Domingo, 23 de Agosto de 2009

Requiescat in pace, Padre Francisco Vaz

 foto 

Estive, pela última vez, com o padre Chico faz um ano aquando da inauguração do lar da Bismula. Falou-me do seu estado de saúde e recordámos tempos antigos. Recordá-lo-ei sempre como um homem voluntarioso, optimista e íntegro. Vilar Maior e Aldeia da Ribeira foram as suas primeiras paróquias, logo a seguir à sua ordenação como sacerdote no ano de 1966.

Aos familiares apresento as mais sentidas condolências.

Faço republicação de um post deste blog de 2006.

 

 

Vaz, Francisco Santos (2003) Nordestinas e Sabatinas, Crónicas ficcionadas do quotidiano aldeão, Sabugal, Edição do autor

Padre Francisco:

Foi com satisfação e sem surpresa que recebi de minha mãe, «Nordestinas e Sabatinas», o livro que lhe mandou entregar-me. Sem surpresa porque várias vezes me interrogara por que ainda não havia reunido em livro crónicas dispersas que ao longo dos anos foi produzindo. Com satisfação e com emoção porque me apraz recordar alguém que positivamente fez viagem numa parte importante da minha vida e dela me ensinou sem querer ensinar. Iniciou a sua vida de pároco num tempo, num contexto e num espaço que partilhámos e com sonhos de uma vida boa que não queríamos só para nós. Em tempos difíceis em que as estradas eram de pó no Verão e de lama no Inverno e em que a escuridão das noites longas e escuras de Inverno eram cortadas pelo moderníssimo candeeiro a gás, que contrastava com as humildes candeias de petróleo ou os um pouco menos humildes candeeiros de igual combustível. O seu exíguo escritório era, então, para mim, nas férias que passava na aldeia um pequeno oásis: Para além, da conversa possível entre um adolescente progressivamente descrente na sua vocação sacerdotal e um padre estreante nas lides paroquiais, havia a música em discos de vinil a quarenta e cinco ou trinta e três rotações (lembra-se do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, do Carlos Paredes - quem nos iria aí incomodar por ouvir essa música?-, do Jacques Brell, do Juan Manuel Serrat entre outros). Havia uma máquina de escrever com a ajuda da qual actualizou todo o registo paroquial e na qual escreveu muitas das crónicas que agora reúne em livro. Havia também os livros. De todos recordo, «Os Canhões de Navarone» a «Trilogia Perfeita» de Francisco Costa e, de um modo particular, «D. Camilo e o seu pequeno mundo». Sem aquela velha televisão alimentada por uma bateria, eu, e quantos conterrâneos como eu, não teria assistido ao mais extraordinário acontecimento do século XX – a chegada do homem à Lua! Tinha havido o Vaticano II, e a Igreja vivia um momento de grande renovação da qual participava entendendo que não pode haver vida espiritual digna sem uma vida material decente. As suas homílias dominicais afirmavam-no das mais variadas formas, e nem sempre a verdade dita era politicamente correcta, como hoje soe dizer-se. Nem sempre a acção e o gesto tinham em conta o amadurecimento do tempo. Mas nós não somos de uma terra morna: quando é frio é frio e quando é calor é calor e com isso nos livramos da maldição evangélica dos que não são carne nem peixe. E ouvi ou li, que eu não era capaz de o inventar, que um homem para ser perfeito tem que ter pelo menos um defeito. Já lá vão para cima de 30/40 anos. Longos anos para as nossas curtas vidas. E no entanto, sentimos hoje que tudo isso teve sentido e que as reclamações, queixas, reivindicações das suas crónicas tiveram cumprimento. Tinham que ter cumprimento mas era preciso gritar que éramos gente e como tal queríamos ser tratados. Queria-lhe dizer também que soube semear, estimular, guiar, fazer crescer. Porque aos mais novos é necessário deixá-los experimentar, dar-lhe oportunidade: - Ó Júlio, faz um artigo para o «Arraiano», sobre a festa. E na verdade, foi a minha experiência na escrita publicada. A mim e a outros foi dizendo que era necessária uma associação. Deitámos mão à obra e a associação nasceu. Se como as árvores crescemos, enraizamos, damos flores e damos frutos, considero que a sua palavra, dita e escrita, é flor e é fruto. Como flor alegra-nos no perfume e na cor do tempo da «aldeia da triste sina», da vida difícil de então, mas de uma vida cheia, de uma vida boa, ainda que não de boa vida; como fruto tomamos-lhe hoje o merecido sabor de ter mudado um pouco a sina de todos os que, como eu, viajámos no mesmo combóio e na mesma carruagem. Júlio Marques

publicado por julmar às 21:39
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16 comentários:
De Sonhadora a 30 de Agosto de 2009 às 15:25
O primeiro comentário não foi feito por mim, embora concorde totalmente com ele.
Tenho de concordar com alguns de vós numa coisa, a muita gente com o "rabo entalado" neste assunto tão delicado, "tanto é ladrão o que vai à horta como o que fica à porta", por isso muita gente não vê o que é evidente!


De João que chora a 30 de Agosto de 2009 às 21:04
Que credibilidade tem a «Sonhadora?»? Exactamente a mesma que a Anónima que se apressou a fazer o primeiro comentário. Como não havia de dizer «embora concorde totalmente com ele»? se se trata exactamente da mesma pessoa?
«Tendo de concordar com vós numa coisa» Que grande lata! Então ainda não viu que ninguém concorda consigo? Ainda que arranje outra máscara o ódio há-de vir sempre a traí-la.


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