
Natal
Por não chegar a tempo é que Maria
Assim cantou um vate já arcano
Não deu á luz o filho que trazia
Aqui no nosso sabugal raiano.
Se o tempo precedente ao santo dia
Em que um deus por nós se fez humano
Tardasse mais mês e chegaria
Para ser o milagre lusitano
Aqui no Ribacoa acastelado
Presépio de contorno inimitado
No orbe eu não sei de outro melhor
Diria á virgem santa São José
Procurar outro berço para quê...
Será novo Belém Vilar Maior
Dr Leal Freire

Celebramos 50 anos de união de um casal amigo - O Toninho e a Maria Cândida - um casal daqueles que se confundem com a própria história da aldeia. Cinquenta anos vividos permanentemente aqui, na nossa terra, que é também o berço de antigos ascendentes do Toninho e o chão onde criaram raízes profundas, firmes e duradouras.
Ao longo destas cinco décadas, não se limitaram a viver na aldeia: deram-lhe vida. Foram empreendedores, inovadores, visionários no seu tempo. Quem não se lembra da primeira lambreta do sr. Zé Pedro, do primeiro táxi, do primeiro trator, ou ainda do primeiro alambique industrial? Ou, mais recentemente, com a implementação do Turismo Rural? Pequenos grandes marcos que trouxeram progresso, movimento e futuro à comunidade, quando tudo parecia mais difícil e distante.
Mas se a inovação marcou o caminho, foi a família que lhe deu sentido. Souberam “prender” os filhos e, mais tarde, os netos — não por obrigação, mas por pertença, por afeto, por exemplo. Garantiram assim a continuidade da família e também da comunidade, mantendo vivos os laços, os valores e a identidade da aldeia.
Hoje, nas vossas Bodas de Ouro, ficam os meus mais sinceros parabéns, a admiração e o agradecimento por tudo o que representaram e representam. Deixo este registo neste blog para que a vossa memória perdure, inspire os vindouros e continue a contar a história de quem construiu futuro sem nunca abandonar as suas raízes.
Parabéns pelos 50 anos. Que venham mais, com saúde, união e a mesma força de sempre

Esta espada é um indício material forte da ocupação antiga que, junto às gravuras rupestres, outros achados e à topografia - o castelo no cume de um monte com boa visibilidade sobre o vale do rio Cesarão - de que este monte tenha sido ocupado desde o Bronze Final e que depois se tenha transformado num povoado fortificado (um castro ou equivalente) durante a Idade do Ferro, que mais tarde foi romanizado e, muito depois, medievalizado com o castelo que vemos hoje.
A História faz-se, antes de mais, com fatos. Uma espada foi encontrada. Sabemos como, sabemos onde, dabemos quando, sabemos quem. Temos documentos escritos e testemunhos orais.
Para uma melhor e mais fácil leitura para todos fiz a transcrição do documento da cópia do documento que o Carlos Gata nos apresentou, a quem ficamos gratos (pela imagem também); igualmente gratos ao José Fonseca pelo testemunho recebido do autor do achado o Sr João Valente.
Declaração
António Lopes Quadrado, licenciado em Direito, presidente da Câmara Municipal da Guarda, declaro que recebi do sr João Valente, casado, proprietário, morador em Vilar Maior, uma espada de bronze para ser depositada no Museu regional da Guarda, devendo o sr João Valente receber da Câmara Municipal da Guarda a quantia de dois mil escudos a título de compensação.
Logo que a espada seja avaliada por peritos indicados pela Junta Nacional de Educação e lhe seja atribuído um valor superior a seis mil escudos, a referida espada ficará pertencendo à Câmara Municipal da Guarda depois de efetuado o pagamento do excedente ao senhor João Valente ou aos seus legais representantes.
Guarda, 8 de março de 1857
José Fonseca
"Quem encontrou a espada foi o Senhor Joaõ Valente e embora ele tenha semeado centeio dentro do ressinto d'as muralhas e fora naõ sei quantos anos a espada naõ foi encontrada nesse sítio mas sim no terreno dele que se encontra do lado esqerdo estando a gente em face da grande porta d'as muralhas e esse terreno está cercado por uma parede e foi quando ele andava a rutiar com uma enchada num recanto desse terreno para plantar umas videiras, e nesse sitio encotraõ se dois grandes barrócos perto um do outro, e foi nesse momento ao ele cavar muito mais fundo do que era abitual cavar ou labrar para semear centeio ou outras coisas,e foi entaó num certo momento quandoele estava lançando a enchada á terra que se aperssebeu que tinha.batido numa pessa de metal porque quando bateu onde tinha batido com a enchada ficou a briller,Entaõ ele recuperoua levoua para casa e a pas no téton a entrada da porta de casa"

Ainda que um pouco atrasado, quero que neste sítio, onde há um espaço para o 'Liber Mortuorum', fique o registo de Agostinho da Palma Teixeira, viúvo de Maria da Conceição Valério Dias, filha de Filipe Dias Badana e de Ana Valério. Terá chegado a Vilar Maior há cerca de 50 anos, aquando da descolonização de Angola (11-11-1975) e, como todos os 'retornados', terá sentidos as dificuldades de recomeçar de novo. Foi assim que começou o Café do Pelourinho que funcionou durante alguns anos. Depois passou a residir no Sabugal onde terminou os seus dias. Aos amigos e familiares apresento as minhas condolências.

(Fotografia de Carlos Gata)
Mudam-se os tempos, muda-se a paisagem. Os que nasceram no século XXI, nunca viram nada assim. A fotografia será da década de 80. Com a emigração iniciada no início dos anos 60, a economia tradicional baseada na pastorícia e no amanho da terra com o arado, a charrua e a enxada foi sendo abandonada. Primeiro abandonou-se a cultura do centeio, depois deu-se o abandono das vinhas (com a ajuda da CEE que subsidiava o arranque das mesmas), depois as veigas onde se cultivava a batata, o milho, o feijão e o linho até ficarem apenas as Hortas da Ribeira onde uma grande parte das famílias tinha uma pequena leira onde cultivava legumes e hortaliças ( alfácias, couves, tomatas, pimentos, pepinos, melões, etc). Os quintais do Cimo da Vila, terra secadal, onde não entrava o arado, era, cultivados com batata - que era arrancada mais cedo, quando a tulha já tinha terminado - , com couve galega que, na ausência de outra hortaliça, era o que compunha a panela do caldo, com gravanços e uns pés de cardo para coalhar o leite. Tudo foi terminando à medida que se instalavam os "Intermarchés", superfícies comerciais onde, a troco de dinheiro se tinha tudo, de pior qualidade.
A fotografia, em vésperas de primavera, mostra-nos quintais já semeados, algumas hortas já preparadas para a sementeiras, um rio limpo com o azul do céu refletido, um pomar bem alinhado, casas inteiras com telhado.
Falta a fotografia atual para ver o contraste, esperando por fevereiro para a editar neste post.
E, enfim, agradecer aos últimos resistentes que nos últimos anos lutaram para que a paisagem se aproximasse do que havia sido - José Viana, António Seixas, José da Cruz, Fernando Cerdeira, Adriano Seixas, João Marques e, no presente, António Cunha, Carlos Martins e, se tivesse de haver um prémio iria para António Robalo e Manuela Prata. As desculpas a alguém de que me tenha esquecido.
Desta vez fui bem enganado. Eu que tenho um blog que alguém, com alguma razão, apelidou de obituário, encomendei o presente livro por pensar que o autor trataria, a sério ou a brincar, da perpetuação do legado dos defuntos. Porque na minha aldeia todas as pessoas são importantes e todas têm uma história que mereceria ser contada, sempre que os sinos tocam a sinal para anunciar (onde o som dos sinos chega) a morte de um conterrâneo, eu no blog faço chegar a notícia até aos confins da terra. Primeiro era o sacristão (o ti Junça, o Daniel, o Alexandre e, por fim, o Chico), agora, que não há sacristão, é um mecanismo elétrico que coloca os sinos a badalar ou mais exatamente a martelar. Não é a mesma coisa. Também eu um dia morrerei e ninguém mais saberá quem morreu, nem escreverá as breves linhas deo epitáfio do 'requiescat in pace'. Até já me passou pela cabeça escrever o epitáfio de todos os velhos da aldeia, incluindo o meu, e deixar encarregado alguém que na hora carregasse no botão: publicar. Dizem os entendidos que uma das primeiras manisfestações ou expressões de humanidade tem a ver com o culto dos mortos provado ao longo da história quer por monumentos gigantescos como as Pirâmides dos egípcios, pela diversidade de artísticos túmulos e de panteões, aos túmulos escavados nas rochas ou ás campas rasas do cemitério da minha aldeia. Pois, o meu blog é, assim, uma espécie de necrópole onde poderão ver a fotografia do ente querido e umas breves palavras que espelham o melhor da sua viagem terrena. Talvez, com o passar dos anos seja quanto fica, não lavrado em pedra mas numa matéria imaterial, perdoe-se o paradoxo. Concluindo, acho, pois, que é um trabalho valioso. Preservar a memória dos mortos. Com a vantagem de que nenhum deles reclamará.
Mas, afinal, por que fui bem enganado?
Porque, esperava uma coisa e saiu-me outra que está completamente dentro dos meus interesses: Andar. E li com gosto a descrição da viagem que o personagem principal faz : O Caminho de Santiago que sempre quis fazer, não fiz e agora não sei se ainda me atrevo.
Como ensinamento devemos saber que no caminho de Santiago ou no caminho da vida todos transportamos uma mochila. Devemos saber o que transportar nela e o peso que carregamos. Saber o que é necessário, deitar a tralha fora.

Ao centro Júlio Palos, ladeado por dois elementos : António Luìs de Britoda, maestro e José Pina, Diretor da Banda Filarmónica de Loriga
Segundo testemunho de um dos presentes na fotografia, António Luís de Brito, estamos no ano de 1969. O chafariz, com inspiração na arquitetura do castelo, cujas ameias inferiores serviam para colocar os cantâros, era um monumento recente que para além da serventia de àgua com duas bicas, era o orgulho dos vilarmaiorenses, procurado para tirar uma foto de memória para os vindouros. Como esta. O chafariz tornou-se um lugar de intensa sociabilidade: Era às mulheres que incumbia irem buscar o cântaro da água, mas eram sobretudo as raparigas solteiros que o desejavam, pela água mas, sobretudo, para se mostrarem. Como a Leonor de Camões:
Descalça vai para a fonte
Descalça vai para a fonte
leonor pela verdura;
Vai formosa e não segura.
Leva na cabeça o pote,
O texto nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata.
Sainho de chamalote;
Traz a vasquinha de cote.
Mais branca que a neve pura;
Vai formosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro o trançado,
Fita de cõr de encarnado,
Tão linda que o mundo
espanta;
Chove nela graça tanta
Que dá graça a formesura;
Vai formosa e não segura
Ao aproximar-se a festa do sr dos Aflitos, os rapazes solteiros, grupo com um estatuto especial, roubava, durante a noite, os vasos de flores que as raparigas solteiras haviam cuidado, sabendo bem ao que estavam destinadas: enfeitar o chafariz durante os dias da Festa.

Um lavrador tinha de ter brio na arada. Nem sempre se podia lavrar a direito. Olhando para o quadro a lavrar, teria de calcular por onde começar e como iria terminar. Se seriam regos a direito ou em curvatura ou, ainda, se teria de meter regos em falso. Pois, aí tem na fotografia como, dentro das muralhas circulares o lavrador, talvez o ti João Valente que encontrou a célebre espada da idade do bronze, executou a sua arada em geometria curvilínea. A população era muita e os recursos eram escassos. Toda a terra arável tinha de ser aproveitada, neste caso para a cultura do centeio. Estávamos na década de cinquenta do século XX. No século XIX, com a proibição dos enterros nas igrejas, houve um projeto para que, aqui, dentro das muralhas se fizesse o cemitério, não tendo acontecido por se verificar que o terreno não erá propício. O património estava abandonado, os rapazes mostravam a sua valentia em subidas arriscadas à torre de menagem, os namorados aproveitavam um passeio dentro de muralhas, os garotos divertiam a atirar pedras ao castelo ou a mostrar a sua força derrubando as muralhas. Não havia turistas, além dos conterrâneos urbanos que, em família, iam ver o castelo e tirar uma fotografia. Neste caso os visitantes são da família Simões Ferreira e Araújo.
(Da esquerda para a direita: Beatriz, Filomena, Ana Joaquina (mãe), Ana e António.)
Há fotografias, como esta, que falam connosco. A mãe das três jovens, Joaquina Dias (1890-1950) - Pchiu, meninas - nasceu nos finais do século XIX. Os outros figurantes nasceram no primeiro terço do século XX e morrem no primeiro quartel do século XXI. O homem na foto, António Seixas é recém-casado com Ana. Não se encontra o filho mais novo, João, irmão das três jovens que, provavelmente, se encontraria na tropa e viria a ser polícia ou poderá ter sido o fotógrafo.Também não está na foto o pai das jovens, José Duarte (1989 - 1947). As jovens encontram-se com roupa de dias especiais e, dado o ar triste dos rostos e a cor preta dos vestidos, poderá ter sido o funeral do pai. Um pormenor, todas se encontram bem calçadas, de onde se conclui que nem sempre se cumpre o provérbio: "casa de ferreiro, espeteto de pau". Na verdade, como acontecia noutra famílias o nome da profissão sobrepunha-se ao nome de família, assim se acrescentando ao nome próprio dos filhos (João Sapateiro, Ana Sapateira ...). Ao tempo, havia na Vila, entre outros artistas e artesãos, uma trilogia inseparável no tempo que lhes sobrava dos respetivos ofícios, com visita obrigatória à taberna do sr Gata: Carlos Duarte, sapateiro; José Seixas, pintor; Albino Leonardo, latoeiro. Quando os copos se sucediam, a conversa animava-se e acabavam sempre por defender o ofício que praticavam como o mais imprescindível na vida das gentes da vila.

Sou António Cerdeira Seixas e cheguei à Vila no dia 20 de Dezembro de 1924, faz hoje 90 anos. Nenhum de vós tinha chegado, salvo o meu primo Fernando que chegara há dois anos. Em 90 anos o mundo e a vila mudaram muito e a minha vida também. Quando cheguei não havia estrada, não havia eletricidade, não havia televisão nem rádio, não havia telefone.
Apesar de tudo, cheguei.
No ano em que cheguei, acabavam de construir um cemitério novo com a pedra de uma igreja muito antiga, a Igreja de Nossa Senhora do Castelo; nesse mesmo ano, três meses antes de eu chegar, tinham inaugurado a Capela de Nosso Senhor dos Aflitos, pois, à capelinha acrescentaram o corpo, feito com pedra de uma igreja muito antiga a Igreja do Espírito Santo. Nem uma cruz, em pedra, deixaram a testemunhar o sagrado lugar.
Apesar de tudo, cheguei
No ano em que cheguei, mais de metade dos que chegaram, morreram passados poucos dias, meses ou anos. A vila era uma fábrica de anjos. Não havia, por perto, farmácias, hospitais, médicos, ou Segurança Social. O pão era escasso e negro como o diabo que o amassou.
Apesar de tudo, sobrevivi.
Durante estes 90 anos muitos chegaram, muitos partiram.
Ainda aqui estou convosco, enquanto Deus quiser.
Todos nós temos a nossa história. A minha vai longa, é um livro com muitos capítulos, com muitas páginas e as infinitas linhas da minha vida cruzam-se com as vossas próprias linhas de sangue, de palavras e de obras. O privilégio de nascer na vila, de viver na vila, de morrer na vila é poder ter tantos parentes, ter tantos vizinhos, ter tantos amigos.
A minha mãe, que perdi antes de completar quatro anos de idade, corria a primavera de 1928, chamava-se Ana. Tinha três, irmãs: a Filomena (mãe da Leonor que casou com o meu irmão César); A Justina, mãe do Xico Cunha; a Maria. Tinha dois irmãos o Francisco (1891-1965) e o Manuel (1891-1965). Todos eles filhos de José Cerdeira, pastor, e de Isabel dos Santos, tornaram-se numa das famílias maiores da Vila que enquanto a emigração não chegou se cruzaram com os diversos ramos de outas famílias, por regra, da vila também: Com Monteiros, Cerdeiras, Caramelas, Silvas, Lavajos, Fonsecas, Proenças, Santos, Cunhas, Seixas, Pratas, Badanas. Por via dos Cerdeiras, para além da costela de Eva, terei uma costela galega, se verdade for que os Cerdeiras da Galiza aqui vieram parar.
O meu pai, José Seixas (1884-1948), era filho de João António Seixas, com a profissão de caiador, e de Ana Monteiro (1852-1917) que tiveram ainda, a Isabel e o Bernardo, gente de que só os mais velhos se lembram. Casou com a minha mãe no dia 5 de Fevereiro de 1916, ele com a idade de 32 anos e ela de 26 anos. Quando cheguei já tinha cá o irmão César e a irmã Isabel. A Hermínia chegou e foi antes de mim. Depois mais uma Hermínia que chegou e foi depois de mim. Mais dois anjinhos a aumentar a corte celestial. Todos Cerdeiras de mãe e Seixas de pai.
A mãe morreu. Não me lembro. Meu pai precisado de mulher para ele e de mãe para os filhos, casou em Novembro de 1928 com Mercês Dias, de 27 anos, natural de Badamalos. Nasceu, então, a Maria, o Adriano e o João.
A esse tempo não havia meninos, mas garotos; não havia educação mas instrução. Os pais davam a criação que, para além do sustento, significava tornar os filhos bem-mandados o que se fazia seguindo o dito popular, que fazia lei na ausência dela, Quem dá o pão, dá o pau, e se o primeiro andava arredio, o pau estava sempre à mão. Os mal-mandados eram malcriados que a desobediência sempre foi a causa da desordem e por mor dela é que andamos neste vale de lágrimas. A instrução primária na escola seguia o mesmo objetivo – ser bem-mandado – e seguia o mesmo método – com a imprescindível régua, que com regra e régua se haviam de fazer gente bem mandada.
Devo confessar que ainda que me tenham aplicado o método com rigor, o objetivo ficava muito aquém, o que levava sempre ao reforço do método.
Os anos passavam e, quase sempre, com mais pau e menos pã, ia crescendo à pressa e pouco, o suficiente para aprender o essencial à vida, procurar o bem e fugir do mal, baseado em estratagemas e artimanhas, em safar-me desta que depois logo se vê, porque enquanto o pau vai e vem folgam as costas, uma filosofia prática que não havia tempo para cogitações. A artimanha era para os filhos do deus dará a mais necessária de todas as artes, a única mesmo que resultava na luta pela vida.
Mas, porque filho de peixe, sabe nadar, ainda que contrariado, lá ia, ajudar o meu pai caiador, abranger-lhe isto e chegar-lhe aquilo, fazer-lhe um recado a este e outro aquele, ir ao comércio comprar uns pregos caibrais, com umas lamparinas pelo meio, por mor de não fazer as coisas como lhe era dado. Foi assim que de garoto passei a rapaz e, mais, do que pensava, aprendi as regras do ofício de meu pai, mesmo as que eram segredo seu: a composição das cores. Sempre que chegava esse momento, para ele um ritual sagrado, havia de arranjar maneira de que eu não visse e me afastasse do local e do momento. Umas vezes espreitei, outras vezes a D. Balbina minha protetora tomava nota para depois me transmitir as doses, sequências, jeitos e formas de confeção que faziam o milagre da cor, em mistura de que resultavam cores inigualáveis. Quem disto duvidar que dê um passeio pela Rua de Baixo e que atente nas sancas dos beirais deteriorados, nas orlas de janelas a desfazerem- se, no reboco gasto pelo tempo a desprender-se … e lá está a cor como se imanente fosse aos materiais.
Era isto que o ti Zé Seixas temia, que alguém se botasse a fazer tintas como só ele fazia.
- Nem o meu Tonho algum dia o saberá! Nem o meu Tonho! Dizia para si e disse-o aos amigos um dia em que o vinho foi mais generoso.
Disse-o, em voz baixa, ao Zé Duarte, Sapateiro e ao Albino Leonardo, Latoeiro, uma trindade cujo deus das horas vagas era baco, o único a que verdadeiramente adoravam naquele altar que era a taberna do senhor António Gata. Ali, alongavam as horas como se o mundo e a vida passassem a uma dimensão transcendente e só ali encontrassem perguntas e respostas incomuns. O Albino dizia, solene, em parte adiantada do cerimonial:- É do vinho – digo-vos- é do vinho que virá a salvação da humanidade. Convicto da sua tese, resolveu proceder ao surribamento de terras para plantação de vinhas, tanto quanto o amealhar do ofício e a bondade da sua Zabel lho permitiam. E do muito vasilhame que lhe saía das mãos a sua preferência ia para os cântaros para medir e transportar o líquido salvífico e para os funis grandes para o introduzir em enormes tonéis. Sem vinho, nem verdade, nem salvação! In vino veritas
Para o Zé Duarte era diferente. O mundo é o que é, mesmo quando o vinho o inspira, o mundo não deixa de ser o que é. O melhor que há a fazer é aceitá-lo e ajeitarmo-nos a ele. E numa filosofia feita de evidências não pensadas dizia que as imperfeições e as asperezas da vida é que são a razão de haver ofícios como o dele. E virando-se para o Leonardo que era homem que vasculhava livros antigos e outros de sabedoria oculta, como o Livro dos Engrimanços do S. Cipriano, questionou-o sobre como é que Adão e Eva podiam sair do paraíso para a terra, sem caminhos feitos, e sem calçado que os protegesse de espinhos e abrolhos. Não iriam muito longe, a menos que a Terra ficasse logo ali ao virar da esquina.
Deixados os éteres tabernais, baixado à realidade banal e brutal, o que o meu pai temia era a concorrência, porque eu, garoto a caminho de rapaz, para ganhar algum, fazia os ajustes mais baixos e, não me tendo instruído muito na escola, depressa a vida me ensinou a fazer contas sem prova dos nove mas com prova real. Claro que as minhas tintas não eram as tintas do ti Zé Seixas, mas quem se interessou pelas tintas do ti Zé Seixas senão ele mesmo? Estou em crer que meu pai era um artista capaz de perder tempo e dinheiro a fazer pintura para olhos que a não apreciavam. Há pinturas dele no coro da Igreja de S. Pedro, alguém repara nelas? A pintura do Escudo de Armas na parte inferior do coro, que eu lhe vi fazer, taparam-no, sem cerimónia, com o para-vento da porta principal. Meu pai, sim, era um artista. Um artistão, diria o Zé Vicente, uma alma cujo génio ficou encolhido no emaranhado das circunstâncias atrofiadoras do espírito criador.
Eu sou um artesão com gosto na obra bem feita, mas sem paciência para esperar por amanhãs longínquos. Impaciento-me se o caldo demora a chegar à mesa, se a fruta fica serôdia no amadurar. Por isso, porque o sol não tem pressa tanta vez me levantei antes dele. Sei que é preciso dar tempo ao tempo mas desgosto-me que assim tenha que ser. Talvez porque tive que me fazer à pressa: se ficava para trás ninguém me esperava, caída a noite ninguém me procurava, se não comia ninguém se ralava. Assim que pude libertei-me do mando do meu pai a quem servia a troco de quase nada, justando um reboco aqui, uma taipa ali, uma pintura acolá, tudo coisas de pequena monta mas que me permitiram dar cumprimento à maldição bíblica do “ganharás o pão com o suor do teu rosto” e ser dono de mim mesmo, pela primeira vez, o gozo de ter dinheiro, de poder dispor dele, de comprar um espelho e um pente, uma caneta de tinta permanente, um relógio, de comprar uns sapatos, uma navalha. Mais do que tudoisso, um lenço para oferecer à Ana. Sim, à Ana filha do amigo de meu pai, o Zé Duarte, o ti Zé Sapateiro.
A amizade descobri-a desde cedo na partilha da condição de outros garotos como eu, filhos do deus dará, que era o único que cuidava de nós. Na ausência do que de nosso pudéssemos partilhar, congeminávamos idas aos ninhos, subidas a sítios impossíveis, desafios de cuspir longe e de mijar alto, de atirar pedras mais longe, cada vez mais longe, de fazer uma barrela ao Pantaleão ou de atentar o tonto de Valongo. E, claro, mais do que ir ao rebusco, roubar fruta pelo prazer de roubar e pelo prazer da fruta. Nada há que saiba tão bem como fruta roubada.
O amor é coisa mais complicada que a amizade. Não se sabe quando vem, não se sabe como chega: talvez seja uma chispa nascida de um cheiro, de uma cantiga atirada ao ar, ou, mais provável, de um olhar. Aceso o lume será, ora brando brasio ou labareda intensa, ou incêndio indomável reduzindo tudo a cinza. E a cinza pode parecer apenas cinza, mas, por vezes, há uma brasinha que restou escondida e que, acarinhada, reacende a chama do amor. As vidas longas, se são vidas vividas, passam por tudo, por isso,
Apesar de tudo, estou aqui.
(aniversário dos 90 anos comemorado no Centro de Dia)
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