Segunda-feira, 10 de Abril de 2017

Restaurar a Forca da Vila, é preciso

forca duarte.jpg

                     (Livro das Fortalezas de Duarte d'Armas)

Uma das funções da linguagem é a designação das coisas. Com o decurso do tempo muitas coisas deixam de existir. Porém, o nome, por vezes, sobrevive a esse desaparecimento como é o caso de muitos topónimos. No sítio dos Chães da Forca – a gramática diz que devemos dizer Chãos mas quem manda é o povo que é quem faz a língua. Acontece que essa elevação onde ficam os ditos chães se chama o Monte do Arreçaio. Já num outro post falei deste topónimo afirmando que a palavra arreçaio será uma palavra do português arcaico que significa receio. Na linguagem da gente da vila é (era) muito comum antepor-se a partícula a algumas palavras, nomeadamente, ao substantivo receio e ao verbo recear (arrecear, arreceio). E, seguindo a lei do menor esforço, deixam cair um r e pronunciam o lugar dizendo monte do Arsaio. Ligam-se assim pelo mesmo sentimento – o medo – os dois topónimos que assinalam idêntico lugar: Monte do Arsaio e Chães da Forca.

A tudo isto subjaz uma realidade histórica que se encontra documentada no caso concreto de que falamos. A forca (e o receio que provocava) já não existe, mas temos o desenho de Duarte d’Armas (Livro das Fortalezas) onde aparece representada. 

Resta da forca apenas o resto daquilo que seria a sua plataforma: uma construção quadrangular de cerca de quatro metros de lado (equivalendo a uma área interior de dezasseis metros quadrados), com muros de pedra mediana com cerca de 75 centimetros de altura. Talvez a altura original tivesse um metro de altura, dada a quantidade de pedra caída ao longo dos muros, o que aliado à elevação do lugar (790 metros de altitude) lhe dava uma visibilidade extraordinária de todos os pontos da povoação. Dali se defronta uma bela e imensa paisagem. 

A forca articulava-se com uma outra peça do sistema judiciário da época: o Pelourinho. Neste se acorrentavam os criminosos sujeitos a castigo e à exposição ao olhar e vexame público. Se estavam condenados à morte eram conduzidos até ao Monte do Arsaio para serem enforcados. O corpo ficaria pendente na corda, não sabemos por quanto tempo, para que todos pudessem ver a pesada mão da justiça e, assim, fossem dissuadidos de práticas criminosas. 

É preciso restaurar a forca da Vila. Nada de arreceios porque a intenção não é meter medo, nem enforcar criminosos mas ajudar-nos a aprender um pouco. Por outro lado, se queremos dinamizar o turismo (turismo cultural) teremos de procurar construir narrativas que de forma material possam ilustrar a nossa história que é também a história do Homem. Um tal restauro, por força da visibilidade do lugar, ao lado de uma cruz erigida no anos sessenta, convoca o olhar de todos os que vivitem a Vila.

Fica caro? Penso que quinhentos euros serão suficientes para comprar três traves e colocá-las no local. A corda, faço questão de ser eu a oferecê-la.

 

publicado por julmar às 15:33
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