Terça-feira, 6 de Dezembro de 2016

Por Terras do Sabugal, passo a passo - Vila Boa

Visita 14-09-2016. Percurso: Nave - Vila Boa - Nave

Área -10,73 km² . Densidade populacional é de 22,6 hab/km². 

Evolução da população

1864

1878

1890

1900

1910

1920

1930

1940

1950

1960

1970

1981

1991

2001

2011

630

798

754

879

820

780

822

928

948

844

511

410

379

330

243

 

 

 

Poisei o carro ao cemitério da Nave e deitei pés ao alcatrão, estrada fora, tudo a descer, até à entrada de Vila Boa onde se encontra o cemitério. Logo a seguir, a água num extenso e trabalhado pio ou bebedouro para o vivo, sobretudo burros e vacas. A água, elemento fundamental, que um filósofo grego há mais de dois milénios escolheu para explicar a origem de tudo:tudo é água, tudo é feito de água.  A terra é uma espécie de embarcação que flutua sobre a água. Mais prática, a gente de Vila Boa sabia que sem água não se podia viver:nem plantas, nem animais, nem homens. E fazia parte dos elementos da natureza, caía abundante do céu, entranhava-se na terra, alimentava nascentes, formava ribeiros que se juntavam a outros e iam dar a uma ribeira maior que se lançaria num rio maior até chegar ao mar que a maior parte desta gente nunca viu. Se a seca se prolongava, colocando em perigo as culturas, o povo punha-se em procissão, encabeçada pelo sr padre, devotamente se rogava aos santos para que Deus derramasse chuva.sobre os campos. As orações estavam feitas ficaria nas mãos de Deus o seu atendimento. A água obedece à sua natureza e não aos desejos do homem e para que lhes seja útil têm que a domesticar represando-a, canalizando-a, guardando-a, orientando o seu curso, aproveitando a sua força. Boa parte do tempo é gasta com cuidar da água: transportá-la para casa, regar as culturas dos campos, dar de beber ao vivo, lavar a roupa, fazer a barrela, amolecer o linho, amassar o pão, fazer o caldo dos homens e a vianda dos animais. E apetece dizer como o outro: a água serve para muitas coisas e até, dizem, que há quem a beba. Em terra de muito vinho, e em Vila Boa era bom e abundante, preferia-se este e até se dizia do home pantanoso, sem sem préstimos maiores que é um bebe águas.

Manuel Joaquim Correia refere Via Boa como "um lugar muito úmido e pantanoso donde tem resultado o aparecimento de várias epidemias, tais como o tifo em 1882 e 1883, que dizimou consideravelmente a população". A àgua que se consumia era quase sempre tirada de fontes de chafurdo ou de locais parados. Não havia canalizações, não havia sistemas de esgotos. A única análise tida como segura era o dito popular: àgua corrente não mata a gente. Mas como isso podia falhar acrescentava: E se a matar é para sempre. Decerto essas epidemias ficaram na memória e o povo foi procurando melhorar as condições de sanidade e terá construído pios e chafarizes e até chamado a atenção sobre cuidados a ter como nos mostram os versos inscritos por cima da bica corrente

Pede-se pela saúde dos animais

Para quem está água sujar

Vingança severa e justiça

Sobre quem assim pretende matar

 

O bebedouro dos animais

Não serve para alguém se lavar

Nem vasilhas sujas ou fuscas

Para água na bica ou pios apanhar

Vila Bôa, 19  de Agosto de 1962

IMG_3080.JPG

 

E nada como pôr o Santo Antão, protetor dos animais, a guardar a água. 

Passeei-me pelas ruas de Vila Boa rememorando o passado inscrito nas ruas com casas de lavradores, de tantas vidas que por ali passaram. 

IMG_3087.JPG

 Parei e ali fiquei a olhar para esta casa, igual a tantas outras,  a lembrar um mundo em que eu vivi. E perdido neste olhar, sou acordado, não pelo rodado de um carro de vacas mas pela carroça que lhe sucedeu.

IMG_3081.JPG

 E para sacudir recordações, atirei:

- Que lindo par de namorados. Deixam- me tirar um retrato?

- Pois faça! ,respondeu o homem.

- E para onde nos leva?, perguntou a mulher

- Comigo!, respondi

- Veja lá se nos leva pra a internet

- Ficam bem em qualquer lado.

Um pouco à frente meti conversa com a ti Maria da Conceição que falou da Festa do Santíssimo Sacramento, da festa do Santo Antão, dos emigrantes que abalavam e deixavam, de novo, a terra sem ninguém, dos dois filhos, até me perguntar: 

-Atão de onde é vossemecê?

- Sou de Vilar Maior

- Então, conheceu lá a senhora Assunção, casada com um polícia.

- Sim, conheci. 

E desfiou o rol de graças e favores que a senhora lhe fizera por ter tido em sua casa o seu filho que andava a estudar na Guarda. Disse-lhe eu que a conhecia muito bem, pois, era minha tia e madrinha. 

Pequeno é o mundo.

 

publicado por julmar às 11:28
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