Terça-feira, 30 de Agosto de 2016

Comment ça va?

Comme ci, comme ci, comme ça

 Falar de emigrantes na Vila é falar de emigrantes de França - sobretudo de Champigny, le grand bidonville - que com o tempo mudou de rosto. Alguns, poucos, rumaram às Américas (agora, mais do Norte que do Sul) e à África. Na Europa, poucos, demandaram a Espanha, a Alemanha, a Holanda, a Suíça, a Inglaterra, a Bélgica. Ainda, assim, já é possível ouvir falar inglês.

O modo de vida dos emigrantes mudou muito desde a primeira geração da década de sessenta e setenta. Boa parte deles, com idades superior a cinquenta anos, analfabetos ou com nível de instrução rudimentar tiveram, pela primeira vez na vida, direito a férias com congê e tudo. Sem saber falar francês foram aprendendo as palavras básicas e, habituados a desenrascar-se em Portugal, passam à se désenmerder en France, aportuguesando os termos franceses, 

Eram tempos de entusiasmo, de euforia que culminavam nas vacanças, no regresso a casa, à família, aos conterrâneos com milhões de francos (novos, mas com nomenclatura antiga que impressionava mais). Na taberna, o vinho foi esquecido e saíam rodadas de biéres que seria ofensa séria à imagem não pagar uma e não aceitar todas as que se seguissem. As feiras e mercados circunvizinhos enchiam as apertadas vielas e os tendeiros e demais feirantes, não tinham mãos a medir. Alguns, mais novos, traziam une voiture que, no desconhecimento do vocabulário português correspondente, utilizavam o francês aportuguesado: fogo rouge, vitesses, marche arriére, bugias, empanar e, como condutores com o permis de conduire há menos de um ano, com um dístico arriére - quatre vint dix . Carros de marca francesa, sobretudo, e modelos da época: Renault, Simca, Citroen. Muitos, que passaram noites de insónia e dias a sonhar com a compra de um chão, de uma veiga, de uma vinha, de um lameiro ou mesmo de uma casa, aproveitavam a vinda à terra natal para sondar os proprietários que, sem mão-de-obra para o amanho das terras, aproveitavam para vender a preços exorbitantes. Acreditavam, então, que a situação de emigrante era passageira, o que se traduzia na expressão frequente – quando a França acabar … Por isso, havia que aforrar e comprar o mais sólido dos bens para a sobrevivência – terras. A verdade é que a França não acabou, os mais velhos regressaram com uma retraite que lhes permitia viverem sem ter que trabalhar a terra, embora a maioria dessa primeira geração o fizesse. Porém, os filhos e, sobretudo os netos, integraram-se no modo de vida franco, frequentaram a escola, aprenderam a falar francês, de tal modo, que para alguns a dificuldade se tornou entender e falar português. Por isso, entrando, um dia destes, numa feira local, me surpreendi, pois o francês era quase exclusivo. A mesma situação ao chegar ao bar de festas de uma aldeia próxima em que fui atendido em francês:

- Alors, que voulez-vous?

- Une biére, s’il vous plait!

publicado por julmar às 05:48
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