Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

O Faia rompe sempre

         Por vezes, o baptismo que o povo faz é que vale. Quem sabe o nome de baptismo deste cristão? A Faia, terra de sua naturalidade, é uma pequena aldeia confinante com outra pequena aldeia – a Misarela, do concelho da Guarda. Tal como a Faia a Misarela, posta nas fundura dos montes, soalheira  e virada ao sul, com o Mondego por perto, de parcas terras agrícolas trabalhadas em cômoros na necessidade cega de conquistar mais um palmo da terra. Os Invernos passavam-se só Deus sabe como que fome e frio são mal dobrado. Deste modo se ansiava pela Primavera com as cerejeiras floridas prenúncio da abundante e primeira fruta que tirasse a barriga de misérias. Daí que o humor e a resposta variassem consoante a estação do ano. No Inverno, de voz lamurienta e sumida:

- De onde és, meu menino?
- Sou da Misarela, terra nunca o fora!

Na Primavera com o burro carregado de fruta, de voz altiva:

- De onde és, meu menino?

- Sou da Misarela! Se quer alguma coisa, vai o arrocho entre a carga!

Conta-se que o Faia, na terra que lhe deu o nome, guardava a cerejeira e que um pássaro lhe roubou uma cereja. Furibundo, o jovem Faia, bota em correria cega atrás do ladrão do pássaro durante tanto tempo que acabou por se encontrar perdido e, às cegas, caminhou em sentido tão inverso que deu a terras do Carvalhal. Tão cansado e esfomeado, adormeceu sob frondoso Carvalho que assombrava uma nora que servia viçoso renovo. Foi aí que Maria da Luz, madrugadora na dessedentação do batatal e demais primores, quando tapava os olhos da burra – que há trabalhos que nem um burro aceita fazer de olhos abertos – se assustou com o jovem que dormia profundamente.

- Demo do rapaz! Dorme para aí cum raio que te parta! disse para si.

Entrementes a água chegava  ao fundo do rego e virava tornadoiro, não lhe saía da cabeça o raio do rapaz.O trote da burra, o compasso ritmado do travão e o marulhar da água a cair na caldeira embalaram o sono do Faia até o sol ir já alto. E foi só quando esta orquestra sem maestro se silenciou, seguida do estridente resfolegar da burra e bater de orelhas a espantar as moscas que o Faia acordou.

 

publicado por julmar às 15:35
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Ainda o ti Faia

De Dofaleiro a 4 de Julho de 2008 às 00:31
Como esboço de retrato dos personagens não está nada mal, sobretudo pelos traços a preto e branco , carregados de simbolismo. Aliás, as únicas cores cores com que se podiam retratar, ao tempo, a grande maioria dos Vilarmaiorenses . Do ti Faia do Carvalhal , conheço uma peripécia que presenciei "in loco" no pontão da "Pontaguarda " e a qual, em resumo, se traduz no seguinte: Para este homem que passava a semana de enxada na mão o domingo era mesmo sagrado e cumpria religiosamente o mesmo ritual. Manhã cedo dirigia-se a Vilar Maior, julgo que não com o intuito de ir à missa, porquanto em termos de capelas ou igrejas a que melhor conhecia era a (taberna) dos Gatas. Assim, num certo fim de tarde, de regresso ao Carvalhal, bem temperado, ao chegar ao referido pontão ficou especado olhando-o fixamente como que a medi-lo, assim ficando por uns minutos talvez pelo facto do caudal ir grande e revolto. Finalmente, lá iniciou a travessia, muito vagarosamente, mas assim que pôs o pé no início do tabuleiro, colocou-se de gatas e foi nessa posição que fez o percurso. Perante tão insólita atitude, dei comigo a pensar se naquele dia o ti Faia teria bebido a conta certa. Estaria mesmo bêbado? Estou em crer que não e, fugindo à regra, a carga não vinha completa , pelo que, não conseguindo ver três pontões, não pôde optar pelo do meio: Assim, sentindo-se inseguro usou as devidas cautelas. Tem isto a ver com o que se diz bêbados; vêm sempre três caminhos e escolhem, impreterivelmente, o do meio.
publicado por julmar às 14:01
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Os jornaleiros: O Faia e o Lavajo

De O Cota a 2 de Julho de 2008 às 15:42
Pois então e à laia de lamiré sobre o retrato dos dois jornaleiros (quase criados) do professor Pinheiro, aí vai um esboço da fotografia que eu lhes traço a preto e branco, pois que naqueles tempos, pelo menos para estes personagens, retrato a cores era impossível.
Assim, para além de um e outro trabalharem quase diariamente em casa do professor, possuíam em comum outras particularidades, tais como:
Para ambos a vida terá sido madrasta, já que a caneta (enxada) com que escreveram (cavaram)durante uma vida, não lhes trouxe nem fortuna, nem cultura. Nasceram pobres e incultos e assim morreram;
A calosidade das suas mãos, podia ser medida pela lisura dos respectivos cabos das enxadas que, saliente-se, eram de um brilho intenso, como se tivessem sido afagados com a lixa do mais fino grão e envernizados a preceito com o melhor dos vernizes. Tudo, porque a descava, a cava ao camalhão e a esborralha das vinhas das Gaiteiras, Porto Sabugal, Buraco , Galhardos, etc., a isso davam azo;
E eles, que tanto labutavam nas vinhas de outrém, tambem comungavam do gosto (ou seria vício?) pelo precioso néctar, o qual, ironicamente, a maioria das vezes compravam. Se o Deus Baco existe, estou certo que ambos pertencerão à sua guarda de honra ou, no mínimo, à legião dos seus eleitos. Outra particularidade e talvez relacionada com a anterior, tem a ver com o facto da garotada assim que pressentia que o vinho lhes tinha subido à cabeça, não mais os largava e logo começavam a ser alvo das suas judiarias, azocrinando-lhes o juízo. Então quem não se lembra do" pintanso" dos rapazes com o António Lavajo e e a luta deste em defesa da sua boina espanhola? Já antes acontecera com O Craveiro, com a Maria Cuca, Com o ti Manel Adrião e tantos outros. Um sortilégio da malta nova que haviam de ter, à falta de outro entretenimento, como que uma espécie de bôbo da côrte para animar as tardes domingueiras.
publicado por julmar às 18:43
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