Domingo, 26 de Junho de 2011

Os Emigrantes – Ferreira de Castro

Às vezes, cada vez mais, sento-me no escritório e vêm-me à memória as leituras do passado. Corro com o olhar as prateleiras das estantes de livros, onde estão muitas horas da minha vida,  olho as lombadas  e pego num. Desta vez, é um livro velhinho de páginas amarelas com aquele característico cheiro dos livros antigos. Ao abri-lo lá está a data 03-06-72. Comprado no alfarrabista que o dinheiro era pouco.  Releio a introdução e um dos capítulos finais. Lá estão as terras que bem conheceria a partir de 1973: Ossela ( e a casinha de Ferreira de Castro à beira das estrada, hoje casa museu do autor), Castelões (a terra de Manuel da Bouça, personagem principal), as Baralhas e tabernas, onde porventura, também passei, a Gandra  e as paisagens descambando no rio Caima. E a memória da figura de Ferreira de Castro que passava férias na Pensão Suiça, em Macieira de Cambra.

No meu tempo de professor de Português, em todas as antologias, vinham excertos das obras de Ferreira de Castro. Hoje está esquecido, como muitos outros. É um dos autores portugueses  mais traduzidos nas sua múltipla obra: Alemanha, França, Argentina, Bélgica, Checoslováquia, Espanha, estados Unidos da América, Holanda, Hungria, Inglaterra, Jugoslávia, Noruega, Polónia, Roménia, Rússia, Suécia e Suiça.

Introdução

«Os homens transitam do Norte para o Sul, de Leste para Oeste, de país para país, em busca de pão e de um futuro melhor.

Nascem por uma fatalidade biológica e quando, aberta a consciência, olham para a vida, verificam que só a alguns deles parece ser permitido o direito a viver. Uns resignam-se logo à situação de elementos supérfluos, de indivíduos que excederam o número, de serem o que são apenas no sofrimento, no vegetar de uma existência condicionada por milhentas restrições. Curvam-se aos conceitos estabelecidos de há muito, aceitam por bom o que já estava enraizado quando eles chegaram e deixaram ir  assim, humildes, apagados submissos, do berço ao túmulo – a ver, pacientemente, a vida que vivem outros homens mais felizes. Alguns, porém, não se resignam facilmente. A terra em que nasceram e que lhes ensinaram a amar com grandes tropos patrióticos, com palavras farfalhantes, existe apenas, como o resto do mundo, para fruição de uma minoria. E eles, mordidas as almas por compreensíveis ambições, querem também viver, querem também usufruir regalias iguais às que desfrutam os homens privilegiados. E deslocam-se, e emigram, e transitam de continente em continente, de hemisfério a hemisfério, em busca do seu pão.

Mas em todo o Mundo, ou em quase todo o Mundo, vão encontrar drama semelhante, porque semelhantes são as leis que regem o aglomerado humano. Não esmorecem, apesar disso. Continuam a transitar de ingénuos olhos postos na luz que a sua imaginação acendeu, enquanto os mais ladinos, aproveitando todas as circunstâncias ou criando-as até, fazem oiro com a ingenuidade dos ingénuos.

Eles continuam a transitar com uma pátria no passaporte, mas em realidade sem pátria alguma, pois aquela que lhe é atribuída pertence apenas a alguns eleitos. Para eles, ela só existe quando nos quartéis soam as cornetas de guerra ou nas repartições públicas se recolhem tributos. É assim na Europa e é assim nos outros continentes.

Nasce o homem e se não dispões de riqueza acumulada pelos seus maiores, fica a mais no Mundo. Entra na vida – já se disse e é bem certo – como as feras nos antigos circos – para a luta! Luta para criar o seu lugar, luta contra os outros homens, luta pelas coisas mesquinhas e não pelas verdadeiramente nobres, por aquelas que contribuiriam para maior elevação humana. Para essas quase não há tempo na existência de cada um…»

publicado por julmar às 18:00
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