Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado!
Eu ainda não fiz viagens
E a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar.
Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exatamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa.
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
Almada Negreiros

A Ronda - Pintura de Alcínio Vicente, de Aldeia do Bispo
Em todas as povoações integrantes do antigo concelho de Vilar Maior, como ,de resto,em toda a orla raiana do Riba-Coa, existiu até aos idos de cinquenta do século passado, a CONFRARIA DOS SOLTEIROS, também conhecida por RAPAZIADA,cujas raízes históricas mergulham em épocas muito recuadas,não sabemos se até aos conturbados tempos da Reconquista Cristã.
Solteiro não era, na linguagem corrente da Região ,todo o rapaz que ainda não casara, mas simplesmente aquele que já pagara o vinho.
O NOSSO ZÉ JÁ É UM SOLTEIRO, eis uma expressão invejosamente repetida pelos irmãos mais novos do felizardo, que já se anteveem circulando livremente como ele, altas horas da noite, pelas ruas do povoado, a frequentar os serões; a participar nas rusgas e tocatas; a deslocar-se noite adentro às aldeias vizinhas, onde os confrades os recebem com fartas libações de vinho, trigo e chouriças, e as moças casadoiras com cobiçosos olhares...
Por toda aquela corda de povos, o toque das almas era sinal para que os garotos recolhessem a casa.
De facto, as mães não tinham que se preocupar em chamar os filhos para a ceia.
Caída a noite,um moço da confraria,embrulhado numa mantarrona de lã que o torna irreconhecível, gritando um gutural vai-te à cama e brandindo uma vergasta de marmeleiro ou carripoto,vai fazendo desparecer, às vezes mesmo com uma chibatada, os mais renitentes ou aqueles que se esqueceram que terminara o seu tempo de rua.
Cria-se,assim, na mente dos mais pequenos,uma atmosfera de lenda,a respeito da vida nocturna do povoado, de modo que a primeira ambição do rapazola, que já fez dezasseis anos, tem corpo e alma para dar e levar duas arrochadas e já se sente com dois guisos entre as pernas, é pagar o vinho à rapaziada...

No fundo do fundo da Praça ficava o quintal do ti João Marques onde o Tenente Palos e outros ilustres acharam ser o sítio perfeito para implantação do Chafariz, contrariando o parecer do Sr Presidente da Câmara. Por mim, hei-de ter ouvido as conversas inconformadas de meu pai e a resignação da minha mãe sobre a expropriação do quintal ; hei-de ter ouvido as imprecações do meu pai abafadas nas machadadas do do pessegueiro; dias mais tarde terei ouvido o truca-truca do cinzel dos pedreiros, mestres na arte da cantaria, que bloco após bloco preparavam o corpo que seria a expressão da grande epopeia. Ouvi sem saber o que ouvia. Depois, chegado a este mundo, ao colo da minha mãe, vi sem ver, as pessoas que seguiam os gestos ritualizados do sr Tenente a cujo mando, qual Moisés batendo com a vara na rocha, duas torneiras se abriram em jorros de água que abafafaram as palmas dos circunstantes.
Tal como na Bíblia: «A água jorrou em abundância, e a comunidade e os animais puderam beber» (Liv. Números 20-21)
Com o tempo o meu pai conformou-se. Antes que o muro branco e caiado saísse dos alicerces meteu uma videira do quintal para dentro do curral cujo tronco engrossou de modo a suportar uma frondosa latada que, além da doçura do fruto, amenizava com a sua sombra o calor dos estios. A videira passou a Videira e a fazer parte da família durante mais de quatro décadas. Quem se atrevesse a ser perfeito deveria olhar para esta videira que se despia no Outono para que os raios brandos do sol aquecessem a varanda e se vestia no estio para nos proteger da inclemência tórrida do Verão.
E foi nessa varanda debaixo da latada, frente ao chafariz, que aprendi o mundo porque todo, quase todo, o mundo por ali passava. As raparigas namoradeiras, que mais do que matar a sede, vinham esperançadas na aparição do seu príncipe encantado; as criadas dos homens ricos com cântaro na cabeça e um balde em cada mão ou porque os ricos bebem mais do que os pobres, ou porque têm de rentabilizar o tempo que mal pagam; as mulheres solitárias que espairecem e colhem novidades velhinhas pelo caminho; e a Maria Cuca cuja tontaria já não incomoda ninguém e a quem os garotos fazem a vida negra. A cena é sempre a mesma. Basta atirar-lhe a frase:
- Ó Maria, já te vou roubar o sabonete!
Atira com os baldes de lata, agarra pedras, corre e atira-as à canalha, gritando: - Filhos da puta! Filhos da puta!
Todos se habituaram, ninguém se preocupa com a Maria. Ninguém se preocupa com a loucura.
A água jorra consoante as épocas do ano continuamente das duas torneiras, de uma torneira só ou apenas mediante a abertura .. As pessoas dizem, com orgulho, que nenhum outro povo tem assim tanta água e de tão boa qualidade. Os forasteiros que por aqui passam consolam-se; os peregrinos que demandam a Senhora da Ajuda da Malhada Sorda bebem e abastecem-se para o caminho.
Mas o vivo – mais o gado grosso que o miúdo – não foi esquecido e foi feito um pio encostado ao muro caiado que fizeram ao meu pai. E debaixo da latada eu vejo os homens dando de beber às vacas e aos burros, tantas vezes que eu conheço tão bem o jeito dos donos como os modos dos animais. E conheço o assobio com que cada um incentiva as alimárias a beberem. Os garotos, incapazes de manobrar as torneiras do Chafariz dessedentavam-se no Pio que grande era aqui a fraternidade entre homens e animais; ou, então, brincavam com a água às massarecas: um montículo de terra com uma covinha que enchiam com água transportada na boca, recipiente mais seguro que as pequeníssimas conchas das mãos. E quando a violência dos barulhos levava ao derramamento de sangue, era ao Pio que acorriam para lavagem do sangue. E como o princípio do sábio Francês Lavoisier aqui tinha integral cumprimento, na Natureza nada se perde tudo se transforma, as sobras das águas eram arrematadas pelo sr Fernandinho para regar o Chão da Ponte.
O chafariz chegou quando eu cheguei e estava tão naturalmente ali como a Videira do meu pai. Era um belo chafariz e na festa do Senhor dos Aflitos os rapazes solteiros roubavam flores com que o enfeitavam, e as donas das flores, ainda que mostrassem o contrário, sentiam-se felizes por terem sido roubadas as suas flores. E quando aparecia alguém com máquina fotográfica era no chafariz que tiravam os retratos.
Depois, gente que não era da vila, e não ouviu as histórias de como o povo ergueu o Chafariz, decidiu em nome da estética urbanística retirá-lo do fundo do fundo da Praça.
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