Quinta-feira, 3 de Março de 2011
PRIMEIRA PARTE
Aqueles que tal como eu amanharam as tapadas e samearam algumas fanegas de grão, sabem quantas voltas há que dar ao pão até chegar à mesa do rico, do pobre do rei, à Casa de Deus e até ao pai nosso, na passage do pão nosso de cada dia. E eu como muntos outros, até comemos o pão que o diabo amassou. Ora e por môr dele ser o alimento princepal em casa de cada um, é que reza o ditado; Casa onde não há pão todos ralham e nenhum tem razão. Mas indo agora às fainas do pão temos:
A decrua da terra, que era feita durante a Primavera nas tapadas onde em Julho se havia ceifado , rasgado-se aterra pelas gomas dos regos deixados da colheita anteroir. Faço aqui um àparte pra dezer que as terras de pão eram semeadas ano sim ano não pois ficavam um ano de poisio. Depois, pelos meses de Junho Julho fazia-se a estravessa, lavrando-se de atravesso os regos feitos na decrua, mas quando a torna era estreita lavrava-se de forma inviezada pra que as vacas, ou burros não virassem tantas vezes, já que isso era tempo perdido. lá por Novembro faziam-se as sementeiras e para isso era preciso gradear a terra desfazendo os regos deixados da estravessa. Aí era ver o lavrador montado na grade de madeira segurando-se com uma das mãos ao rabo de uma das vacas, aguilhada na outra mão, pra frente e pra trás até deixar a terra lisa e pronta pra receber a semente. Logo a seguir com um saco de estôpa ao ombro contendo o grão, ia retirando o mesmo repetidamente, de mão cheia e certeira lançando-o à terra por gestos ritmados e passadas certas, de maneira que as sementes ficassem destribuidas por igual, não fosse o pão nascer ralo ou aos mochões. O calibrador da saída da sementes era composto plo dedo polegar e plo indicador, conforme se abriam mais ou menos. Uma vez espalhada a semente era coberta com a abertura de novos rêgos, feitos no sentido contrário dos da estravessa. Pelo mês de Março o pão era aricado, serviço feito com arado de pau, de abecas curtas de maneira a lavrar alviando a terra do fundo do rego e sem apanhar a goma aonde iria crescer o o cereal . Este serviço tinha por fim matar ervas, dar algum barbeito à terra e desimpedir o rêgo pra evitar o estancamento das águas impedindo que o pão ficasse chôco e amarelado . Em Julho juntavam-se os ranchos de ceifeiros e enquanto ceifavam as louras cearas lançavam cantigas ao vento e d'algumas inda me lembro bem. Finda a ceifa, em cada tapada os molhos eram juntos por todos e enrolheirados, por quem sabia, de modo que as espigas ficassem protegidas pela palha, por môr dos animais não as comerem e tamém pra não se molharem caso viesse alguma trevoada. E o tempo da malha estava logo ali a chegar, pois como dezia o ditado, quem malha em Agosto malha com desgosto. Mas o pão só podia ser malhado na eira e pra isso era preciso acarranjá-lo, o que se fazia nos carros das vacas com aqueles estadulhos especiais, altos lisos e luzidios. E não fosse a demora, até esplicava aqui a maneira complicada como a carrada dos molhos era feita travando-se uns aos outros. Fica pra outra vêz. Trazido para a eira carro carro, os molhos eram empihados na méda que tamém não era feita à toa, mas segundo certas regras. Depois, era a malha que quando feita a mangual, era cousa digna de se ver. Mas esse e o resto dos passos do pão, fica pra mais logo, porque a hora já vai adiantada.
Munto bôa noute a todos.
De Jarmeleiro a 4 de Março de 2011 às 02:18
VERBOS DE QUE SE FAZ O PÃO - PARTE DOIS
Ora atão , no seguimento do que tinha dito anteriormente quanto às voltas do pão, lá plo mês de Agosto havia que malhá-lo. Mas malhá-lo à maneira antiga, com manguais e outros utensílios de uso nessa faina, pois as malhadeiras só viriam mais tarde. E malha feita em casa de lavrador, havia de ser com mais de dez homes e quatro ou cinco mulheres. Tratava-se aquase sempre de trabalho à troca e não a jornal, ou seija , o labrador pagaria com o seu trabalho e o da junta de vacas aos malhadores. E o dia começava de manhê cedo em casa do lavrador com o almoço, comendo-se mais das vezes um caldo batata acabado de fazer, seguido das batatas retiradas da mesma panela do caldo tempradas com colorau e com o molho dos chicharrões que juntamente com alguns enchidos serviam de acompanhamento. E claro, a pinga não podia faltar. Uma vez chegados à eira, começava-se a retirar os molhos da meda, abriam-se e estendiam-se ordenadamente no chão até se formar a eirada . Seguidamente, os homens pegavam nos manguais punham-se cara a cara, metade de cada lado e vai de malhar sobre o centeio com pancadas certas, recuando os que estavam de costas para a eirada e avançando ao mesmo passo os de frente, até chegarem ao fim daquela envelga. Aí chegados, davam uns passos para o lado e recomeçavam em sentido contrário, repetindo sempre até terminarem aquela eirada , altura em que entravam as mulheres pra levantarem e enfaixarem a palha que os homens atavam com nagalhos preparados na véspra . E estas operações eram repetidas até ser malhado o último molho da méda. E agora seria a altura da marenda que neste dia e nunca intendi porquê, tinha o nome de bica. Teminada esta breve refeição era altura de começar a limpa do grão, começando através de encinhos de madeira por retirar os cuanhos, que mais não eram que palha retraçada plos manguais e que não dava atadura para enfaixar, sendo levada para os palheiros por meio de lençóis de estopa atados pelas quatro pontas. Seguidamente pedia-se a todos os santos umas boas rabanadas de vento que favorecessem a limpa do grão, o que era feito levantando-o ao ar com uma pá rasa, de madeira, de modo a que o vento separasse o grão, mais pesado, das preganas , da moinha, da nigela e dos cornachos . Aqui o trabalho das mulheres era importante, pois ao mesmo tempo que o homem da pá levantava o grão, iam com a ajuda de vassouras feitas de cuanhas apartando as impurezas que caiam no monte do pão. Mas aí tinham que se proteger com o seus chapéus de palha e lenços da cabeça para se livrarem de toda aquela morganhada . Limpo o pão, varrida a eira e apanhados os rabos pra deitar às pitas, era hora do lavrador junguir as vacas e ir à eira buscar a carrada de sacos de centeio, que despejados na velha arca de carvalho, a deixariam de cagulo se a colheita fosse boa . A partir daqui houvesse saúde pró comer, pois mulher de lavrador, sabia de olhos fechados todos os passos a dar até chegar à mesa, inda que precisasse dos serviços do moleiro e do forneiro. E no dia seguinte à malha, ala... Fala com um dos moleiros da vila, não sei se o Nifo , ou talvez os Henriques e manda moer uma fanega, mas na pedra borneira porque funde mais do que na alveira . Tirada a maquia pelo moleiro e recebida a farinha, diz a um dos filhos; Vai ali à ti Zabel Afonsa a pedir o fermento e se ela não o tiver vai à ti Maria Augusta ou às dos Adriões. E no dia seguinte, mãos à obra; Fala com o forneiro pega na peneira e aparta o farelo; Prepara a maceira, farinha pra dentro água, fermento e toca a amassar. Dá algum tempo à espera que finte; Puxa dos tabuleiros, cobre-lhe o fundo com lençóis de linho e começa a tender. A seguir, forno da praça com ele porque no do poço do açougue já não havia vez. Mas ali como há outras pessoas para coser na mesma fornada, há que cada um marcar os seus pães para não haver trocas; uma cruz, duas poças... Passada cerca de uma hora é tirá-lo, pagar a poia ao forneiro, levá-lo pra casa e partir uma das bôlas feitas com os restos da massa de raspar a masseira. E Como era o primeiro do ano a mãe tinha-lhe metido uma chouriça lá dentro. Que maravilha.
Munto bôa noute pra todos e... haja saúde e coza o forno
De Trovador a 4 de Março de 2011 às 15:28
Os meus agradecimentos a esta pessoa, pela oportunidade que me concedeu, de, muito facilmente, me fazer regressar ao Vilar Maior de há cinquenta ou sessenta anos atrás.
mais uma vez, muito obrigado.
De V.M. a 4 de Março de 2011 às 22:15
Como sempre, não deixando os seus créditos por cearas/fornadas alheias o Sr. Jarmeleiro continua a presentear-nos com os seus conhecimentos, que nos permitem fechar os olhos e recordar os tempos de infância, dos tempos da verdadeira lavoura e da grande azafama que se vivia na NOSSA TERRA e nas da região.
De Adagius a 5 de Março de 2011 às 15:08
Pão bolorento,
vinho vinagrento,
Sardinha salgada,
cava tu enxada.
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