Sexta-feira, 28 de Abril de 2017

O que me liga ao concelho do Sabugal

Foto de Julio Marques.

Respondendo ao desafio que me foi lançado por Vitor Andrade na página do FB Sabugal does it better

1 – O que é que o liga ao concelho do Sabugal?

Nasci em 1951, em Vilar Maior, num tempo em que não havia idade definida para a entrada na pré-primária e, como tal, as atividades eram muito variadas, das quais dou conta dum pequeno número: guardar cabras e ovelhas, levar as vacas ao lameiro, partir lenha, acarretar água, pingar feijão ou milho, apanhar batatas, fazer recados. Com a entrada na escola primária continuou a haver pré-primária e passou a haver pós- primária, isto é, fazia aquelas e outras atividades antes e depois das aulas. Depois que fui para o Seminário, continuei a ter as mesmas atividades quando regressava para gozo de férias. Então, o que é que me liga ao concelho do Sabugal? É, em primeiro lugar, essa ligação à terra, à agricultura (à cultura do campo), num trabalho árduo em que cedo aprendíamos tudo quanto era necessário para o sustento da vida. A minha geração foi a última que viveu a cultura agro-pastoril das aldeias do concelho apinhadas de gente. Depois, veio a guerra colonial e o êxodo migratório, tendo eu escapado a ambos. Fui para Universidade, primeiro Braga e depois Porto, onde tirei o curso de Filosofia, tendo-me dedicado ao seu ensino, durante quase quarenta anos. Ao longo de todos estes anos, nunca deixei de ir no Natal, na Páscoa e no Verão a Vilar Maior, onde viviam os meus pais e os meus sogros. Por isso, nunca deixei de lá ir: foi e continuará a ser sempre, para mim, o centro do mundo, mesmo não estando lá fisicamente. Restaurei a casa dos meus pais, onde nasci e, agora, dono do meu tempo, volta e meia estou lá. Hoje é fácil comparando com o que era uma deslocação Porto-Vilar Maior antes da construção do IP5.

Vilar Maior, para mim, esteve presente como uma espécie de laboratório natural inspirado no verso de Fernando Pessoa:

 Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.

E não há trabalho académico que não possa ter sede nesse laboratório, seja Psicologia, Sociologia, Antropologia, Linguística, Genética, Astronomia, História ou qualquer outra matéria.

Habituado desde pequeno a olhar o castelo e suas muralhas, a ponte, o pelourinho a ouvir a minha avó falar das Invasões Francesas, a ouvir romances antigos da boca da ti Olinda só podia despertar-me para o desvendar do mistério que tudo isso encerra; testemunha da fuga dos homens e mulheres para França, das casas que uma a uma se fechavam, das searas que ficavam por ceifar, das terras que ficavam ao abandono, pressenti que algo de grave se estava a passar e que podia ser a morte inexorável da aldeia. Foi assim que, em 1997, editei o livro Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente, para que fosse a preservação de um passado que não merece ficar esquecido. Porém, se recordo o passado, nunca me resignei a que não pudesse haver futuro.

Foi assim que, com o advento das novas tecnologias de informação e comunicação, criei, em 2006, o blog Vilar Maior, minha terra, minha gente http://vilarmaior1.blogs.sapo.pt/,  com o objetivo de manter os laços entre todos os vilarmaiorenses espalhados pelo mundo, de os incentivar a virem cá ou para cá, de apresentar projetos (utópicos?). São 17 anos de persistência o que é uma longevidade considerável, num reino onde tudo é tão fugaz, sobrevivendo às redes sociais bem mais atrativas. São muitas horas dedicadas a Vilar Maior, num trabalho pro bono, que faço com imenso prazer. Bom e para que se não diga que fala, fala, mas não fazem nada. Conseguiu este blog organizar cinco edições de uma feira franca anual (a última em Agosto de 2016) FEIRA DE TALENTOS DE VILAR MAIOR, cujos objetivos podem ser consultados no mesmo.

Em 1970 fui cofundador e presidente da Associação Cultural e Desportiva de Vilar Maior.  Tentando ser breve, sei que a resposta vai longa mas quis que ficasse claro o que me liga a Vilar Maior, ao concelho do Sabugal.

2 – O que é que o faria regressar? - Um emprego compatível com as suas competências? - A necessidade de ter mais qualidade de vida? - Uma ruralidade mais moderna e mais digital? - Uma gestão autárquica, ambiciosa e inspiradora?

Uma boa parte da minha geração entrou, recentemente, ou está a entrar na reforma, uma boa parte deles emigrantes. A primeira geração de emigrantes regressou quase toda. Esta segunda geração construiu lá a sua vida e a maior parte tem lá os filhos, os netos e encontram-se divididos entre lá e cá. Quase todos acabam por vir cá no verão por causa da festa, da romaria ou da garraiada. Por vezes, vêm os filhos e os netos e alguns dos mais novos esperam o momento. Fala-se muito de turismo e devia estar-se muito atento a esta franja populacional que, sazonalmente, enche as nossas aldeias. É preciso saber cativá-los, sobretudo, aos mais jovens.

Os reformados têm uma boa oportunidade de rentabilizarem as suas competências pessoais e profissionais e, pessoalmente, o que me faria regressar seria a liderança/ coordenação/participação num projeto de desenvolvimento da minha freguesia/concelho. O contacto com a natureza é o ponto mais forte e devia ser explorado em termos de oferta turística – os rios, os campos, a observação de aves e o firmamento, que aqui se pode ter uma experiência indescritível tendo como pano de fundo o coaxar das rãs. Penso que todas as aldeias do concelho têm, através de contratos com as juntas de freguesia, Wi-Fi. No caso de Vilar Maior, o sinal ou não existe ou é de péssima qualidade o que, juntamente com falta de rede para telemóvel, é hoje o suficiente para afastar meio mundo. E a gestão autárquica tem que fazer a diferença.   

3 – Como é que vê o futuro do nosso território daqui a uma década?

Tudo, quase tudo, depende do projeto que a próxima gestão autárquica venha a propor e que terá de ser um projeto muito exigente, inovador, mobilizador que vá para além da lógica partidária, capaz de gerar confiança e mobilizar todos os interessados em dar vida ao concelho do Sabugal. Como não creio que tal vá acontecer, há que começar a criar as condições para tal. O movimento “Sabugal does it better” pode ser o princípio.

 4 – Aconselharia a um amigo mudar-se para o Sabugal? Porquê?

A maior parte dos meus amigos tem a minha idade o que significa que são de uma geração com ascendência rural e que têm as suas próprias aldeias. Mas sim, já tenho levado alguns amigos e continuarei a levar e a propagar os valores da minha aldeia e do concelho. De resto, alguém que vá para o Sabugal tem de poder ganhar lá a vida, ter uma atividade. É preciso criar condições. Vilar Maior, por exemplo, que é uma aldeia histórica com excelente potencial turístico não gera para a freguesia um cêntimo de receita, sendo indiferente que seja visitada por 500 ou por 5000 turistas. Tem Castelo, tem pelourinho, tem museu, etc., mas, tudo isso, não gera um único posto de trabalho. O castelo está aberto, entra quem quer; o posto de turismo está fechado, o museu está fechado, não entra ninguém. Que tal uma PPP para mudar a situação que é um pouco a mesma por todo o concelho?

5 – Como é que vê o Sabugal no contexto de uma Europa cada vez mais multicultural e mais cosmopolita que nunca?

A continuar como está, cada vez será mais insignificante. Não há milagres. É preciso saber o que se quer, qual a direção. Depois é preciso caminhar, passo a passo com o tempo que for preciso. Não é preciso esperar por toda a gente, mas é preciso que quem vá inspire confiança.

Gosto deste concelho. No Verão passado, fui quase a todas as aldeias a pé e no Verão que se aproxima completarei o projeto: Por terras do Sabugal, passo a passo. É uma experiência única baseada na fé do deus das pequenas coisas.

publicado por julmar às 11:14
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