Terça-feira, 11 de Outubro de 2016

Por Terras do Sabugal, passo a passo - Valongo do Coa

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(Visita em 16-8-2016. Percurso Badamalos-Valongo-badamalos)

Evolução da População

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Antes ainda do nascer do sol, inicio o percurso em Badamalos, junto do restaurante Martins, tomando o caminho rural alcatroado, estreito e cercado de muros que, antigamente os resguardava as propriedades dos gados alheios. Algumas vinhas tratadas misturam verde à paisagem que este ano, chuvoso que foi, não é tão árida como costuma ser. O caminho corre em sítio elevado donde se avista grande parte do concelho, desde o Carril, onde o sol surge agora como bola de fogo, e da serra da Malcata até à serra do Seixo, mais para lá a cidade da Guarda radiosa como se fosse uma cascata sanjoanina e, mais a sul como último horizonte, a serra da Estrela. Depois o caminho desce, desce sempre e em grande inclinação até aceder ao povo de Valongo, poisado no vale longo, marginal ao Coa. Apenas o ladrar dos cães corta o silêncio do povoado. Cedo que ainda era e pela pouca gente que por aqui mora, passeei-me pelas ruas e não vi vivalma.

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Em todas estas aldeias há um peso enorme do passado que assoma por todos os lados, desde a arquitetura das casas, às fontes e bebedouros de animais, às noras e regadeiras esquecidas, às picotas, à prensa do lagar a espreitar num janelo, ao arqueado lateral das portas das adegas para dar passagem aos tonéis barrigudos, ao par de carros de vacas que ali estão expostos para nos trazerem à lembrança uma economia onde o lavrador era o ator principal dum teatro vivo, verdadeiro e único. Uma economia lenta, pesada sobre rodas de madeira revestidas a ferro. Valongo terra de batata, de pão. E de vinho, de bom vinho a par do melhor que se produzia nas encostas da Miuzela e de Vilar Maior.

A par do passado surge a vontade de um futuro que parece difícil: Casas restauradas, ruas calcetadas, caminhos tratados, vias  de comunicação alcatroadas, candeeiros iluninando as ruas, locais de lazer, placas sinalizando os locais de interesses, rotas pedonais, uma associação cultural.

Quando no Verão os moinhos de Vilar Maior, por falta de água, deixavam de moer, era aqui aos moinhos de Valongo que se trazia o centeio para ser transformado em farinha. Feita a malha, e com abundância de grão, era aqui que o lavrador transportava no carro das vacas uma carrada de sacos de centeio para fazer a moenda. Ou, então, mais frequentemente, carregava-se um burro com dois sacos. Foi assim que eu fui a Valongo há mais de 50 anos , num trotar de burro que parecia não chegar ao fim,  embalado pelas histórias do Júlio Bajajé a quem fui entregue para fazer esta viagem. 

IMG_2373.JPGE o Coa deu vida e nome a Valongo como a todas as povoações ribeirinhas que o marginam separando e unindo povos desde tempos muito antigos. No regresso acompanhei o rio com suas poldras e pontões, ladeado de amieiros, até surgir gigantesca a Ponte de Sequeiros, lembrando-nos que por aqui passou muito mundo, gentes, gados e bens.

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E para quem conhece bem as águas do Coa, atente na descrição que Frei Bernardo de Brito, fez delas. Que não sirvam para afugentar os veraneantes das praias fluviais. 

«O Rio Cooa, chamado dos antigos Cuda, como se vê na ponte de Alcantara é um dos grandes e afamados que hé em Lusitânia. Nace perto da villa de Alfayates, mete-se no Douro junto de Villa Nova de Fozcoa: he rio de muita cópia de peixe, como são barbos, bogas e bordalos, e outros modos de pescaria. A cor de suas águas é pouco clara, tirando a verde escuro: he de malissima digestão e muito pesada, causa tristeza e dores de barriga, e de cabeça, engrossa o entendimento, e para as mulheres fermosas he de muito pouco proveito, porque lhe dana o carão notavelmente, só tem virtude para tingir lãs e caldear o ferro, que nesnte particular é excelente». 

In,  Monarqui Lusitana, Parte V

PS. Gostaria de chamar atenção  para uma excelente monografia sobre Valongo, escrita por filhos da terra que é muito o retrato das aldeias do Sabugal

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publicado por julmar às 16:18
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