Quarta-feira, 24 de Agosto de 2016

Por Terras do Sabugal, passo a passo - Fóios

Displaying IMG_2739.JPG

Mal saíra da bela Aldeia do Bispo vi um homem, estrada fora,  que, mais madrugador que o sol, lento,  ia depenicando amoras silvestres, na berma da estrada.

Eu, de passo estougado, depressa o alcancei. 

- Bom dia! Então, vamos até aos Fóios?

- A pé? Nem pensar! No me diga que você vai a pé! Atão vossemecê donde é?

- De Vilar Maior?

- Catancho! Sabe, a minha avó era de lá, da família Ferreira. Chamava-se Maria Ferreira.

Desfolhei, de cor, um pouco do livro genealógico da família Ferreira. E, em jeito de despedida:

-Tenho que ir andando que depois o sol aperta.

- Então, ainda nos encontramos lá pelos Fóios no Encerro.

Foi, assim, que soube que iria encontrar a terra a visitar em estado de festa. Estrada fora, fui vencendo a mais longa subida deste passo a passo e, chegado ao alto, deparou-se-me, à esquerda, a indicação da nascente do rio Coa.  Segui a indicação da direita que indicava miradouro. Subida íngreme até ao cume, onde me sentei junto ao marco geodésito, estonteado por paisagem tão vasta que os olhos mal poisam no último dos horizontes. Por cima de mim, as pás da eólicas não paravam de rodar, impelidas pelo vento que fazia rodar um exército enorme de iguais engenhos aqueles que antes do sol nascer me aparem como luzes vermelhas. E pus-me a pensar o que D. Quixote não diria de tão numerosos e gigantescos moínhos de coisa nenhuma. 

Agora na descida tudo é mais fácil. A paisagem que, escondido, o Coa sustenta com água abundante, torna-se exuberante, os carvalhos e os freixos mais frondosos e mais densos, mais lameiros e pastos mais verdes, os castanheiros dominadores, carregados de ouriços, começam a imperar na paisagem. 

E, mal entro na aldeia, sinto no ar um clima de festa que torna o 'bom dia', da salva, dos habitantes num convite ã que me torne alegre e contente.

 Displaying IMG_2745.JPG

Passo da margem direita à margem esquerda do Coa, ainda menino, para ver a aldeia acocorada na margem esquerda, descendo preguiçosa para o rio. 

Aqui e ali, rapazes e homens de pau na mão, seguem todos no mesmo rumo, carreiro acima, como se estivesse eminente uma qualquer hierofania no cimo do monte. Saudei e abordei um homem determinado no caminhar:

- Bom dia! Então, para onde vai?

- Atão, vou pronde vai toda a gente!

Explicou-me que era lá em cima no Lameirão. Não tivera que regressar a pé, caminho de Aldeia do Bispo, e teria acedido ao rogar insistente do homem:

- Venha que vai gostar! Olhe que há lá comida e bebida com fartura.

Por toda aldeia a azáfama no terminar dos últimos preparativos era intensa, nomeadamente na certificação que todas as ruas estavam encerradas e que os touros chegariam, sem tresmalhos, ao Encerro. 

O sol já queimava quando deixava esta tão animada aldeia, de onde quase todos emigraram e que, terminada a festa, voltariam a França. Em conversa co um habitante rematei:

-Tenho que ir, que se faz tarde.

- Atão e vai a pé?

-Então, que remédio!

- Pois vá que 'Sarna com gosto, não cansa''

 

 

publicado por julmar às 22:50
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