Domingo, 5 de Maio de 2013

Porque Hoje é Dia da Mãe

 

 

Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado!
Eu ainda não fiz viagens
E a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar.
Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exatamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa.
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros

publicado por julmar às 10:24
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Sexta-feira, 3 de Maio de 2013

A CONFRARIA DOS SOLTEIROS - Dr Leal Freire

Ponda - pintura de Alcínio

A Ronda - Pintura de Alcínio Vicente, de Aldeia do Bispo

Em  todas  as  povoações integrantes   do  antigo  concelho  de   Vilar  Maior, como ,de  resto,em  toda   a  orla  raiana    do  Riba-Coa, existiu    até   aos  idos   de  cinquenta   do   século  passado, a  CONFRARIA   DOS  SOLTEIROS, também  conhecida  por   RAPAZIADA,cujas  raízes   históricas   mergulham  em  épocas  muito  recuadas,não  sabemos    se   até  aos  conturbados   tempos   da   Reconquista   Cristã.

Solteiro  não  era, na  linguagem  corrente  da   Região ,todo   o  rapaz  que  ainda  não casara, mas   simplesmente  aquele   que   já  pagara  o vinho.

O NOSSO  ZÉ   JÁ  É  UM  SOLTEIRO, eis   uma  expressão  invejosamente  repetida    pelos  irmãos   mais   novos  do   felizardo, que  já  se  anteveem   circulando livremente   como  ele, altas   horas  da  noite, pelas   ruas  do povoado, a  frequentar  os serões;  a  participar nas  rusgas   e  tocatas; a  deslocar-se  noite   adentro às  aldeias  vizinhas, onde   os  confrades   os  recebem  com fartas  libações  de   vinho, trigo   e  chouriças, e  as  moças   casadoiras   com  cobiçosos  olhares...

Por  toda  aquela  corda  de  povos, o  toque  das  almas  era   sinal    para   que os  garotos   recolhessem   a casa.

De  facto, as  mães   não  tinham   que  se  preocupar   em   chamar  os  filhos   para  a  ceia.

Caída   a  noite,um  moço da   confraria,embrulhado  numa   mantarrona   de    lã  que  o torna   irreconhecível, gritando  um  gutural  vai-te  à   cama  e  brandindo  uma  vergasta  de  marmeleiro  ou carripoto,vai  fazendo desparecer,  às   vezes   mesmo  com  uma   chibatada,  os  mais  renitentes   ou  aqueles   que  se esqueceram   que  terminara   o  seu  tempo  de  rua.

Cria-se,assim, na  mente  dos  mais  pequenos,uma   atmosfera   de  lenda,a  respeito    da   vida  nocturna   do povoado, de  modo   que  a  primeira   ambição   do  rapazola, que  já  fez  dezasseis  anos, tem   corpo  e  alma  para  dar  e  levar   duas  arrochadas   e já  se  sente  com  dois  guisos   entre as  pernas, é   pagar   o  vinho à  rapaziada...

publicado por julmar às 10:44
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As Grandes Obras doSéc.XX - A àgua VII

Casa família

No fundo do fundo da Praça ficava o quintal do ti João Marques onde o Tenente Palos e outros ilustres acharam ser o sítio perfeito para implantação do Chafariz, contrariando o parecer do Sr Presidente da Câmara. Por mim, hei-de ter ouvido as conversas  inconformadas de meu pai e a resignação da minha mãe  sobre a expropriação do quintal ; hei-de ter ouvido as imprecações do meu pai abafadas nas machadadas do do pessegueiro; dias  mais tarde terei ouvido o truca-truca  do cinzel dos pedreiros, mestres na arte da cantaria, que bloco após bloco preparavam o corpo que seria a expressão da grande epopeia. Ouvi sem saber o que ouvia. Depois, chegado a este mundo, ao colo da minha mãe, vi sem ver, as pessoas que seguiam os gestos ritualizados do sr Tenente a cujo mando, qual Moisés batendo com a vara na rocha, duas torneiras se abriram em jorros de água que abafafaram as palmas dos circunstantes.

Tal como na Bíblia: «A água jorrou em abundância, e a comunidade e os animais puderam beber» (Liv. Números 20-21)

Com o tempo o meu pai conformou-se. Antes que o muro branco e caiado saísse dos alicerces meteu uma videira do quintal para dentro do curral cujo tronco engrossou de modo a suportar uma frondosa latada que, além da doçura do fruto, amenizava com a sua sombra o calor dos estios. A videira passou a Videira e a fazer parte da família durante mais de quatro décadas.  Quem se atrevesse a ser perfeito deveria olhar para esta videira que se despia  no Outono para que os raios brandos do sol aquecessem a varanda  e se vestia no estio para nos proteger da inclemência tórrida do Verão.

E foi nessa varanda debaixo da latada, frente ao chafariz, que aprendi o mundo porque todo, quase todo, o mundo por ali passava. As raparigas namoradeiras, que mais do que matar a sede, vinham esperançadas na aparição do seu príncipe encantado; as criadas dos homens ricos com cântaro na cabeça e um balde em cada mão ou porque os ricos bebem mais do que os pobres, ou porque têm de rentabilizar o tempo que mal pagam; as mulheres solitárias que espairecem e colhem novidades velhinhas pelo caminho; e a Maria Cuca cuja tontaria já não incomoda ninguém e a quem os garotos fazem a vida negra. A cena é sempre a mesma. Basta atirar-lhe a frase:

- Ó Maria, já te vou roubar o sabonete!

Atira com os baldes de lata, agarra pedras, corre e atira-as à canalha, gritando: - Filhos da puta! Filhos da puta!

Todos se habituaram, ninguém se preocupa com a Maria. Ninguém se preocupa com a loucura.

A água jorra consoante as épocas do ano continuamente das duas torneiras, de uma torneira só ou apenas mediante a abertura .. As pessoas dizem, com orgulho, que nenhum outro povo tem assim tanta água e de tão boa qualidade. Os forasteiros que por aqui passam consolam-se; os peregrinos que demandam a Senhora da Ajuda da Malhada Sorda bebem e abastecem-se para o caminho.

Mas o vivo – mais o gado grosso que o miúdo – não foi esquecido e foi feito um pio encostado ao muro caiado que fizeram ao meu pai. E debaixo da latada eu vejo os homens dando de beber às vacas e aos burros, tantas vezes que eu conheço tão bem o jeito dos donos como os modos dos animais. E conheço o assobio com que cada um incentiva as alimárias a beberem. Os garotos, incapazes de manobrar as torneiras do Chafariz dessedentavam-se no Pio que grande era aqui a fraternidade entre homens e animais; ou, então, brincavam com a água às massarecas: um montículo de terra com uma covinha que enchiam com água transportada na boca, recipiente mais seguro que as pequeníssimas conchas das mãos. E quando a violência dos barulhos levava ao derramamento de sangue, era ao Pio que acorriam para lavagem do sangue.  E como o princípio do sábio Francês Lavoisier aqui tinha integral cumprimento, na Natureza nada se perde tudo se transforma, as sobras das águas eram arrematadas pelo sr Fernandinho para regar o Chão da Ponte.

O chafariz chegou quando eu cheguei e estava tão naturalmente ali como a Videira do meu pai. Era um belo chafariz e na festa do Senhor dos Aflitos os rapazes solteiros roubavam flores com que o enfeitavam, e as donas das flores, ainda que mostrassem o contrário, sentiam-se felizes por terem sido roubadas as suas flores. E quando aparecia alguém com máquina fotográfica era no chafariz que tiravam os retratos.

Depois, gente que não era da vila, e não ouviu as histórias de como o povo ergueu o Chafariz, decidiu em nome da estética urbanística retirá-lo do fundo do fundo da Praça.

publicado por julmar às 00:14
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