cargo de Regente (professora primária sem curso, para o que era necessário boas informações, influências, jeitos ou favores) na Vila e na Arrifana do Coa. Depois era a casa do meu padrinho João Seixas, polícia e da minha madrinha Assunção que levavam a sério a função de padrinhos. Do nosso balcão não via, mas nas costas da casa do meu padrinho vivia o senhor Zé Franco - a quem meu pai pagava em alqueires de centeio os cortes de cabelo dos filhos - e a senhora Celestinha que passava o tempo todo a fazer renda. Ladeando a praça a Norte estava a propriedade de senhor professor Pinheiro com a casa, o mirante sobre a Praça e coberto de glicínias e um alto muro resguardando o quintal, para onde, apesar do medo e respeito pelo proprietário, a rapaziada não conseguia evitar, que um pontapé mais forte e mal direccionado, lá enfiasse a bola. Não contei. Talvez me tenha escapado alguém. Depois que conheci a morte não pararam de partir. Agora as casas estão fechadas. Quase todas. E o mundo que começou comigo só existe porque o lembro.

(Republicação. Este texto foi publicado, pela primeira vez, neste blog em 24-12-2011) 

publicado por julmar às 11:37
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