“Quem não sabe o que lhe acontece puxa pela memória para salvar a interpretação do seu conto, pois não é totalmente infeliz quem puder contar a si mesmo a sua própria história” ZAMBRANO (1995:22)
O que aconteceu nesta aldeia é o espelho do acontecido em muitas outras da Raia Sêca, em que se integra, da Beira e mesmo deste país. Haverá necessariamente diferenças, mas haverá concerteza invariantes que uma multiplicação de estudos de caso poderia evidenciar. É assim que PORTO (1984:514) contrapõe à vantagem das análises baseadas em dados estatísticos que nos fornecem uma perspectiva geral do fenómeno migratório “... o maior mérito a estudos de âmbito restrito, ao nível de pequenas comunidades, onde é possível chegar a conclusões precisas a problemas tão diversificados em todas as suas componentes”. Além disso, estes trabalhos menores têm interesse para as próprias comunidades locais enquanto memória e construção da sua identidade; enquanto discurso em que sentem ser os protagonistas de um momento da história local de que é tecida a história geral. Porque a história como a vida é feita de pequenos nadas.
População da Vila do Sabugal, do Concelho, do distrito e de Vilar Maior, 1864-1981
|
|
POPULAÇÃO RESIDENTE |
|
% MUDANÇA |
||||||
|
|
1864 |
1920 |
1960 |
1970 |
1981 |
2001 |
1960-70 |
1980-81 |
1960-81 |
|
Sabugal |
1550 |
2312 |
2908 |
2251 |
2223 |
|
-22.6 |
-1.2 |
-23.6 |
|
Concelho |
25143 |
34750 |
38062 |
23732 |
19174 |
|
-37.6 |
-19.2 |
-49.6 |
|
V. Maior |
696 |
708 |
612 |
281 |
249 |
168 |
-54.1 |
-11.4 |
-59.3 |
|
Guarda-Distrito |
214507 |
259386 |
282606 |
213538 |
205103 |
|
-24.4 |
-4.0 |
-27.4 |
O quadro é elucidativo sobre a diminuição de população olhando apenas à quantidade. Porém é fácil de pressupor que a população que permanece é aquela que pela condição social ( p. Ex.proprietários não trabalhadores) ou pela idade, ou por indingência vária, não é produtiva.
“Se por desenvolvimento se entender, não um mero crescimento económico ou mesmo a simples melhoria das condições materiais e de realização das capacidades materiais de vida , mas antes o processo dinâmico de satisfação das necessidades fundamentais e de realização das capacidades intrínsecas económicas, sociais culturais e políticas dos povos, implicando ainda a sua valorização contínua, aparece de uma forma bem clara a relação entre aqueles movimentos populacionais e este conceito" p. 165
Ausência de política de emigração e de retorno
1º Emigra porque na sua região( ou noutras partes do seu país) não encontra o que pensa encontrar no estrangeiro
2º Enquanto emigrante o envio das suas poupanças e a ‘propagação’ dos seus padrões de consumo e das suas novas formas de pensar repercutem-se não apenas na sua região de origem, mas nas regiões vizinhas, e no todo nacional
3º No seu regresso com a paragem do envio de remessa das suas poupanças e a sua vinda como factor produtivo e agente inovador.
Repulsão/atracção/informação
A emigração insere-se no contexto de um desenvolvimento desigual. Por isso as pessoas migravam par Lisboa, por isso depois vão migrar as de cá e muitas de Lisboa para França. Na procura de uma vida melhor. No fundo está sempre o fenómeno do desenvolvimento desigual que é o gerador dos movimentos de atracção/repulsão.
Despovoamento, envelhecimento da população, alteração/destruição do sistema produtivo e com ele da própria estrutura sócio-cultural . Basta atentar na evolução regressiva da população escolar, agravamento do desequilíbrio demográfico.
O círculo vicioso porque emigra-se por não haver condições e não há condições porque a força produtiva se vai. Não se trata de escoar apenas a mão de obra excedentária, porque vai muito além disso.
Passamos do tradicional carro de vacas para a carroça de burros, de ovelhas para cabras e deixa-se de semear o pão pela dificuldade em o obter; deixa-se definitivamente a cultura do linho; as mulheres assumem novos papéis e tornam-se gestoras e são juntamente com os filhos quem vai mantendo a tradicional forma de produção da família. Passam a vir os lavradores de terras vizinhas a ganharem as jeiras para lavrar a veiga ou a vinha. Sobem os salários. Os homens que deixam cá as mulheres. Diminuem os gados e com eles o estrume; as terras de cultivo vão diminuindo rapidamente: 1º as centeeiras e são maior parte, depois são as terras de produção vitícolas, cujas vinhas cada vez mais mal tratadas, é incentivado pela CE o arranque que subsidia; mais tarde serão as veigas ribeirinhas, e por último o impensável: as hortas da Ribeira, minusculas parcelas familiares donde provinham as hortaliças. Com tudo isto é o próprio ecossistema que se altera: as terras a monte propiciam a propagação de incêndios que para além das condições propícias beneficiam da atitude demissionária das populações: deixa ARDER , telefonem para os bombeiros; já não se tocam os sinos a rebate. As cadeias são interrompidas A fauna (lagartos,...) agravado pelo uso e abuso de químicos nas terras. De uma auto-subsistência (importava-se o sal, o acúcar, o arroz ....) a uma dependência total em que tudo se compra. A actividade que gera algum dinheiro é o leite, razão porque as vacas de trabalho são, em grande parte substituídas agora pretas e brancas ditas turinas são estimadas e porque os lameiros são de todas as terras as mais valorizadas. Os burros continuam a ser os mais úteis dos animais. O porco dá muito trabalho e tudo o que dá muito trabalho é abandonado por isso deixou de ser criado ; tudo o que exige muita mão de obra é abandonado – o pão exige um rancho para ceifar, um grupo de malhadores. Mais tarde haverá uma recuperação com a aquisição de maquinaria (tractores, ceifeiras/debulhadoras, enfardadoras...) embora os elevados encargos (salariais tb) não sejam compensatórios
O impacto começa no momento de partida do emigrante logo pela sua ausência da comunidade de origem como elemento produtivo, social e cultural; a sua ausência é logo notada quando se trata do artesão - do alfaiate, do sapateiro, do pedreiro etc. que se traduz numa dimensão demográfica. Pelo dinheiro que começa a chegar e que vai alterar padrões de consumo. Enfim, produz-se cada vez menos e consome-se cada vez mais. A vila urbaniza-se e a lenha é substituída pelo gás e o fogão é o primeiro electrodoméstico que vai chegar aos lares. É bom de ver o conjunto de alterações que este facto provoca. A par deste impacto junta-se a partir de 75 a chegada da luz eléctrica que permite a utilização da televisão , o uso do frigorífico e arcas congeladoras. Se a isto juntarmos a distribuição do correio ao domicílio; da água ao domicílio e das estradas alcatroadas temos o conjunto de factores para uma vila urbanizada e de pessoas que deixaram de depender umas das outras podendo cada um isolar-se em casa e viver a sua vida. A igreja passou a ser o único local onde as pessoas se reúnem. Água, luz e estrada eis a trilogia que modernizou a vila e que a par do impacto da emigração deram um novo rosto e criaram um novo estilo de vida.
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