O senhor Fernando, ninguém ousaria tratá-lo por ti Fernando, vindo da Orca, por paixão que tomou pela beleza da menina Adélia a quem se acrescentava a mais-valia da formação de professora do Magistério Primário, deu a terras de Vilar Maior. Por cálculo grosseiro estaríamos na década de 40 do século passado. Do matrimónio dos dois jovens resultou uma extensa prole de cuja educação se encarregou a professora Adélia que os encaminhou, sem excepção, para os estudos em que todos foram bem sucedidos.
O senhor Fernando era mais para os negócios. Tinha efectivamente um espírito empreendedor notável. Como diz, Jarmeleiro no seu comentário, terá chegado aqui como um estranho e olhado com desconfiança. Terá comprado a parte mais pobre ( e mais extensa) das terras – cabeços, tapadas e lameiros - do casal dos Pessanhas, maioritariamente situadas na margem esquerda do rio Cesarão. Está por esclarecer se foi por sorte ou por palpite. O mais certo é que se tenha dado a sua conjugação, resultando daí ter adquirido as maiores jazidas de minério existentes no limite da vila e cuja mineração junta com o contrabando do mesmo para Espanha trouxe um afluxo de dinheiro que inebriou todos. O senhor Fernando trouxe os primeiros sinais de uma revolução industrial – mandou instalar carris e uma vagoneta para deslocação do minério. Ainda sem outra energia que não fosse a dos animais e humanos. Esse afluxo de dinheiro permitiu dar asas aos sonhos e, ali para os lados dos Regatos mandou construir condutas de água com uma altura considerável que presumo nunca terem sido terminadas e ignoro se alguma vez funcionaram.
Construir em tão pouco tempo uma fortuna deve-lhe ter dado uma autoconfiança extraordinária. E da burra com que chegou passa a comprar um carro, e mais outro e outro ainda. De três me lembro ver na praça. Carros enormes a que a falta de estradas e de habilidade profissional tornavam de pouca utilidade, mas que constituíam um sinal exterior de considerável riqueza.
O senhor Fernando foi o primeiro capitalista (e o último?) de Vilar Maior. Porque qualquer outro valor valia na medida em que aumentasse aquele. Ao contrário dos outros ricos não lhe interessava a auto-suficiência e a policultura. Cultivava aquilo que pudesse ser vendido: milho e feijão, sobretudo. As vacas não eram para trabalhar primeiramente, mas para ter crias que pudesse vender e ninguém tinha tantas como ele.
Ao contrário dos outros que assentavam as relações de trabalho primariamente em laços de parentesco e de patrocinato, o senhor Fernando pagava em dinheiro todo o trabalho que lhe era prestado. Por isso desdenhava dos ricos tradicionais, das suas devoções, das vistas curtas, dos seus tradicionalismos. Alardeava o seu sucesso traduzido em maços de notas que desfolhava aos olhos de todos, tal como não deixava de se passear pela praça quando num dia de caça feliz, pendiam da cintura perdizes e coelhos. Eram dias felizes.
A França ainda não tinha chegado.
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