Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

O universo na nossa terra

 

Terra, água, ar e fogo foram disputados, nos filósofos gregos, como elementos primordiais de que as coisas eram feitas. Contrapondo à exclusividade de um só elemento Empédocles afirmou a necessidade dos quatro na composição dos corpos e Aristóteles, baseado na teoria dos quatro elementos, teorizou a mais bela e perfeita das cosmologias. Apesar disso, era redondamente falsa. E apesar de falsa era e é extremamente útil. Continuamos a sentir-nos no centro do universo, confortáveis por o sol andar à nossa volta, pela imutabilidade do firmamento, por sabermos que os corpos pesados, como a terra, caem para baixo (tanto mais depressa quanto mais pesados são) e que os mais leves, como o fumo e o fogo sobem. Era um mundo de simpatias em que o semelhante tendia para o semelhante ( similia similibus agregantur), dispondo-se as massas do universo de acordo com o seu peso: terra, água, ar e fogo. Neste mundo tudo está, naturalmente, no lugar que lhe convém. A desordem, o desiquilíbrio, o conflito são desarranjos acidentais e passageiros. Um universo perfeito. Tão perfeito que o cristianismo o aceitou como doutrina religiosa, trocando apenas a impessoalidade do Motor Imóvel do filósofo pagão por Deus Pai, criador do céu e da terra. Não somos naturalmente cristãos, mas somos naturalmente aristotélicos. A física de Aristóteles é perceptível e evidente. Mas falsa. Quando passados 15, 16 séculos de cristianismo com o geocentrismo como doutrina oficial da Igreja não lhe era fácil aceitar o heliocentrismo. Por isso a perseguição e condenação dos que se desviassem da doutrina oficial. Galileu, aos 73 anos, abjurou, talvez não por querer viver mais anos, mas para evitar as torturas e morte na fogueira como aconteceu a Giordano Bruno, entre outros. Noventa anos antes da condenação de Galileu (1633), Copérnico (1473-1543), no leito da morte, publica a obra De Revolucionibus Orbium Coelestium, em que é defendido o heliocentrismo. Porém, a obra estava escrita em latim ( o que significava que apenas os eruditos tinham acesso à sua mensagem), era muito grande, tinha muitos cálculos matemáticos e o monge que a prefaciou, bem ao contrário, do que fica demonstrado no corpo da obra, apresentava o heliocentrismo como uma hipótese. Nesse tempo, reinavam os Filipes de Espanha em Portugal, os judeus já tinham sido expulsos e, em Vilar Maior, o sol indiferente às teorias, levantava-se todas as manhãs, depois do cantar dos galos.

publicado por julmar às 11:53
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2013

Cai neve

 

 

Fui buscar a foto ao facebook porque a neve no facebook derrete muito depressa. Aqui sempre vai durar mais tempo. É da natureza do facebook que assim seja e está muito conforme ao império do efémero da sociedade actual. Não se trata de ser mal ou bem, melhor ou pior. É simplesmente como é e se é simplesmente como é, é porque é da natureza das coisas assim ser. Sendo que sendo assim, assim será.

publicado por julmar às 11:40
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

Vilar Maio no século XX

(Fotografia do 1º quartel do século XX)

Vilar Maior viu chegar muito tardiamente, em relação ao país urbano, muito dependente do mundo rural, muitas estruturas e infra-estruturas que ditavam o estado civilizacional (vias de comunicação, telefones, água ao domicílio, electricidade, saneamento). Na primeira metade do século XX as formas de produção e as relações sociais eram mais próximas da Idade Média do que da época industrial. Só no último quartel do século há acesso a vias de comunicação alcatroadas, a transportes públicos, a água, luz e telefone domiciliado. No entanto, olhando o século XX, vemos um conjunto de obras impressionantes, sendo que antes de 1974, elas decorreram essencialmente do esforço conjugado dos habitantes da freguesia, sendo mais relevantes as ligadas ao culto religioso. A freguesia tinha no ano de 1900, início do século, 200 fogos e 738 habitantes, população que ainda haveria de crescer até meados do século. No primeiro quartel deu-se a implantação da República que aqui teve as suas sequelas na luta contra a Igreja, na dinamização do ensino elementar; o impacto da Primeira Guerra Mundial em que participaram alguns conterrâneos - lembro-me do ti Ferreira contar as façanhas na linha da frente; a emigração para a América do Sul (Argentina e Brasil) e os que demandavam melhor vida nas colónias. O factor económico mais relevante do segundo quartel foi a exploração mineira - estanho e volfrâmio - mercado dinamizado pelas necessidades dos beligerantes da Segunda Guerra Mundial. Foi intensa a exploração mineira, sobretudo na margem direita do Cesarão, na década de quarenta, estendo-se à década de cinquenta já em acentuado declínio. Foi uma significativa fonte de rendimento acrescentado pelo contrabando noturno. O segundo quartel é caracterizado no seu início por uma exaustão dos recursos naturais e que teve como válvula de escape, a par da juventude que ia para a guerra do Ultramar ( Índia nos finais de cinquenta, logo seguida de todas as outras colónias), a grande diáspora a caminho de França, com que se iniciou, até agora de forma irreversível, o abandono da agricultura, o despovoamento e envelhecimento da população. O período de 1960 a 1974 é um período de separacões, de medo e saudade. A única maneira de chegar a França era a salto. Iam os homens e ficavam as mulheres e os filhos. Os filhos ou iam a salto pra a França ou iam para a Guerra. Os homens amealhavam avidamente francos que mandavam para Portugal. Poupavam com sofreguidão, pois, como diziam a " França não vai durar sempre". Os que na terra precisavam de mão de obra e não a tinham alimentavam essa esperança no fim do 'El- Dourado', e, secretamente, em tom de vingança: " eles vão ver quando a França acabar!" E no medo que a França acabasse começaram a comprar as terras que "os ricos" não tinham quem nelas trabalhasse, ou de terças ou de meias as quisesse trabalhar. Durante estes 15 anos, a vida tornou-se mais leve e doce. As mulheres com os filhos que cá ficaram iam continuando os trabalhos da lavoura e do gado mas trocaram a rega através da nora, pelo ensurdecedor mas eficiente motor, as regadeiras de pedra ou terra pelas mangueiras de plástico, o pesado carro de vacas pela carroça puxada pelo burro, uma ou duas vacas leiteiras em vez da piara do gado. Cultivando menos, cada vez menos, aproveitando os pastos que eram cada vez mais para produzir leite. Leite que foi uma das maiores fontes de rendimento durante a década de setenta e oitenta em que era recolhido uma ou duas vezes por semana pela Martins e Rebelo de Vale de Cambra. O Último quartel do século XX podemos dividi-lo entre o período de 1974, a Revolução de Abril até à adesão de Portugal à CEE em 1 de Janeiro de 1986. É um período de perplexidade, incerteza e esperança. Finalmente, os emigrantes não tinham mais que ir assalto; terminava a guerra do ultramar. Alguns conterrâneos, com o processo conturbado da descolonização, viram conturbadas as suas vidas que tiveram de refazer noutros territórios. A adesão à CEE trouxe a certeza aos emigrantes que a França não acabaria mais; para a Vila trouxe dinheiro, subsídios a troco de coisa nenhuma. A culpa não foi da CEE, mas da ausência de projectos da política portuguesa que nunca teve um plano de desenvolvimento par o interior. Mais uma vez o dinheiro entrado aqui ( tal como o aforro dos emigrantes) entrou nos bancos que o canalizaram para onde o lucro era maior: Lisboa e litoral, tornando o país pequeno num Portugal mais pequeno ainda. E é assim que dos 200 fogos e 738 habitantes do início do século XX, teremos chegado ao final com pouco mais que um décimo desses números.

publicado por julmar às 15:05
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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

Há cem anos

Em 1913 há o registo de 29 nascimentos. Dado o elevado índice de mortalidade infantil, muitos não terão vingado. De outros nos lembramos ainda e outros de deles ouvir falar.

Ana

Serrano, José Brigas

Feliz, Maria Rosa

António

Esteves, Manuel

Cunha, Maria

António

Silva, Henrique

Fernandes, Emília Alves

António

Valério, José

Proença, Maria dos Anjos

António

Cerdeira, Manuel

Carmo, Maria do

Anunciação

Augusto

L., Guilhermina

Augusta

Gata, João António

Esperança, Maria Neves

Belmira

Gil, Augusto

Soares, Isabel

Diamantino

Martins, Bernardo

Vasco, Faustina

Filomena

Margarido, José

Bárbara, Miquelina

Francisco

Garcia, Joaquim

Monteiro, Mariana

Glória

Bárbara, António

Afonso, Alexandrina

Hermínia

Leonardo, Albino

Silva, Isabel Maria

Isabel

Ferreira, João Simões

Laiginhas, Ana Martins

Isabel

Fonseca, Joaquim

Pires, Maria

Isabel

Gomes, Joaquim

Monteira, Ana

João

Rasteiro, José

Passareira, Maria Amélia

José

Brigas, Joaquim Bernardo

Lourença, Maria

Josefina

Badana, José

Gonçalves, Balbina

Júlio da Cruz

Gata, António

Cruz, Maria Alves da

Manuel

Valério, António

Prata, Maria

Manuel

Nunes, Alípio

Ándrade, Isabel

Maria

Lavajo, Manuel

Proença, Beatriz

Maria Augusta

Costa, Francisco

Augusta, Maria

Maria Cândida

Proença, Júlio

Augusta, Mariana

Maria Mercês

Cerdeira, Francisco

Monteira, Filomena

Mariana

Simões, António

Urbana, Isabel Clotilde

Raúl

Araújo, Alexandre Gonçalves

Gouveia, Mariana

Teresa

Gil, José Júlio

Ferreira, Isabel Maria

publicado por julmar às 18:48
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Foram minhas testemunhas



Há 36 anos na Senhora da Graça (Sabugal) num belo dia de sol desejaram-me felicidade. Muitos já partiram, outros cresceram tanto, e outros tornaram-se velhos.



E os amigos (de Vale de Cambra) de sempre, para sempre.

publicado por julmar às 16:59
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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

A Cidade e as Serras

Então chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade, augusta creação da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta cinzenta da Terra – uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! (…) Hein, Jacintho?... Onde estão os teus Armazens servidos por tres mil caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n’uma nodoa parda que suja a Terra. (…) – Sim, é talvez tudo uma illusão… E a Cidade a maior illusão! (…) E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só n’ella tem a fonte de toda a sua miseria. Vê, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a força e belleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda (…)! Na Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ella lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre e subalterno, a sua vida é um constante sollicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os d’um carcere ou d’um quartel… (…) Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Intelligencia, por que ou lh’a arregimenta dentro da banalidade ou lh’a empurra para a extravagancia. (…) Todos, intellectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pégadas pisadas; – e alguns são macacos, saltando no topo de mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade, n’esta creação tão anti-natural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através d’arames – o homem apparece como uma creatura anti-humana (…). E aqui tem o bello Jacintho o que é a bella Cidade! Em de Eça de Queiroz, 1901 (1.ª ed.)

publicado por julmar às 10:38
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Sábado, 12 de Janeiro de 2013

O AJIMEZ DE VILAR MAIOR

O presente texto foi retirado da página da ARA - Associação de Desenvolvimento, Estudo e Defesa do Património da Beira Interior.

Este achado foi trazido por mim e pelo meu sogro (António Seixas) do lugar de Santa Marinha, na margem esquerda do Cesarão no limite com terras de Aldeia da Ribeira. Tinha notícia que por ali houvera uma capela, indiciada pelo topónimo "Santa Marinha", razão que me levou a procurar por ali algum vestígio. A procura não foi em vão. Dentro do montão de pedras não foi possível encontrar qualquer outra que denotasse função ou decoração especial. Certamente terão levado outras que mostrassem ter uma utilização mais óbvia que o ajimez. 

 http://www.ara-patrimoniobi.com/index.php?option=com_content&view=article&id=176:ajimez&catid=46:pecas-arqueologicas&Itemid=93

 

O AJIMEZ DE VILAR MAIOR   PROVENIÊNCIA:Vilar Maior (Sabugal) MATERIAL: Granito

 

O ajimez de Vilar Maior, há muito “abandonado” entre as pedras arquitectónicas que se encontram expostas no largo de entrada no museu local, tem finalmente o seu reconhecimento e visibilidade. Apesar de não se tratar de uma peça deslumbrante, as formas e dimensões que apresenta conferem-lhe uma singularidade enquanto peça decorativa integrante de um monumento. O exemplar de Vilar Maior é uma peça arquitectónica única em todo o concelho do Sabugal e o segundo a ser referido no distrito da Guarda (apenas se encontram referências a um outro em Trancoso, mais concretamente na freguesia de Vilares). Não sendo uma peça fascinante, este ajimez sobressai pelas suas dimensões e pelo seu razoável estado de conservação, uma vez que está completo, apresentando apenas pequenas fracturas nas extremidades, das constantes transladações a que já foi sujeito. O monólito foi esculpido, em granito friável e grosseiro, de cor cinzenta (granito típico da região), apresenta um contorno sub-rectangular de superfícies não alisadas. Na base, onde são evidenciadas pequenas fracturas, apresenta dois recortes em forma de arco de ferradura que ultrapassam em cerca de 3/4 o raio de circunferência. Apresenta 1,03 m de comprimento na zona superior e 0,85 cm na parte inferior, de altura tem cerca de 0,40 cm. Os arcos ultrapassados, o do lado esquerdo mede cerca de 0,22 cm de largura e 0,29 cm de altura, o do lado direito tem 0,24 cm de largura e 0,30 cm de altura, o mainel central dos arcos tem cerca de 0,15 cm na parte inferior e 0,10 cm na parte superior.  

Uma das particularidades desta peça é que uma das faces ostenta em toda a extensão, uma inscrição gravada. No nosso decalque, feito pelo técnico de arqueologia Hugo Palhete, obtivemos a seguinte leitura: «1962 / VI / NOB C(a)STELO», que poderá interpretar-se como «Nobre Castelo, (em) Junho de 1962». O facto de quem esculpiu os caracteres se referir ao castelo, será que pensaria que a peça pertencia ao castelo de Vilar Maior? Sendo todo o texto escrito na mesma altura, a inscrição deverá ser de cronologia do séc. XX, tendo talvez sido aplicada sobre este elemento arquitectónico na altura da sua descoberta. Os caracteres que apresenta têm suscitado, também, alguma especulação. A investigadora francesa Nicole Cottart, observando a pedra e a respectiva inscrição, na vertical, vê aí letras árabes. O facto de o ajimez apresentar as faces lisas, (a inscrição foi feita posteriormente) com arcos ultrapassados e sem decoração, leva-nos a estabelecer paralelos com outros ajimezes existentes no nosso país. Com uma maior concentração destes elementos na zona Norte do país, o exemplar de Vilar Maior é muito semelhante, pelas suas características, com as peças provenientes de Santa Leocádia de Geraz de Lima (Viana do Castelo), Santa Maria de Geraz de Lima (Viana do Castelo), Areias de Vilar (Barcelos), Lordelo (Guimarães) e Vitorino de Piães (Ponte de Lima).  

Este elemento demonstra, pelas suas especificidades, que foi trabalhado e esculpido como elemento arquitectónico utilizado no lintel da janela de um imóvel religioso, assentaria sobre umas impostas verticais com um pilarete central. Em Vilar Maior, a inexistência de vestígios árabes na aldeia e na periferia põe de parte a hipótese da peça ser moçárabe. Contudo, pelo facto de apresentar os arcos ultrapassados, poderemos afirmar que sofreu influências deste período. A relativa abundância de monumentos e elementos móveis, na aldeia, de estilo românico leva-nos a datar esta peça desse período alto-medieval. Poderemos afirmar que o ajimez de Vilar Maior, pelas suas características, poderá datar do período românico, com influência moçárabe, devido aos arcos, e apontamos para uma cronologia entre os meados do século X e a primeira metade do século XI. Estamos, assim, perante mais um elemento de grande valor patrimonial que evidencia a grande riqueza monumental e histórica desta aldeia.   Paulo Jorge Lages Pernadas  

publicado por julmar às 12:18
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013

A propósito do poema «A doce voz do avô»

Desde o Eclesiastes bíblico ao filósofo grego Heraclito que somos alertados a tomar consciência da mudança: Tudo passa, tudo muda. Porém, hoje tudo passa tão rápido, é tudo tão efémero, é tão grande a aceleração, é tão vasta a diversidade que se oferece aos nossos sentidos, é tudo tão espetacular que o difícil é parar, reparar e pensar. Tão entregues ao negócio (nec+ótio), desprezamos o ócio que é apontado não como causa mas como uma condicionante do aparecimento da filosofia entre os gregos. Só o vagar nos permite aceder e usufruir da cultura naquilo que ela tem de mais precioso e de mais inútil: A arte e a filosofia. Por falta de tempo, por não termos vagar, por causa da pressa de chegar não sabemos bem aonde, perdemos na nossa senda de caminheiros, preciosidades.

Tudo isto a propósito do poema, inserto neste blog, abaixo – A doce voz do avô –da autoria do Dr. Leal Freire. O poema é de uma beleza extraordinária ao nível da mensagem, do ritmo, da prosódia que me faz lembrar o melhor de Augusto Gil ou de Gomes Leal.

O meu convite, ao leitor, é para que pare. E repare. Experimente dizer o poema em voz alta. Sinta-lhe o peso. Não tenha pressa.

Quantas vezes leu? Vá lá, leia outra vez

publicado por julmar às 19:11
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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013

A DOCE VOZ DO AVÔ - Dr Leal Freire

Pedra negra, telha  vã,

Postigos de pau de  pinho

Caibros  queimados  do fumo

O chão de frinchas  luradas

 

Noite  negra, noite  feia,

Freme  o vento, rola  a  neve

É baça  a  luz da  candeia

Bate o cravelho da  porta,

 

É verde o molha da  lenha

Enfumado o palheirinho

O caldo  que ferve  ao  lume

Só  água  e boa  vontade

 

Mas o avô  conta  coisas

Que  excomungam fumo  e fome

Douram a  neve e  o negrume

E fazem da  água  caldo  de  anjos.

publicado por julmar às 17:21
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Pedir para o lobo - Dr Leal Freire

 Há cem anos, os lobos constituíam, aí para as moitas, um bem perigoso perigo. Para os homens e sobretudo para os gados. E de entre estes, sobretudo para as ovelhas, que dormiam nos campos, até para os adubar. E que, tendendo a tresmalhar-se pelo terror que os lobos lhes incutiam, não permitiam defesa, quando o ataque era de alcateia, mesmo se o pastor dava conta do assalto e dispunha de dois bons cães de molosso. Por vezes, a vítima era um ou outro burro que passava a noite desgarrado. Ou cria desamparada de vaca ou égua. Em casa de meus avós, chegou a haver um garrano que exibia uma falha de pele, levada por dentuça de lobos e que só não terá sofrido maiores estragos por a mãe égua e uma mula que pastavam conjuntamente terem corrido a lobeda. No tocante a nós, homens, os ataques seriam mais raros. No entanto, a lenda, deixa-nos relatos vários de sucessos e insucessos de que os protagonistas só saíram vivos, graças aos isqueiros e ferrinhos ou então a rijos pulmões que atroaram os ares com feros gritos de à coa. Quem leu selectas e não se lembre de sustos no Marão de heróis camilianos ou dos terrores do Malhadinhas, de Aquilino, nas serranias da Lapa. Eu tenho o relato dum familiar próximo que se disse perseguido por um lobo desde que atravessou a Ribeira de Arnes, ali entre a vila do Sabugal e a aldeia de Rendo, até fechar a porta da sua residência na Bismula. A montada, uma média mula, estremeceu quando deu pela presença do lobo. Assim advertido e alarmado puxou do seu faz-lume e acendeu um caporal. O lobo pôs-se-lhe no encalço, à distância de coice e meio para não provocar as iras da muar. Assim o seguiu ate Rendinho, entrada de Rendo, tendo então desaparecido. Mas na Rendela, que assinala o fim daquela povoação, voltou a postar-se-lhe à ilharga, o que motivou a cachimbalhada de mais uma vagem dos quentuques. A cena repetiu-se à entrada e saída, tanto da Ruvina, como de Ruivós, povos intermédios. Mas na Bismula, o lobo foi ainda mais atrevido. Só parou à porta da loja, onde o meu tio guardou a égua. E, mesmo assim, marcando as tábuas com uma paturrada. Aliás, ficou ali de sentinela, aguardado a saída do homem para o atacar. Mas este subiu ao primeiro andar pela escada interior. Tudo verdade jurada e autenticada pela marca das patas da alimária. E o meu tio ou o viu claramente visto ou o sonhou, toldado pelo vinho. De qualquer modo, a lenda tambem pode ser real. Por isso, participar na dizimização das alcateias era obrigação da comunidade. E os que abatiam um exemplar tinham direito ao reconhecimento geral. Era pendurar a pele do bicho à porta da Paroquial e esperar pelo óbulo.

publicado por julmar às 17:17
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