Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Histórias quase reais - Quando a terra ruge

O rapazito apascentava as cabras e ovelhas que, no lameiro cercado de parede, lhe davam o sossego para emigrar para o reino da fantasia e até o Farrusco, sempre vigilante, se veio sentar junto do pastor que farto do tempo que não passa se deitara sobre a erva costas assentes no solo olhando os farrapos de nuvens que o vento leve ora separava, ora unia desenhando no céu figuras de objectos, de animais de velhos, de crianças e, frequentemente, de bruxas. Às tantas, começa a ouvir um estranho rugido que parecia vir das entranhas da terra. Apura o ouvido contra o solo e … um ruído surdo. Para e volta a vir … umas vezes mais demorado, outras mais rápido. Por vezes, um tempo mais longo de silêncio, outras vezes menos intermitente. E o pastor começa a ficar deveras assustado. Testou outros lugares mas, na verdade, só ali se dava a ocorrência. Mais do que intrigado começou a ficar com medo. Há falta de uma explicação natural só podia ser coisa do diabo ou de almas que por não terem lugar no outro mundo vadiam perdidas na procura sabe-se lá de quê. E o rapaz, fazendo, repetidamente, o sinal da cruz, recolhe o gado e assarapantado mete-se a caminho da Tapada dos Picotes onde o pai decruava, rego para cá rego para lá, a terra com a pachorrenta junta de vacas. O pai que ouvira os chocalhos e campainhas estranhou que o Manel viesse com o gado para ali. Assim que o enxergou à parede do caminho, perguntou num misto de indignação e espanto:

- Atão, ó Manel?! C’andas tu a fazer cugado práqui?!

O rapaz bem se queria explicar mas não havia meio de as palavras saírem. E abria boca gesticulava mas nenhum som saía. E o pai começava a ficar preocupado que o filho tivesse perdido de vez a fala que já lhe haviam soado casos assim. Mas às tantas lá conseguiu tartamudear:

 - Ó pai, andam lá coisas debaixo da terra, uns barulhos esquisitos. Calam-se um bocadito e depois voltam … calam-se e depois voltam. Eu p’ra lá no volto cugado. E, dito isto, soltam-se as lágrimas em corrente contínua.

O pai até lhe daria duas lambadas não fosse o caso de bem ver que o caso era sério… ou que fosse um caso de bruxedo ou que o rapaz tivesse endoidado. Preferiu aliviar a situação e desviar a conversa.

- Vai ali p’rá tapada de cima que sempre lá comem umas cuanhas.

E o pai agarrado à rabiça do arado, rego para cá rego para lá, ia matutando e não conseguia apaziguar o espírito.

A caminho de casa e a cogitar sobre o assunto. Cada vez que o filho dizia: “Ó pai …“, este cortava-lhe, de imediato, a palavra:

- Caluda, hein!

E  em tom de secreta intimação: - Nem uma palavra! Ouviste? Nem uma palavra a ninguém. Nem à mãe! A ninguém, raio!

- Mas, ó pai, eu p’rá Casa dos Moiros (assim se chama o sítio, no vou mais cugado! E desata em choradeira pegada.

- Ó alma de cevada! Cala-te senão ainda te coço a bertoleja!

O choro e a caminhada libertaram-no da comoção e atreveu-se a dizer:

- Ó pai, se calhar são os moiros que andam lá debaixo da terra.

E iria contar a história, pela enésima vez, de uma moira que vivia no castelo se não fosse a voz do pai adverti-lo que sobre o assunto nem mais uma palavra.

Á ceia, a mãe sentiu que alguma coisa se passava. Comido o caldo quase em silêncio, o rapaz:

- Deite-me a sua bênção, pai! deite-me a sua bênção, mãe!

E e é quase certo que foi sonhar com os tesoiros que os moiros enterraram no castelo.

O pai volta para um lado, volta para o outro quase não pregou olho e assim que pela fresta da telha de vidro vislumbrou o amanhecer, moveu-se com jeito e sem ruído para fora da cama. Enfiadas as calças mais as botas e uma camisa, antes que na aldeia alguém se levantasse, pega numa sachola e sai passo estugado a caminho da Casa dos Moiros decidido a enfrentar o mistério.

Chegado ao sítio que o filho lhe indicara, no silêncio dos campos, poisou o ouvido sobre a terra e … lá estava o rugido!

- Ena cum catano! Cum mil raios!

Mas, ao contrário do rapaz que ficou transido de medo, nele cresceu a força toda e com a sachola que levava:

- Ah, cum raios que vos parta a todos! E ao dizê-lo, espetava com fúria a sachola no solo … uma, duas... e à sétima sacholada um jorro de água salta-lhe à cara.

Foi um banho de água fria que aplacou a ira e desmoronou o mistério e o misto de esperança e medo do pai em vir ali dar luta a um verdadeiro titã. Olhou em volta. Ninguém. Apressou-se a sair dali, deu uma volta maior e foi até aos Vales para entrar na povoação por um caminho que nada tivesse a ver com as Casas dos Moiros.

Ao fundo da Praça viu o Armando Duro, presidente da junta. Como quem não quer a coisa lá foi ouvindo as ordens ao Lavajo e ao Zé Forneiro : que seguissem os canos da água até à nascente; que os haviam de encontrar rotos nalgum sítio; que era preciso concertá-los; que o povo não podia estar sem água. E depois para os poucos que ali estavam feitos basbaques a dar fé do que se passava praguejou contra o cargo que exercia e que só lhe dava trabalhos, contra os canos que eram uma porcaria que volta e meia estavam a rebentar. Para piorar o humor teve de mandar calar a garotada que atentava a Maria Cuca (Ó Maria, já te vou roubar o sabonete!) que ao não encontrar água mandou duas carvalhadas das grossas.

 À noite era assunto na taberna, na ida ao chafariz e ao terço, dentro e fora de portas sobre quem seria o malandro com tamanha malvadez para, assim, cortar a água ao povo. E também sobre os castigos que um alma do diabo assim devia levar.

Júlio Marques

 

 

publicado por julmar às 16:49
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