Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012
O mangual é um aparelho de debulha de cereal, mormente de centeio, composto de dois paus - o CABO e o PIRTIGO, ligados e articulados numa das extremidades por tiras de couro ou cordas amarradas de formas várias - a MEÃ,
O malhador empunha o cabo com uma das mãos e bate com o pirtigo o cereal espalhado na eira.
O mangual parece ter surgido na Europa entre os seculos III E V da nossa era, numa região do mundo germânico, compreendida entre os rios Reno e Mosela.
Difundido seguidamente por todo o Continente, é natural que tenha sido trazido pelos invasores godos para a Península Ibérica e encontra densidade maior na area do centeio, ou seja na Galiza e metade norte de Portugal.
Daí, certamente, acompanhando a Reconquista, irradiou para o Sul, onde, porém, nunca teve a mesma importância, porque nessa área, onde predomina o trigo, foi vencido na função de debulhador, pelo trilho.
Entre nós, o mangual veio substituir os primitivos processos de debulha—a percussão directa do cereal que se bate aos molhos contra qualquer prancha, a debulha com uma vara, com que é batido o cereal—o que terá estado na origem do mangual—e a debulha ao pé do gado—esta a origem do trilho...
Regista-se a existência de vários tipos de manguais, consoante o processo de ligação do pirtigo ao cabo.
Sábado, 8 de Dezembro de 2012
Na nossa vizinha Espanha, o quarto país na produção mundial do vinho, a cultura da vide era já abundante no tempo dos Plinios, o Velho,o Moço e o Medio.
Tradicional, manteve-se sempre a grande nível, sendo variadíssimos os seus vinhos desde os mais finos aos correntes
Exemplifiquemos com o CARTA BLANCA, com farta percentagem de alcool.
Com o MONTERREY, branco e seco, caracteristico da Galiza, como o RIBEIROS e o ALVARIÑO
Com o gostoso VALDEPEÑAS
Com toda uma gama de RIOJAS
Com o XEREZ e os MALAGAS, secos e adocicados
E hoje com os VEGAS CECILIAS, das encostas de Valhadolid
E que dizer, perguntam os especialistas, da generosa MANZANILLA, de Sao Lucar de Barrameda e dos CONHAQUES IMPERIAIS
Qual o português, pergunta o tratadista EURICO GAMA, cuja lição IN VINO VERITAS estamos seguindo de perto, que não faz o seu contrabandozinho de um CARLOS I, se é homem de posses, de um FUNDADOR ou OSBORNE, se é pessoa de mais minguados recursos...
Depois, continua aquele autor, o vinho em Espanha é castiço como o flamengo e irrequieto como as salerosas castañuelas.
As características BOTAS, inchadas pela fresca MANZANILLA correm de boca em boca a dessedentar gargantas nas praças de touros e nas alegres e coloridas romarias,
O vinho bebe-se no intervalo das impressionantes procissões, enquanto a amargurada verónica enxuga o rosto.
Domingo, 2 de Dezembro de 2012
Em memória de Joaquina Santa, primeira distribuidora do correio na Vila
«Chegou enfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper até ao mostrador, onde pousou a maia. O «director», depois de tossir, de assoar-se, de suspirar e de limpar os óculos com umas delongas, que formavam com a ansiedade do povo um contraste desesperador, abriu neumáticamente o saco, extraiu um não muito volumoso maço de cartas, que despejou num cesto de vime, e tomou apontamentos.
Era digno do pincel de um artista aquele grupo de fisionomias, que seguiam ávidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bocas abertas, mãos juntas, pescoços estendidos, a cabeça inclinada para receber o menor som, tudo caracterizava profundamente a ansiedade que lhes dominava os ânimos.
Mestre Bento Pertunhas achou a ocasião apropriada para dizer a Henrique : — Pois, senhor, eu nasci para artista, quase sem mestre aprendi a tocar trompa e, não é por me gabar, mas prezo-me de tocar com certo mimo e expressão.
Henrique volveu o olhar para o auditório ; apiedou-o a consternação daquelas fisionomias. Resolveu valer-lhe.
— Tem a bondade de ver se há alguma carta para mim ? — Ah ! pois já as espera hoje ? — Não é provável; porém...
Mestre Bento Pertunhas, em vista disto, começou em voz lenta e fanhosa a leitura dos sobrescritos.
Seguiu-se novo e não menos interessante espectáculo.
A cada nome proferido, erguia-se quase sempre uma voz, às vezes um grito ; estendia-se por cima das cabeças um braço, e, podemos acrescentar, ainda que se não visse, alvorotava-se um coração.
Outros, os não nomeados ainda, olhavam com ansiedade para o maço. que diminuía, e cada vêz mais se lhes assombrava o semblante.
— Luisa Escolástica, do lugar dos Cojos — lia o mestre Pertunhas.
— Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem! — exclamou uma mulher jovem, apoderando-se avidamente da carta.
— Joana Pedrosa, de Serzedo — continuava — Aqui estou ; será do meu Antônio, senhor ? — disse uma velha, pobremente vestida.
— Será do seu Antônio, será — respondeu o insensível funcionário ; — o que lhe posso dizer é que traz obreia preta.
A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo aquelas sinistras palavras. Apanharam-lha; e ela, tomando-a, saiu da loja, a chorar lastimosamente.
— Se foi o filho que lhe morreu, não sei o que há-de ser dela — dis;e um dos circunstantes.
— Coisas do mundo ! — respondeu outro.
Estes comentários foram interrompidos pela continuação da leitura.
— João Carrasqueiro.
— Pronto, senhor — bradou um velho.
— A mesada, hem ? — disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos óculos. — O rapaz não se esquece.
— Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem saído.
— D. Madalena Adelaide de...
— É a morgadinha, é a morgadinha — disseram a um tempo muitas vozes.
— Agradecido pela novidade ; era cá muito precisa a explicação — disse o Pertunhas : e passando a carta para uma mulher, que era a encarregada de fazer a distribuição a quem a podia gratificar, acrescentou : — Leve-lha a casa.
E prosseguiu: — Augusto Gabriel...
— É o mestre-escola...
— Ora fazem o favor de estar calados ! Esta .. como ele vem por aqui... pode ficar... ainda que... será melhor levar-lha a casa, leve, leve também...
— João Cancela.
— É o João Herodes.
— Esse foi a Lisboa.
— Então, quando vier, que apareça.
— O tio Zé-Pereira ficou de receber as cartas. É compadre dele.
Eu não quero saber de compadrices. O tio Zé-Pereira que se ocupe com o seu zabumba e deixe lá os outros.
A leitura mais ou menos acompanhada destes diálogos prosseguiu, redobrando de momento para momento a ansiedade dos que iam ficando.
Um fundo suspiro, uníssono, melancólico, expressivo de desalento, seguiu-se à leitura do último nome e às poucas palavras, com que o funcionário fechou a tarefa.
— E acabou-se.
Os que ainda estavam na loja saíram cabisbaixos, morosos e com tão má vontade, como se ainda tivessem esperança de comover a inexorável sorte.»
In, A Morgadinha dos Canaviais, Júlio Dinis
Faleceu no hospital da Guarda, tendo-se realizado o funeral hoje em Vilar Maior, a nossa conterrânea Joaquina Fernandes, filha de Domingos Fernandes e Maria dos Santos. Segundo os meus registos a Joaquina Santa (Joaquina Santa) filha da ti Santa como era conhecida entre nós, terá nascido em 1922. Guardo memória do ti Domingos, guardador de cabras e da ti Santa, vizinhos no trato de terras no caminho do Porto Sabugal.
Da Joaquina fica a memória de uma mulher religiosa e de uma mulher de bem, convivendo os longos anos de sua vida com uma doença respiratória que lhe dava um ar de permanente cansaço. Depois que o correio deixou de ser levantado no comércio do senhor Aníbal Gata (lembram-se da cena do Bento Pertunhas, em A Morgadinha dos Canaviais?), foi aprimeira distribuidora do correio ao domicílio, por iniciativa do padre Francisco Vaz.
E assim ficamos menos. Paz à sua alma.
Sábado, 1 de Dezembro de 2012
Padroeira das mulheres amantes da boa pinga
Julgamos que se trata duma invenção de folcloristas, pois não encontramos a celícola referenciada na lista da flos sanctorum.
Aliás, o nome Bebiana, parece corresponder a uma ordem bebe-lhe Ana
Haverá, assim, uma corruptela, como em certas ordens batismais.
Na cerimónia lustral perguntava o celebrante
Que nome daremos á menina
Respondia a velha avó …bote.lhe Ana ...prante-lhe Ana
O escrivão registava Prantelhana ou Botelana e assim nasciam duas onomásticas....
O mesmo terá sucedido com as comadres da confraria bebe Ana, dando por crase a nova patrona - Bebeana ou Bebiana que, alcandorada a orago tinha de ser santa.
De resto, o nome de Ana, por ser o da avó do menino Jesus vale como símbolo
Para o bem e para o mal, se é que pode falar-se do mal, falando do vinho.
E o vinho é coisa santa
Que nasce da cepa torta
Embora
A uns faça perder o tino
E a outros errar a porta
Mas o vinho alegra
In vino,veritas, loetitia et loquacitas
E faz esquecer as mágoas
In taverna quando sumus non scimus quid sumus
E
Bonum vinum loetificat cor hominum mulierunque
Segundo o latino adágio, da generosidade tonificante do vinho beneficia todo o casal e para não ficar atrás, a mulher na ocasião bebe pelo garrafão.
Gil Vicente deixou-nos antever o que é a sede das mulheres no pranto da Maria Parda a lamentar as tavernas secas.
Rua de cata que farás
Que farei e que farás
Quando vos vi sem vinho
E tornei-me para trás…
Que foi do vosso bom vinho
E tanto ramo de pinho
Onde bebemos Joana
E eu cento e um cinquinhos
Quero-me ir ás taverneiras
Taverneiros, medideiras,
Que me deem uma canada
Sobre o meu rosto fiada
A pagar lá pelas eiras...