Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

As palavras e as coisas - Os Cabeços

(Foto de Carlos Marques)

Já se falou de Tapadas e pela enumeração que Jarmeleiro fez ficámos com o rol completo. Se as tapadas são aráveis e propícias a culturas de sequeiro, nomeadamente o centeio, os cabeços são as zonas de maior altitude onde emergem rochas, algumas delas enormes – os barrocos - e que servem essencialmente ao pastoreio de gado ovino e caprino que tosa o pasto, bracejos, tojos, giestas, silvas, carrapiços vários. Nas penedias e fragas encontram habitação as raposas e os lobos que enchiam as nossas infâncias de medo.

Como por aqui todos os sítios tinham direito a nome não havia cabeço, por modesto que fosse, que não fosse nomeado. Então, continue a listar:

Cabeço da Porca, cabeço do Vale do Carapito …

 

publicado por julmar às 18:00
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7 comentários:
De Vila a 16 de Dezembro de 2010 às 21:41
Os chãos da forca....e mais não me recordo. Caso não haja alguém que acrescente mais uns tantos esperemos que o sr. Jarmeleiro comece a editar o rol.
Uma boa noite para ele e para todos os demais.


De Anónimo a 18 de Dezembro de 2010 às 19:47
Cabeço do Bispo


De Jarmeleiro a 20 de Dezembro de 2010 às 23:31
Ora atão vamos a ver se sou home pra igendrar aqui umas ideias sobre os cabeços da Vila. E até vou começar por dezer que o rol dos cabeços não é maior nem iguala o das tapadas. É que, muntas tapadas tendo terra lavradia tamém têm uma parte de cabeço mas nunca foi uso, dezer -se, o cabeço da tapada tal e da tal... Por môr disso os cabeços a nomear são poucos mas aquase todos têm uma história pra contar. E pra quem não saiba, inda poderei falar de barroqueiras , cabeços pequenos mas com umas certas condições que raposas e outros animais bravios escolhiam pra terem e criarem os filhos. Destas só vou nomear as das tapadas dos picotes, munto précurada plas raposas e a do cabeço dos Labaços , do agrado dos toirõis e dos taxugos . E era entre os fisgos dos barrocos desta barroqueira , cavados à enxada, que o ti Manel Adríão semeava o centeio pra seu sustento. E que bom pão ele ali colhia. Agora indo aos cabeços: Sendo lugares de pastagens do gado, pricepalmente ovelhas e cabras, nos mais importantes até paresque inda lá estou a ver as piaras de gado, os seus donos e os pastores que as guardavam, e não resisto a nomeá-los tamém . Começo plo Cabeço da Porca e que começa perto do Carvalhal e vem a morrer na aba entre os Galhardos e a Fonte Fria. Tem este por môr de lá ter um barrôco com o feitio de uma porca.
Ali perto temos o cabeço do Vale Carapito , que começa ali pelas Gaiteiras, vai até ao pontão da Pontaguarda chegando perto das Retortas de cima e Areal. Pra quem não saiba, há sítio na ribeira que nele passa chamado de poço Boisão perto do insumidoiro . Quem não conheça, vá lá no Inverno quando a ribeira fôr grande para a ver a insumir-se e voltar a aparecer bastantes metros mais abaixo. E a toada que faz até esremece e mete medo. Esta era a pastagem da piara do ti Miguel e mais tarde do Tonho Valente coixinho ).
Temos tamém o Cabeço da Lapa Longa, que faz atestada com o do Val Carapito e fica a descair sobre a horta e vinha das retortas de cima que pertenceram aos Henriques e mais tarde foram compradas por João Monteiro.
Os Cabeços do Castelo, que eram pastagem do gado do ti Miguel e tamém do ti Zé dos Santos Melisso ), tendo como pastores o Tonho Miguel e o Fernando dos Santos Parrado ). Muntos anos mais tarde tamém foi pastagem do gado do Zé Fonseca (Laranja). Em dada ocasião na banda do Pinguelo , o António Miguel encontrou umas libras de ouro que dizem que renderam uns bons patacos.
Os Cabeços do Vale Castenheiros eram a pastagem da piara de gado do ti Manel Cá Cá. A bem dizer este não era o seu nome mas o apolido que lhe vinha por môr de ser gago. Era um home que não sabia ler, escrever, ou contar. Mas contava as ovelhas à entrada para a córte dezendo os seus nomes - lá vai a russa, já passou a parda, aqui vai a garrocha- e assim quando chegava a última o home sabia se estavam todas ou não. É que por grande que fosse o rebanho todas elas tinham nome e os pastores até as conheciam plo berrar como quem conhece uma pessoa plo falar.
Depois temos o Cabeço do Penicôto , pastagem princepal do gado do ti João Marques, e até parece que inda ali estou a ver especado o filho mais velho de nome Manel que era o pastor lá de casa.
No Cabeço da Pedreira pastoreava o ti Júlio Rasteiro;
Um pouco mais acima no Cabeço dos Labaços , andava o ti Francisco Cerdeira (pai dos Cerdeiras -João e Zé). Do ouro lado, nos Chães de Concelho era o Tonho Rasteiro que inda é vivo.
Nuns cabeços ali prá mogueira era a piara do ti Mergildo guardada plo filho Zé, quando não pla Maria.
Nos cabeços da Fraga era o ti Francisco Nifo, que passava o tempo àpraguejar e a esquemungar as cabras mesmo sem que andassem a fazer mal algum. Era um pintaço que só visto e ouvido. Até os barrocos coravam de vergonha.
O Cabeço do Vale da Lapa é pra mim o cabeço mor. De tamanho tal que dava pra alimentar as piaras do ti Chico Cunha, Do Ti Tonho Rasteiro da Arrifana e do ti Manel Cedeira e mais tarde filho ti Fernando. Aí os pastores passavam uma vida regalada.
Por último o rei dos cabeços. Os Chães da Forca onde podiam andar todas as piaras. Era um cabeço de todos e de ninguém, pois era baldio. Há outros de menos momeada como o Cabeço do Bispo, que por ora não nomeio, pois está-se a cabar a folha do papel no computador.
Uma munto bôa noute pra tod


De V.M. a 20 de Dezembro de 2010 às 23:53
FORMIDÁVEL! vale a pena ler. Parabéns ao Sr. Jarmeleiro por estes ensinamentos que partilha com todos os Vilarmaiorenses .


De Anónimo a 21 de Dezembro de 2010 às 08:50
Sr. Jarmeleiro
Depois de ler os seus escritos fico a pensar:
Sendo o senhor uma pessoa da Vila, tem que ser ou não saberia tanta coisa sobre essa aldeia tão remota, a sua memória é assaz digna de respeito. Não estou a ver ninguém que tenha tido a paciência de apontar todos os nomes das tapadas, dos cabeços, dos pastores e até das cabras...
Sim, porque se fosse só das propriedades ainda pensava que o Sr. não seria um Sisote do Sabugal, daqueles que infernizavam a vida das pessoas.
Mas nem quero pensar nisso ou não seria capaz de lhe desejar com todo o gosto, muitos anos de vida e BOAS FESTAS. Fico à espera do resto dos Cabeços, pois minha mãe delicia-se a ouvir ler todo este rol de nomes que tanto lhe dizem. Um muito obrigada e por favor não coma queijo, que queremos continuar a gozar da boa saúde de tal memória.
Delente bôs dias.


De Jarmeleiro a 21 de Dezembro de 2010 às 19:49
Pois é tal qual como diz. Posso-me gavar da minha boa memória. Mas nas coisas da vida tudo se pode esplicar. E eu já ouvi alguem intendido dizer que aprender e fixar certas cousas tem um tempo certo. Ora, mim esse tempo na minha infâmcia e mocidade quando por aqui fiquei agarrado à terra. Outros sairam pra fazer estudos e aprenderam outras cousas mais importantes, mas não saberão destas coisas como eu. E se sua mãe sabe destas lidas do campo é porque se calhar tamém por cá ficou de nova. E vá-se lá a saber se algumas vezes não trabalhámos lado a lado nas fainas agícolas: numa ceifa, numa malha ou numa arrancadela de batatas. Mas não intenda com isto que estou a dezer que pertenço à Vila pois naqueles tempos os de umas terras tamém iam trabalhar para as outras. Uma coisa é certa. Sitote isso não, embora sabemdo eu que quando iam às terras abancavam em certas casas _ eu até sei de uma- , comiam e boiam à barba longa e tudo à borliu. Mas isso são outras histórias que até podem ficar pra aqui falar mais tarde.
Munto agradecido plas Boas Festas, as quais lhe devolvo e tamém um feliz Ano Novo com muntas cousas bôas
Tanha uma bôa noute.


De manuel fonseca a 10 de Fevereiro de 2011 às 22:39
este barroco pertence-me.


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